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Um passeio pelo verde da cidade

TEXTO FELLIPE FERNANDES
FOTOS HÉLDER TAVARES

01 de Setembro de 2013

Avenida Agamenon Magalhães, que margeia canal, possui trechos bem arborizados

Avenida Agamenon Magalhães, que margeia canal, possui trechos bem arborizados

Foto Hélder Tavares

Os moradores da Rua Santo Elias acordaram ao som de motosserras. Numa manhã de domingo, uma querela chegava ao fim no Bairro do Espinheiro, zona norte do Recife. Quem lançasse a vista pela janela do apartamento poderia observar uma discussão em torno de uma das grandes árvores, com troncos grossos e copa larga, que margeiam o asfalto. Era o capítulo final de uma história antiga. Um prédio fora construído com a porta da garagem projetada para ficar atrás de onde uma árvore antiga estava fincada. Depois de uma disputa que durou meses, envolvendo o Ministério Público, moradores da região e a construtora do edifício, esta última levou a melhor, e o exemplar cativo de acácia mimosa estava sendo removido naquele dia. Em troca, a construtora plantou na mesma região 12 pés de ipê.

O fim da acácia da Rua Santo Elias, em junho passado, revela uma constante da paisagem recifense, que pode ser notada por qualquer observador mais atento. À medida que novas construções são desenhadas no horizonte da capital pernambucana, o verde perde espaço. A importância das plantas, que inclusive batizaram bairros como Jaqueira, Tamarineira, Mangabeira e Mangueira, é subjugada pelos novos empreendimentos.

“Ruas novas são calçadas sem árvore alguma. Um plano de arborização poderia ser feito para planejar o tipo de árvore exato para cada rua, levando em consideração as condições estruturais do lugar e a necessidade de criar microclimas”, afirma o urbanista Luiz Vieira, professor do departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e membro do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco.

As árvores podem provocar uma diferença de oito graus na temperatura local. “Na nossa cidade, temos um déficit de área verde. O fato de a arborização municipal ser responsabilidade da Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb), um órgão de serviços, diz algo sobre como é pensado hoje o paisagismo no Recife”, diz o professor.

Ele lembra que o Recife já teve uma diretoria de parques e jardins. Pedro Paulo Araújo já esteve à frente desse departamento. Ao terminar o curso de Agronomia, com 22 anos, passou num concurso público para fiscal de obras da prefeitura. Assim que foi efetivado, tornou-se gerente da divisão de parques e jardins, que mais tarde se tornaria uma diretoria desvinculada da Secretaria de Agricultura, mercado e matadouros, à qual pertencia então. Durante as cinco décadas como funcionário público, ocupou o mesmo cargo diversas vezes, acompanhando mandatos de prefeitos como Geraldo Magalhães, Pelópidas Silveira e José do Rêgo Maciel.

Hoje, aos 82 anos, Pedro Paulo mora em Boa Viagem, zona sul da cidade. Ele observa a paisagem ao redor. Olha para algumas poucas árvores em sua rua e para o paredão de edifícios que envolve o bairro. Diz que não gosta de reclamar. “Porque parece coisa de velho, que fica nostálgico por causa da idade”, brinca. Mas garante que não entende o valor que é dado ao verde atualmente no Recife. “Muito muro, asfalto e poucas árvores. As que existem, ou estão aí há muito tempo ou são pequenas, porque não conseguem conservar o que plantam”, comenta, com a experiência de quem já foi responsável por toda a área verde da cidade.

Quando o agrônomo entrou na faculdade, não existia ainda um estudo da paisagem, como é feito hoje no Laboratório da Paisagem – UFPE. Ao assumir a divisão de parques e jardins, ele contava com o pouco que havia aprendido nas disciplinas de Botânica na faculdade. O aperfeiçoamento veio com a prática. No primeiro jardim que montou – uma das etapas do que é hoje o Parque da Jaqueira –, teve que lidar diretamente com Roberto Burle Marx, um dos maiores paisagistas brasileiros, com projetos realizados em todo o Brasil e em países como Estados Unidos e Venezuela.

No Recife – onde Burle Marx morou entre 1934 e 1937, assumindo o cargo de diretor de Parques e Jardins do Departamento de Arquitetura e Urbanismo do Estado de Pernambuco –, foram construídos 50 jardins, entre públicos e privados, a partir de projetos do paisagista. “O problema é que as pessoas não costumam entender que um projeto de jardim tem que ser respeitado. Então, cada nova gestão vem e planta uma muda ali, outra aqui, porque acha que fica mais bonito e acaba descaracterizando o projeto inicial”, comenta Pedro Paulo.

