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Bárbara de Alencar: Uma guerreira da “legião de sonhadores”

Avó de José de Alencar foi uma insurgente que confabulou pela independência e pela república, podendo ser considerada a primeira presa política do Brasil. Atuou no Crato, mas nasceu em Exu (PE)

TEXTO Claudia Parente

01 de Março de 2014

Bárbara de Alencar

Bárbara de Alencar

Imagem Karina Freitas

Ela levou a Revolução Pernambucana de 1817 para o estado vizinho, o Ceará, aderiu ao movimento republicano denominado Confederação do Equador (1824), pode ser considerada a primeira presa política do Brasil e é avó de um dos ícones da literatura brasileira. Apesar desse currículo, Bárbara Pereira de Alencar é uma ilustre desconhecida em sua terra natal. Os poucos que já ouviram falar da matriarca de uma das mais importantes famílias do sertão nordestino acreditam que ela é cearense. Mas Bárbara nasceu em Exu, na Fazenda Caiçara, mesmo local onde, 152 anos depois, outro expoente da cultura e história pernambucanas viria ao mundo, o cantor Luiz Gonzaga.

Em 1760, ano de seu nascimento, o povoado ainda se chamava Várzea Grande e a Caiçara pertencia a Leonel de Alencar Rego, avô de Bárbara. Primeira dos nove filhos de Joaquim Pereira de Alencar e Teodora, ela já nasceu num campo de batalha, segundo assevera Juarês Ayres de Alencar, no livro Dona Bárbara do Crato, escrito na primeira metade do século 20. O autor é trineto de Luiz Pereira de Alencar, irmão mais novo de Bárbara, e compôs a obra a partir de relatos do bisavô dele, colhidos por Luiz Ayres de Alencar, pai do escritor. Além da seca que crestava o Sertão e de um parto difícil, que quase mata mãe e filha, Bárbara ainda foi saudada por um ataque de índios à Fazenda Caiçara. Por pouco não morreu na casa incendiada.

Aos 22 anos, já casada com o comerciante português José Gonçalves dos Santos, com quem teve cinco filhos, Bárbara mudou-se para o Curato de São Fidelis (atual Crato), no Ceará. Essa mudança e o fato de a sua luta política ter se passado quase completamente no estado vizinho podem explicar a confusão que a sua naturalidade provoca. “Toda movimentação dela foi no Cariri. Por isso, ficou esquecida em Pernambuco”, acredita o promotor aposentado Givaldo Peixoto de Alencar, descendente e estudioso da história da mulher que considera uma heroína. “Bárbara viveu entre pessoas cultas. Não era dama apenas para servir café e jantar”, assegura.

Enviou dois filhos – o primogênito Carlos José dos Santos e o mais moço, José Martiniano de Alencar – para estudar no Seminário de Olinda. Carlos voltou padre e empolgado com os ideais republicanos, que também acabaram conquistando o irmão José, subdiácono. Começava aí o sonho da independência, reforçado pela abertura dos portos do Brasil ao mundo e mudança da família real portuguesa para o Brasil, em 1808. No dizer do escritor Juarês Ayres, “dona Bárbara incorporou-se à legião dos sonhadores”. Viúva, a essas alturas, começou a confabular com os amigos padres e o botânico Manoel Arruda Câmara sobre independência e república. Bárbara e os filhos resolvem se integrar ao Partido Liberal.

Quando a notícia de que os pernambucanos tinham se levantado contra a Coroa, em março de 1817, chegou aos ouvidos do jovem José Martiniano, ele se apressou a instigar o Cariri a seguir o exemplo. Ao tomar ciência das intenções do filho, Bárbara mobilizou a família. No dia 3 de maio, José Martiniano de Alencar proclamou a independência na Casa da Câmara do Crato e uma bandeira branca foi hasteada em frente ao órgão. Mas o sonho de liberdade só durou oito dias. Quando os revolucionários pernambucanos foram vencidos, os olhos do império se voltaram ao Cariri. Bárbara e seus filhos padre Carlos, José Martiniano e o aguerrido Tristão Gonçalves foram presos e enviados, em lombo de burros, para Fortaleza.

Da capital cearense, ainda foi mandada a julgamento no Recife e transferida para um presídio em Salvador, Bahia. Ficou três anos, sete meses e dois dias encarcerada até conseguir anistia em 1820. Ela e os filhos só escaparam da pena capital porque os documentos da proclamação da República no Crato, que podiam comprovar a conspiração, foram destruídos antes que os partidários do império pudessem alcançá-los.

Mas o risco de morte e as agruras da prisão não dobraram o espírito altivo de Bárbara nem esmaeceram seus ideais republicanos. Em 1824, dois anos depois de D. Pedro I proclamar a independência do Brasil, mas mantendo o país nas mãos dos portugueses, a família Alencar se preparou novamente para luta. Mais uma vez o referencial foi pernambucano: o movimento republicano denominado Confederação do Equador, que teve em Frei Caneca o seu grande mártir. Para evitar identificações futuras, resolveram usar codinomes. Alguns se transformaram em sobrenomes conhecidos, como Araripe, adotado por Tristão em homenagem à chapada.

Dessa vez, Bárbara e os filhos pagaram um preço ainda mais alto por sonhar com a república. Depois de vitórias, derrotas e traições, o movimento foi reprimido pelos portugueses e a revolucionária perdeu mais que a liberdade. Seus filhos padre Carlos e Tristão Gonçalves (que chegou a ser aclamado presidente da Província Confederada do Ceará), o irmão Leonel e o filho dele, Raimundo, foram mortos.

