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Circense: Uma família que cresce

Em duas décadas de atividade, a Escola Pernambucana de Circo vem contribuindo para a formação de novos profissionais, mas ainda carece de recursos efetivos

TEXTO Williams Sant'Anna

01 de Julho de 2014

Foto Divulgação

A formação do artista circense, historicamente, ocorria sob o colorido das lonas, no cotidiano do armar/desarmar estruturas e pisar no picadeiro. O destino do artista estava traçado a partir do nascimento – nascia-se no circo para ser artista de circo. “Nascer numa família circense e não conseguir ser artista é, de certa forma, um estigma”, alerta a antropóloga portuguesa Joana Afonso. Quem não tinha habilidade para os números era incorporado em outras atividades. A responsabilidade com o processo formativo não era exclusividade dos pais, dentro do que a doutora em História Social da Cultura pela UNICAMP Ermínia Silva conceituou de circo-família, mas de todos. “Mesmo que perdesse seus pais, (a criança) não era abandonada; ela seria absorvida pela ‘família circense’, pois fazer parte daquele modo de organização pressupunha que crianças, jovens e adultos sempre teriam algo a aprender e a apresentar no espetáculo.” A partir da década de 1960, no Brasil, se passou a observar a presença crescente de artistas contratados, ou seja, que não pertenciam ao circo-família. Era um reflexo de um movimento que já ocorria desde o início do século 20, em várias partes do mundo, e que mudava a estrutura gerencial do circo.

Fora da lona, em 1978, a Academia Piolin de Artes Circenses forjou uma pioneira experiência brasileira que propunha o ensino das artes circenses, em São Paulo, funcionando até 1983. Em 1982, através do Instituto Nacional de Artes Cênicas – INACEN, o MEC inaugurou no Rio de Janeiro a Escola Nacional de Circo. E em 1984 surge, no Brasil, a primeira instituição oriunda da iniciativa privada, a Picadeiro Circo-escola (1984), seguida da Escola Picolino de Artes do Circo (1985), em Salvador, a primeira no Nordeste.

Em 1995, com o Arricirco – Arraial Intercultural de Circo do Recife, fecundado a partir das ações do Centro Educativo de Comunicação Social do Nordeste – Cecosne, foi inaugurada uma nova e intensa fase de relação entre a arte circense e a educação popular no estado, ampliada com o surgimento da Escola Pernambucana de Circo – EPC, no ano seguinte. Quando os artistas e educadores José Clementino (Zezo Oliveira) e Bóris Trindade Júnior (Borica) fundaram o Grande Circo Arraial (razão social da EPC), objetivavam interferir na conquista de direitos e qualidade de vida dos moradores da Comunidade do Brum, no Recife Antigo, a partir da relação entre a educação popular e a arte circense. Mas, segundo Zezo, eles não conseguiam compreender “a totalidade dos problemas e a capacidade de transformação que essa ação poderia propiciar”, não podiam supor que estavam ajudando a forjar o conceito de um processo educativo que utiliza o circo como caminho: o Circo Social.

Inicialmente, as atividades foram realizadas na Torre Malakoff, atendendo crianças e adolescentes da comunidade vizinha e da Fundac, a partir de parceria estabelecida com a Fundarpe. Em 1998, a união foi desfeita e as ações passaram a acontecer de forma itinerante durante dois anos. Se a EPC perdeu em estrutura e quantidade de crianças e adolescentes beneficiadas, conseguiu ampliar sua fundamentação pautada nas contribuições dos estudos e experiências sobre a educação popular de Paulo Freire, a expressão da subjetividade e o universo do simbólico de Vygotsky, os processos de aprendizagem de Piaget, a importância da brincadeira na infância de Winicot, o papel da arte e do lúdico na formação humana de Ana Mae Barbosa e Rubem Alves, entre outros. A EPC encontrou a parceria de outros atores sociais e artísticos que trilhavam caminhos semelhantes: o Se Essa Rua Fosse Minha e AfroReggae (do Rio de Janeiro), Acende (de Belo Horizonte) e o Arricirco. Juntos, construíram uma rede de colaboração mútua. Sob a orientação da FASE – Federação de Órgãos para a Assistência Social e Educacional, através do seu Serviço de Análise e Assessoria a Projetos (SAAP), e com o suporte iniciais para projetos do Cirque du Soleil, com recursos da Jeunesse du Monde, Oxfam Quebec e Pueblito, estava estruturada a Rede Circo do Mundo – Brasil, e consolidada a matriz pedagógica, social e cultural do Circo Social, que pode ser compreendida sob a definição construída de forma coletiva por seus integrantes “como a construção por meio da arte circense de um diálogo pedagógico no contexto da educação popular e uma perspectiva de promoção da cidadania e de transformação social”.