Em agosto passado, os jardins da Praça Euclides da Cunha, projetados por Burle Marx, começaram a ser revitalizados. Segundo Cida Pedrosa, secretária de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Prefeitura da Cidade do Recife (PCR), as obras devem ser finalizadas no final deste mês. “Vamos executar a revitalização e a Emlurb ficará responsável pela manutenção do espaço”, explica.

A praça Euclides da Cunha está entre os seis espaços públicos projetados por Burle Marx que aguardam o tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O projeto de tombamento dos jardins como patrimônio cultural, encaminhado desde 2008, foi elaborado pelo Laboratório da Paisagem – UFPE, em parceria com a PCR e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Inclui ainda as praças de Casa Forte, do Derby, da República (abrangendo o jardim do Campo das Princesas), a Ministro Salgado e a Farias Neves. “Burle Marx dizia que fazer paisagismo é fazer arte”, conta a coordenadora do Laboratório da Paisagem – UFPE, Ana Rita Sá Carneiro.

CONSCIÊNCIA DO PARAÍSO
O Centro de Artes e Comunicação (CAC), da UFPE, fica no final da principal avenida da Cidade Universitária, na zona oeste do Recife. Um canteiro invariavelmente verde acompanha toda a extensão da via. No pátio interno do prédio, árvores imensas dão sombra aos bancos de cimento rodeados por gramas e trepadeiras. Ainda no térreo, num corredor sem janelas, a porta indica: Laboratório da Paisagem do Departamento de Arquitetura e Urbanismo.

Lá dentro, repousam sobre a mesa diversos livros, que se espalham para além das prateleiras. Ana Rita Sá Carneiro logo cita Augustin Berque, quando começamos nossa conversa. Depois de passar alguns anos no Japão, o geógrafo e filósofo francês trouxe para o Ocidente uma forma diferente de se pensar a paisagem. “Ele dizia que a medicina oriental entendia o próprio corpo do homem como uma paisagem”, ressaltou.

Essa seria apenas uma pista para revelar a necessidade de conexão do homem com a paisagem, possível apenas através da natureza. “A discussão sobre paisagem começa com a criação, o Jardim do Éden. A ideia de paraíso é um jardim”. Para Ana Rita, há uma carência biológica real que faz o homem necessitar do contato com a natureza. “É uma coisa que nos atinge diretamente como seres humanos.”


A arquiteta Ana Rita Sá Carneiro afirma que o ser humano precisa entender que não há distinção entre ele e a paisagem

Antes de qualquer coisa, ela afirma, é preciso trabalhar o olhar das pessoas. “Como posso dar um valor paisagístico a qualquer coisa, se não tenho consciência do que é paisagem? Não fomos educados para a contemplação. Os pais levam os filhos, de carro, para passear nos shoppings”. Ela lembra que a cartilha da Convenção Europeia da Paisagem tem o desenho de uma criança olhando a cidade na capa. “Precisamos entender que nós somos a paisagem.”

Ana Rita defende que a sensação de pertencimento que a paisagem é capaz de gerar deve ser levada em consideração em qualquer planejamento urbano. Ela mora em Casa Forte. Na sua rua já existiram mais árvores, antes de tanto prédios. Mas o bairro da zona norte recifense permanece como destaque entre os logradouros do Recife que mantêm boa vegetação. Assim como o Espinheiro, onde seus avós moravam. A casa deles ficava na Avenida Conselheiro Portela.

“Lembro que meus irmãos sempre comiam oiti direto do pé e as calçadas ficavam todas amarelas por conta dos oitizeiros.” A arquiteta não gostava da fruta, mas, a partir da lembrança dos oitizeiros, revisitou a casa dos avós, a infância, o Recife de décadas atrás. Ela completa sua reflexão com um pensamento de Augustin Berque: “A paisagem é o sentimento com o mundo”.

Ana Rita tinha acabado de dar aula. Passou no laboratório para adiantar algumas coisas antes de almoçar. Na sala, o biólogo e doutorando em desenvolvimento urbano Joelmir Silva e a arquiteta e mestra em Desenvolvimento Urbano Michele Santana trabalhavam no computador. Michele lembra que, no Espinheiro, no Carnaval, acontece o desfile do Bloco do Oiti, e comenta: “Muitas vezes, as pessoas não percebem o quanto a vegetação é importante no processo de elaboração da identidade do lugar. Existe um processo de associação tão natural, que, apesar de forte, passa despercebido”.