Bárbara de Alencar ainda viveu até 1833, quando já contava 73 anos de idade. Morreu na Fazenda Alecrim, no Piauí, e está sepultada onde hoje é o município de Campos Sales, no Ceará. Seu filho mais famoso, José Martiniano, veio a ser senador da república e legou ao Brasil outro tesouro, além da disposição de lutar pela liberdade: seu filho, o escritor José de Alencar.

ANDROCENTRISMO
O papel de Bárbara nos movimentos revolucionários de que participou poderia ter sido ainda mais relevante. Segundo as escritoras Rachel de Queiroz e Heloísa Buarque de Hollanda, “ela também assumiu o comando do movimento (de 1817), deixando a liderança apenas para que seu filho José Martiniano de Alencar subisse no púlpito em frente à igreja e proclamasse a república na região, a República do Jasmim, nome de uma propriedade sua. Bárbara se viu impossibilitada de fazer a proclamação ela mesma. Não era atitude própria de uma senhora”.


A casa onde nasceu, na Fazenda Caiçara, em Exu, foi transformada num museu para preservar sua memória. Foto: Claudia Parente

Seguindo linha semelhante de raciocínio, a professora de literatura hispano-americana da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Claudia Luna acredita que a matrona sertaneja foi ofuscada pelo filho José Martiniano, cuja carreira política teve repercussão em todo o país. “Sabemos que a escrita da história é feita pelos historiadores segundo alguns modelos consagrados e, geralmente, nela tem imperado uma perspectiva androcêntrica, isto é, uma história escrita por homens, que valoriza os grandes heróis e os grandes feitos. Podemos acrescentar que essa escrita geralmente é feita pelos vencedores e é sob perspectiva deles que os fatos são selecionados”, explica.

Esse fenômeno, segundo a professora, que está pesquisando a trajetória de Bárbara de Alencar para um pós-doutoramento em História da América, não aconteceu somente no Brasil. É um padrão que se repete em toda a América Latina. “A participação das mulheres geralmente é obscurecida, colocada em segundo plano em relação aos homens mais próximos: maridos, filhos, amantes”, revela. No caso de Bárbara, a destruição deliberada dos documentos do movimento de independência de 1817 pelos próprios participantes, para se protegerem de uma possível devassa, comprometeu a definição do papel efetivo que ela desempenhou.

Claudia Luna diz que não é possível afirmar que Bárbara de Alencar foi a primeira presa política do Brasil porque a escrita da história é dinâmica e novos documentos podem ser encontrados. “O que podemos assegurar é que sua prisão foi decretada por motivos políticos: a participação na Revolução de 1817”.

Para a professora, Bárbara de Alencar pode não ser uma heroína porque esse é um conceito relativizado. “Há personagens que foram punidos como traidores em sua época, mas, para a posteridade, transformaram-se em heróis por sua atuação firme e corajosa em defesa de seus ideais, resistindo à repressão”, argumenta. “Bárbara é uma figura emblemática, uma mulher de grande visão, uma autêntica matriarca nordestina, uma mulher ‘ilustrada’, que encaminha os filhos para o Seminário de Olinda, trava contato com os círculos maçons e as ideias iluministas ainda no período colonial, que abre sua casa para os insurgentes, tem poder de liderança e participa ativamente do movimento de 1817. Se pensamos de novo na escrita da história, verificamos que são poucas as mulheres de poder que ocupam o panteão dos grandes heróis.”

LIVRO DOS HERÓIS
No intuito de mudar essa realidade e tirar Bárbara de Alencar da invisibilidade, a então deputada federal Ana Arraes (hoje ministra do Tribunal de Contas da União) elaborou um projeto de lei, propondo a inscrição do nome da matriarca nas páginas de aço do Livro dos Heróis da Pátria, guardado no Panteão da Pátria e da Democracia, na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Tataraneta de uma irmã de Bárbara de Alencar, a deputada argumentou que quis fazer justiça a uma mulher que, no início do século 19, lutou por um país justo e democrático.

O projeto foi aprovado por unanimidade na Câmara dos Deputados, em junho de 2012. “A lei já reconheceu o patriotismo e heroísmo de Bárbara. Resta, agora, que os historiadores registrem a sua história para que o povo brasileiro possa conhecer melhor esse período”, diz Ana Arraes.

Por enquanto, o registro mais conservado da vida de Bárbara é a casa onde ela nasceu na Fazenda Caiçara, a 14 km da cidade de Exu. O imóvel foi recuperado e transformado em museu, para tentar preservar a memória da heroína esquecida. A diretora, Amparo Alencar, descendente de um dos seus irmãos, explica que as peças não são originais. Servem apenas para reconstruir o ambiente da época. Mas há uma réplica do retrato falado de Bárbara, pintado por Ernani Pereira, fixado numa das paredes. “Os únicos pertences que restaram dela são um par de luvas e algumas xícaras que estão em um museu do Crato”, informa.

Na cidade cearense, a casa onde a matrona viveu foi demolida. No lugar, funciona a Secretaria da Fazenda. Também não há nada além de ruínas onde outrora era o Sítio Pau Seco, hoje município de Juazeiro do Norte (CE). Na opinião de Amparo Alencar, os pernambucanos não conhecem Bárbara porque não estudam sobre ela na escola. “Estudamos Frei Caneca, mas ela não, apesar de ser um vulto muito importante na história do Brasil. Alguém que, há quase 200 anos, lutou por uma forma de governo que persiste até hoje”, completa. Apenas o conterrâneo mais famoso não a esqueceu. Na música Meu Araripe, Luiz Gonzaga canta “quero louvar os grandes desse lugar, Luiz Pereira, dona Bárbara de Alencar...”. Que a história faça o mesmo. 

CLAUDIA PARENTE, jornalista.

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