O conceito de Circo Social é processual e não pode ser visto como um método, “mas como uma proposta político-pedagógica aberta, baseada numa perspectiva dialógica da educação no entendimento da complexidade social”, acrescenta Borica. A Rede Circo do Mundo – Brasil se constitui em uma das maiores referências de coletivo da arte circense no país, composta por mais de 20 instituições que atuam em quatro regiões brasileiras.

Após funcionar durante quatro anos na sede da União dos Moradores da Vila do Buriti (zona Norte do Recife), a EPC inaugura sua sede própria em 2008, no Bairro da Macaxeira. Na sua casa, pode ampliar suas atividades atendendo, prioritariamente, a comunidade do seu entorno.

As ações da EPC envolvem atividades de formação, pesquisa, difusão e promoção, pautadas em quatro projetos basilares: inclusão artístico-pedagógica de crianças e adolescentes; formação artístico-pedagógica de adolescentes e jovens; fortalecimento organizacional/institucional; e o núcleo de pesquisas, estudos e registros sobre a Pedagogia do Circo Social. A EPC tem contribuído para discutir e forjar processos formativos para o segmento, bem como participado intensamente da elaboração de políticas públicas para o circo no Brasil. Segundo a mestra em educação, Fátima Pontes, atual coordenadora executiva da EPC, seu objetivo principal “não é inserir no mercado de trabalho, a ideia é que os valores trabalhados no processo de ensino-aprendizagem construam maiores possibilidades de conhecimento, e isso consequentemente colabora na inserção no meio consumidor, seja no mercado artístico ou não”.

Constituída por alunos e educadores da EPC, a Trupe Circus – hoje com 25 integrantes – desenvolve uma experiência concreta de experimentos cênicos com a arte circense, sem perder o conceito da pedagogia do Circo Social, obtendo excelentes resultados artísticos e técnicos, difundindo e contribuindo para a manutenção das demais ações da Escola. Através dela, a EPC tem participado de diversos festivais locais, nacionais e internacionais, contribuindo com ações de outras entidades sociais, tornando-se uma referência no mercado de trabalho artístico e educacional circense. Neste mês, a Trupe Circus estreia seu mais novo trabalho, em comemoração aos 18 anos da EPC: Esse Circo da praia – uma aventura inusitada. Como centro de formação em artes circenses, a EPC se prepara para iniciar a sétima turma, além de promover um curso de formação de educadores dentro da pedagogia do Circo Social.

Mas nem tudo é colorido e brilha no picadeiro da Escola Pernambucana de Circo. A instituição não recebe nenhum recurso sistemático – seja público ou privado. Ela conseguiu mover-se com êxito da forma inicial de parceria entre os educadores à participação em editais locais e nacionais, mas busca um formato de financiamento de suas ações e manutenção estrutural que tenha nos mecanismos de fomentos públicos apenas uma das possibilidades de suporte financeiro. Essa autonomia parece estar cada vez mais perto da EPC, haja vista que correr riscos, equilibrar-se no improvável, superar limites, agir em círculo e, ao final, obter aplausos são ações inerentes à função do artista circense, porque, como disse Cláudio Barría, representante do Circo Social: o “CS ainda sonha com um mundo diferente, integrado e solidário, que se aceite como o que é: um lugar de todos, redondo, itinerante e a céu aberto”. 

WILLIAMS SANT'ANNA, artista, historiador e educador.

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