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Jarbas Maciel: O recolhimento de um discreto polímata

Em fase metafísica e de revisão de conceitos, professor cujas competências vão da matemática e da física à música e a filosofia, mantém crítica ao Modernismo e faz mea culpa a Chico Science

TEXTO Carlos Eduardo Amaral

01 de Setembro de 2014

Jarbas Maciel

Jarbas Maciel

Foto Roberta Guimarães

Foram cerca de duas horas e meia de conversa. Ao final, já era uma da tarde e sua esposa estava impaciente, querendo que eu liberasse o marido para o almoço. Propus a Jarbas, então, que marcasse outra data para continuarmos (ele próprio gostaria que o encontro se estendesse), porém respondeu que não seria mais possível. No meio da entrevista, já me havia dito que pensara bastante em concedê-la devido a duas coisas: a memória falha e a loquacidade – “eu falo bastante” –, afora a debilidade causada pelos medicamentos que toma para tratar do câncer que o acomete há sete anos. Constantemente, chateava-se com os lapsos de memória e os mal-estares derivados da medicação.

Da loquacidade, a prova foi a resposta à pergunta inicial: “Sua formação foi em quê?” Para contar que se tornou bacharel em Matemática, nos Estados Unidos, demorou mais de meia hora. Mas Jarbas Maciel raciocina exatamente assim, com organicidade, apontando causa e consequência. Essa meia hora de fala primeiro revelou o desejo de ser violinista, depois o vazio intelectual após a saída de seu mentor, Guerra-Peixe (1914-1993), do comando da orquestra da Rádio Jornal do Commercio. O maestro fluminense, que veio para o Recife em 1949, havia sido uma das aquisições para se atingir a meta que a emissora se impôs: “Ser melhor do que a Rádio Nacional. Ela nunca foi, mas o objetivo era esse”, diz Jarbas, cujo professor de violino, o italiano Rino Visani, também viera do estrangeiro para reforçar os quadros da orquestra.

Sempre reiterando sua antipatia ao comunismo e ao socialismo, o ex-aluno de Guerra-Peixe não deixou de apontar o golpe baixo que o mestre sofrera em 1952: “Pediram a cabeça dele. Entregaram-no, acusando-o de comunista”. E declara que ficou órfão musicalmente do maestro (e seu primeiro professor de composição), da mesma forma que a mãe, Maria Augusta Ribeiro Maciel, antiga estudante de piano, ficara de Ernani Braga, após este deixar Pernambuco por falta de apoio para continuar os projetos musicais que tinha em mente. Quanto ao nome dos bois, ou seja, de quem fechou as portas para Braga e Guerra-Peixe, Jarbas ressalva: “Eu posso ser seu maior inimigo. A gente briga feito gato e cachorro, mas, se você morrer, eu não vou dizer nada que manche sua memória”.

O então estudante de Arquitetura e Urbanismo da UFPE, que havia passado em primeiro lugar no vestibular, só se concentrava nas cadeiras de cálculo e geometria, e decidiu deixar o curso após um ano, para matricular-se em Física na Universidade da Pensilvânia, cidade onde já moravam irmãos seus. Conseguiu um emprego nos laboratórios de física do estado sólido da Philco, através de um programa de estudantes cooperadores, que lhe custeava os estudos, desde que tirasse notas boas, e passou a lidar com purificação de elementos para transistores, assistindo dois cientistas ingleses: Charles Woods e John Ritchens. Faltando um ano para a formatura, mudou de curso, de Física para Matemática, e finalmente graduou-se. Na primeira mudança de carreira, havia surpreendido a mãe; na segunda, os chefes fizeram de tudo para demovê-lo, sem sucesso também.

MIGRAÇÕES
Uma greve de sopradores de vidros da empresa levou Jarbas Maciel a experimentar e a praticar por algum tempo o glass blowing, com resultados posteriores nefastos. “Eu me envenenei com silício, arsênico, bismuto, telúrio, índio, gálio... Vomitava sangue como um tuberculoso e fui para o hospital amarrado na cama”, detalha. Só veio a descobrir que tinha silicose após a volta ao Brasil, o mesmo problema que acomete os trabalhadores de gesso na Chapada do Araripe: “Até hoje, tenho vapor de silício nos pulmões”.

De novo no Recife, Jarbas trabalhou no Departamento de Medicina Tropical da UFPE, como secretário e intérprete, e depois reencontrou a professora Bernardete Pedrosa, que o estimulou a fazer mais um vestibular, agora para Filosofia. Passou novamente em primeiro lugar e, anos mais tarde, veio a ser professor do curso.

