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Lugar de morrer

TEXTO José Cláudio

01 de Junho de 2014

'Capibaribe vermelho', de Ana Catarina Mousinho, óleo sobre tela, 70 x 100 cm, 2013

'Capibaribe vermelho', de Ana Catarina Mousinho, óleo sobre tela, 70 x 100 cm, 2013

Imagem Divulgação

Morcego (pres. ind. do verbo “morcegar”) artigo de José Almino de Alencar no Jornal do Commercio, Recife, domingo, 23/fev./14, Uma coisa leva a outra como de fato fui levado pelos assuntos ali referidos, exemplo esse do lugar de morrer, de importância fundamental para nosso sossego: felicidade, segundo Sto. Agostinho, só no outro mundo. Morrer, se morre em qualquer lugar, dirão; o que interessa é o lugar de viver, e viver bem. Mas eu direi no entanto que só quem sabe o lugar de morrer, quem já escolheu onde terminar os seus dias, onde ficar até que a morte nos separe, demonstra maturidade para viver. Você vai morrer aí, amigo Zé Almino, no Rio de Janeiro, ser enterrado no Cemitério São João Batista? Sem andar, gastar sola dos sapatos nas ruas do Recife até que esqueça estar no Recife? O único lugar onde eu não sei quem sou nem seja isso motivo de cogitação, nem sei onde estou, nem preciso, é o Recife. Me diga: você, em outro lugar, não sente que está faltando uma coisa, que está sendo vice, que é segundo prêmio? No livro A cidade antiga de Fustel de Coulanges ele diz que em Atenas a pena de exílio podia ser comutada em pena de morte caso o réu pudesse invocar a seu favor altos serviços prestados à nação. É isso que não quero dizer à minha filha Maria mas a você eu digo. Zé, não brinque com essas coisas não, Zé! Esses homens antigos sabiam das coisas. “Eu felizmente tenho o meu aleijo”, como disse aquele passador de rifa de Barreiros da história de Garibaldi Otávio (o delegado tinha proibido vender rifa, verdadeira epidemia em Barreiros, somente, dali em diante, permitido a viúvas desamparadas e aleijados). Eu felizmente já sei que vou para Guadalupe, cemitério aqui pertinho, quase na mesma rua. Acho que quando Gari viu que não dava mais veio embora.

Alguma coisa me diz que o barro de que somos feitos deve ser restituído. Ou as cinzas, que já há aqui a possibilidade da cremação. Que prefiro. Menos tétrico do que daqui a algum tempo nos recolherem a ossada. E mesmo o enterro, emparedado ou no chão.

Hermilo Borba Filho quis ser velado no chão, isto é, dentro do caixão simples, caixão aberto no chão, ele descalço e em mangas de camisa, camisa de manga curta por fora das calças. Assim foi feito mas Lêda calçou-lhe umas meias. E enterrado no chão: Eu até esculpi uma cruz de pedra bruta, sem acabamento e meio troncha, de granito, de pouco menos de lm de altura. Levei no cemitério e botei em cima da cova. Algum tempo depois, indo ao mesmo Cemitério de Santo Amaro no enterro do pintor Wellington Virgolino, procurei a cova de Hermilo, que eu tinha marcado o lugar. Só tinha o capim. Nada da cruz. Perguntei à direção do cemitério o que tinha havido. Me informaram que a esposa legítima tinha mandado tirá-la. Fui encontrar a cruz no depósito de cal, meio enterrada num monte de cal. Lêda levou a cruz para o jardim da casa onde morava o Pe. Marcelo Carvalheira e onde a vi pela última vez, detrás da Sé de Olinda. Lá deve permanecer até hoje. Vou marcar com Lêda para irmos lá.

Meu pai, Amaro Joaquim da Silva, nascido no Engenho Taveira, no Cabo, que agora inventaram de chamar Cabo de Santo Agostinho, as últimas palavras que ouvi dele no hospital pouco antes de falecer foram: “Quero voltar para Ipojuca”. Ipojuca a que ele chegou criança para trabalhar na loja de Seu Feijó, loja de onde só saiu para botar a sua própria alguns metros adiante no centro da cidade e onde todos nascemos, eu o mais velho, quatro irmãs e um irmão que nasceu morto, de um susto que minha mãe teve aos oito meses de gravidez, um boi que entrou na loja e pulou o balcão a bem dizer em cima dela. À altura da morte de meu pai já morávamos no Recife havia muitos anos. Perguntei: “Pra que, papai?”. “Pra dormir”, ele respondeu. Está enterrado no cemitério de Ipojuca, junto com meu avô pai dele, Joaquim Pedro da Silva, mais conhecido como Pedro Taveira, nome do engenho onde nasceu meu pai.

Quanto a mim, vou ficar por aqui mesmo, no cemitério do bairro, aqui perto, Guadalupe. Uma coisa que acho terrível, mas espero não estar mais aqui, é minha filha ser enterrada nos Estados Unidos. Incluindo aí minha neta. Nem sei falar inglês! Algum dia, algum descendente meu, se houver, mais interessado em árvore genealógica, lá nos Estados Unidos, saberá, como coisa meio lendária, que um seu ancestral teria entrado lá séculos atrás vindo dum país chamado Brasil.

No enterro de Wellington tropecei numa coisa feito um pedaço de pau, melado de terra. Era um fêmur. Nunca mais pisei num cemitério. Nem no enterro de minha mãe.

Minha mãe, Maria Ramos da Silva, porque nascida Domingo de Ramos, num engenho de Sirinhaém, em solteira Maria Ramos de Albuquerque Pinto, Ramira, costumava dizer que só queria viver até a morte de um filho. Isto valia tanto para mim como para minhas irmãs. Estamos todos vivos. Mas sentia a frase especialmente dirigida a mim, único filho homem e o mais velho. Ela morreu com mais de noventa anos, falência múltipla dos órgãos. Certa vez cheguei lá no apartamento na Conde da Boa Vista onde morava com uma de minhas irmãs, ela sentada na cadeira de balanço, revista aberta nas mãos e repetindo uns números sem nexo: “Um, dois, quatro, nove...” Tirou os olhos da revista, olhou para mim e voltou à revista. A empregada Zeza, uma senhora, disse: “Dona. Ramira! Esse é Zezé, seu filho!” Ela me olhou de novo, baixou os olhos para a revista exclamando: “Eu sei lá quem é Zezé!” Pensei cá comigo, já podia morrer em paz, sem lhe causar dano.

Engraçado. Hoje meu filho Mané, Cláudio Manuel da Silva, mais conhecido como Mané Tatu, que segue também a paixão da pintura, veio tomar uma sopa aqui em casa e eu disse a ele que queria morrer em casa, como se morria em Ipojuca. Botassem meu corpo estendido em cima da mesa arrodeado de velas para não sentirem catinga de peido. Morto é danado para soltar peido. 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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