Um dos maiores exemplos de como a construção da identidade de um espaço passa pela vegetação local é a identificação da cidade do Recife com o mangue. Versados por uma geração de artistas que ajudou a forjar a identidade cultural pernambucana, do manguebeat, os manguezais são ainda grandes símbolos da capital pernambucana, a manguetown. Em desenhos mais antigos da cidade – do século 17, época da invasão holandesa –, já é possível perceber a presença do ecossistema na paisagem recifense. Mas boa parte do tipo de vegetação que margeia hoje o Rio Capibaribe não é original. “Na década de 1980, com a ideia de revitalizar o ecossistema, foi plantado um tipo de mangue diferente da espécie natural daquela área”, explica Joelmir.

Ele conta que, do ponto de vista paisagístico, a mudança do tipo de mangue – plantado numa região específica da cidade, mas que em alguns anos se multiplicou, tomando boa parte das encostas do rio – não foi positiva. “Esse tipo de mangue tem uma vegetação de porte mais alto do que a original. Ela acaba formando uma barreira entre o rio e a rua, isolando as paisagens”, completa o biólogo. Seria necessário um estudo específico para executar uma nova mudança na vegetação, sem que as alterações afetassem o ecossistema. O processo decerto seria longo, mas faria uma diferença significativa no visual da cidade, ao facilitar a contemplação do rio a partir das diversas vias urbanas que o margeiam.


Espécie que se encontra nas margens do Capibaribe tem porte mais alto que a original, impedindo visibilidade

“A vegetação tem que andar de mãos dadas com a pessoa enquanto ela se desloca no espaço urbano. A ideia é que a paisagem seja uma coisa contínua”, afirma Ana Rita. Ela lembra a sensação agradável de caminhar por algumas ruas do Recife, como a Professor Othon Paraíso, no Torreão, bairro da zona norte, com o canteiro central repleto de grandes árvores com copas largas. Ou, ainda, pela Avenida Visconde de Suassuana, no Bairro da Boa Vista, na área central da cidade, com árvores dos dois lados da via emoldurando a passagem de veículos e pedestres. O canteiro do canal da Avenida Agamenon Magalhães também pode ser lembrado como um reduto de arborização urbana, principalmente nos trechos próximos à Praça do Derby.

Em oposição ao prazer proporcionado pela existência de árvores nas vias da cidade, ela contrapõe a aridez da Avenida Norte. “Você sente o impacto quando passa por um fícus antigo, bem grande, próximo ao cruzamento com a Avenida Professor José dos Anjos. Depois de tanta coisa árida, a árvore é um sopro de salvação”, comenta.

Os pesquisadores do Laboratório da Paisagem afirmam não entender como as autoridades responsáveis pelo planejamento urbano são capazes de ignorar o bem-estar proporcionado pela arborização urbana e pelas áreas verdes. “Os novos desenhos do espaço urbano do Recife mostram que essa é uma questão menor para quem planeja a cidade”, lamenta Joelmir, citando as obras na Avenida Caxangá. Por conta da implementação do corredor viário leste/oeste, que pretende ligar a zona oeste da cidade ao centro, através do transporte rápido por ônibus, o canteiro central da avenida está sendo destruído. Assim como, há alguns anos, foi retirada parte do canteiro central do início da Avenida Domingos Ferreira, também em prol de uma melhor fluidez do tráfego viário.

“Cada cidade deveria ter uma carta de paisagem”, sugere Ana Rita, referindo-se ao documento que pode servir como guia para o planejamento do espaço urbano. A Associação Brasileira de Arquitetos e Paisagistas (Abap) lançou, em 2010, a Carta da Paisagem Brasileira, composta por 12 princípios (leia íntegra do documento no site da revista), que versam sobre cultura, meio ambiente e política.

Ao contrário do Recife, outras capitais brasileiras, como Porto Alegre, Goiânia e Campo Grande, já fizeram planos de arborização urbana. “A carta é um documento importante para lembrar às autoridades o papel estético, social e cultural da paisagem”, argumenta a pesquisadora. A Divisão de Praças e Áreas Verdes da Emlurb – setor da Prefeitura da Cidade do Recife responsável pela manutenção de praças e jardins, além da arborização urbana – é composta por engenheiros florestais, biólogos e agrônomos. Segundo Socorro Silvério, chefe da divisão, não há nenhum arquiteto paisagista na equipe.

ÁRVORE DE RUA
A engenheira florestal Isabelle Meunier lembra que, na sua infância, era comum ver flamboyants pelas ruas do Recife. Apesar de não ser a espécie mais adequada para arborização urbana, a Delonix regia, nome científico da árvore, coloria a cidade em tons de vermelho e amarelo. “A árvore não faz mais parte do elenco da sementeira da Prefeitura do Recife. Hoje, vemos apenas alguns exemplares vermelhos nas ruas”, comenta Isabelle, que é professora do Departamento de Ciências Florestais da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

Ela afirma que inventários recentes mostram que são quatro os tipos de árvore mais comuns nas ruas da cidade: sombreiro, cássia amarela, castanhola ou oitizeiro. Elas correspondem a 60% das árvores urbanas. A predominância dessas e de outras espécies em determinadas ruas confere certa identidade aos bairros. “No centro, em ruas da Boa Vista e no Cais José Mariano, há muitos fícus. Eles foram plantados por aqui no fim do século 19, vindos da Ásia”, explica Isabelle.