Na nova graduação, aproximou-se de Ariano Suassuna e participou da gênese do Movimento Armorial, em 1970. Sobre o amigo e escritor, enfatiza o tom profético: “Daqui a 100 anos, Ariano vai ser o cara mais pesquisado, mais lido, mais ‘tesado’ (transformado em tese) do Brasil. Ele conseguiu meter uma broca e furar o subsolo cultural, étnico e etnográfico do país. Foi ao petróleo da cultura brasileira”.


O violinista Guerra-Peixe foi o primeiro professor de composição de Jarbas Maciel.
Foto: Reprodução

A adesão às concepções artísticas de Ariano e Guerra-Peixe implicam uma discordância de Jarbas Maciel com experiências estéticas mais racionalistas. Ele define o serialismo de Schönberg como “uma matemática de muito mau gosto”; diz que Camargo Guarnieri, com quem tentara estudar no final dos anos 1940, “corrompeu-se também” ao passar do nacionalismo ao serialismo nos anos 1960; e admira Marlos Nobre até Rhythmetron, escrita em 1968 para conjunto de percussão. Já o Stravinski dos balés russos não entra nas ressalvas do professor. Conta que Guerra-Peixe mandava que ele e Clóvis Pereira ouvissem A sagração da primavera, para tentar decorar e reproduzir as complicadas figurações rítmicas da peça, calcada no folclore russo.

De modo geral, Jarbas Maciel rechaça as correntes filosóficas e estéticas que não dialoguem com a tradição desde a Grécia Antiga. “O Modernismo e o Pós-Modernismo, eu deletei da minha vida. Esses filósofos são todos uma fraude, uma porcaria. Eles abandonaram o grande tronco da Filosofia.” Franceses do século 20, como Foucault e Derrida, também não recebem palavras amenas.

KARDECISMO
Filho do falecido escritor, professor, advogado e bancário Aurino Vieira de Araújo Maciel, membro das academias alagoana e pernambucana de Letras, Jarbas possui um timbre de voz semelhante ao de Ariano Suassuna, porém difere na fala mais pausada, pensada. Essa inclinação introspectiva faz com que o docente aposentado veja a unidade do conhecimento sob as diferentes manifestações do pensamento, daí seu interesse polimático por música, filosofia, estética, física, matemática e arquitetura.

As aulas que ministrou na UFPE, por outro lado, nunca se transformarão em apontamentos ou livros: “Eu não preparava aulas, eu lia os livros e me conectava com os filósofos”.

Ano passado, antes de completar os atuais 81 anos de idade, sentiu-se pronto para abraçar a doutrina kardecista. “Se a pessoa não está preparada, aí vai ser assaltada por tudo quanto é de ‘mundiça’ do outro mundo, porque há. Isso aqui é um mundo de expiação”, acredita.

Nos últimos tempos, além das leituras kardecistas, Jarbas Maciel empreendeu o que chama de “um mergulho no inferno” contra o ateísmo militante contemporâneo: “Eu vou ler todos os materialistas, racionalistas... tudo isso é muito pobre, é de uma pobreza extrema”. O cerne da questão, segundo o professor, encontra-se no próprio conceito de matéria: “Se eles são honestos, são competentes, então a ciência lhes mostra que nós não sabemos ainda o que é a matéria”.

Nos 15 minutos finais de conversa, voltamos a tratar de música, pois Jarbas haveria de almoçar e ainda não tínhamos falado sobre música armorial. Novamente lhe perguntei se nos encontraríamos depois, mas ele disse polidamente que se recolheria e não daria mais entrevistas, apenas receberia a fotógrafa enviada pela Continente.

Antes da despedida, uma mera palavra desencadeou uma confissão emblemática: “Koellreutter (introdutor do serialismo no Brasil) vem pra cá jogar essa... eu não digo lama porque Chico Science fez essa coisa genial que é Da lama ao caos. Lama agora é um negócio sério...”. Intervim logo e lembrei-lhe que, em nossa primeira entrevista (em 2002), ele havia chamado a música de Chico Science de “uma mixórdia para despistar a incrível pobreza do produto final”.

Então veio o inesperado mea culpa: “Eu estava totalmente errado... Totalmente errado...”. Após as duas frases pausadas, refletiu: “Aquilo foi muito mal. Praticamente o desmoralizamos (ele e Ariano Suassuna)... Fui muito superficial... Não examinei direito...”. Relembrou a origem do equívoco: “Eu tinha ouvido uma música dele e falei ‘não é por aí’, mas era”. E, antes de me conduzir ao elevador, humildemente admitiu: “Ariano, ao falar com ele, estava totalmente por fora; eu também”. 

CARLOS EDUARDO AMARAL, crítico musical e mestre em Comunicação pela UFPE.

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