Numa via árida como a Avenida Norte, exemplar frondoso de fícus se destaca na paisagem, a metros de distância

Já o oitizeiro é característico de algumas ruas do Derby e do Espinheiro, bairros vizinhos. Enquanto, na zona sul, ainda que muita algaroba tenha sido plantada erroneamente e depois arrancada pela incompatibilidade da espécie com a arborização urbana, predominam os sombreiros. A castanhola, também conhecida como amendoeira-da-Índia ou coração-de-negro, não é indicada para calçadas estreitas, devido ao espaço necessário para o seu desenvolvimento, mas também está espalhada por todo o Recife.

Árvores frutíferas como jambeiros, jaqueiras ou mangueiras, que já foram comuns nas ruas da cidade, hoje são evitadas. A queda de seus frutos pode machucar veículos e pessoas. Seguindo uma tendência nacional, Recife vem mudando a cara de suas calçadas, ao privilegiar arbustos ao invés de árvores.

Segundo Isabelle, essa não é uma opção estética ou ambiental, mas resultado da falta de espaço no ambiente urbano, disputado por redes aéreas e subterrâneas, tráfego de pedestres e veículos, placas sinalizadoras e semáforos, fachadas e anúncios comerciais. “Querem uma espécie de planta impossível: uma árvore que não cresça muito, mas que dê sombra, que não suje a calçada com folhas, que não precise de poda e que tenha a raiz curta. Só se for uma árvore de plástico.”

Pedro Paulo Araújo lembra a época em que precisou colocar dois guardas de bicicletas ao redor do canteiro central da Avenida Mascarenhas de Moraes, recém-construído. Eles anotavam a placa dos carros das pessoas que paravam ali para roubar mudas e plantá-las num jardim particular. “Mas eu quase me dei mal, quando mandei chamar os donos dos veículos para prestar esclarecimentos. Eram as mulheres dos generais da ditadura que mandavam os jardineiros roubarem as nossas mudas”, diverte-se o agrônomo.

Boa parte dos oitizeiros da Avenida Visconde Suassuna foi ele quem plantou, assim como alguns da Praça do Derby. Como outras árvores implementadas em suas gestões, elas continuam firmes. “Vez por outra vejo que noticiam a queda de uma árvore mais antiga plantada na calçada. Pode ter certeza de que essas quedas estão mais frequentemente associadas a uma poda malfeita que a problemas das próprias árvores”, afirma Pedro Paulo.

Socorro Silvério explica que, para cada uma das Regiões Político Administrativas (RPA), existe um engenheiro florestal responsável na Emlurb. “Nosso quadro conta com diversos doutores especialistas na vegetação urbana.” Eles determinam a poda e erradicação das árvores. Pelo número telefônico 156, qualquer morador da cidade pode solicitar o plantio, a poda ou a remoção de uma árvore em via pública. A partir do pedido, os engenheiros da Emlurb analisam a coerência e validade da ação.

Isabelle fez um parecer, há alguns anos, sobre o corte de uma árvore pública, em frente a uma residência, em Olinda, realizado sem qualquer fundamento técnico que justificasse sua autorização. A proprietária do imóvel alegou que havia solicitado o corte de uma vigorosa castanhola porque a planta não permitia que sua calçada permanecesse limpa, sem necessidade de varrições constantes. “Para aquela senhora, a árvore desvalorizava sua residência, reduzia sua área de calçada e era uma fonte constante de incômodo.” Já o vizinho reclamava da sombra perdida e da ausência dos pássaros que costumavam visitar o local.


Grande parte dos oitizeiros existentes em bairros como Espinheiro, Derby e Boa Vista, no Recife, foi plantada pelo agrônomo Pedro Paulo, nos anos 1950

“Não deixa de ser curioso como um único ser vegetal pode despertar sentimentos tão antagônicos, assim como acontece com seres humanos. O certo é que o benefício gerado pela árvore – além de público, pela sua localização – é de uso coletivo, assim estabelecido pela Constituição Federal, e portanto, deve ser zelado pelo poder público”, observa.

Interesses pessoais não podem determinar um prejuízo coletivo. Dessa forma, o corte não autorizado de uma árvore constituiu-se crime ambiental. “Fácil julgar e até mesmo penalizar a velha dama dendrofóbica. Mas como mudar sua percepção? Como fazê-la compreender a beleza e a utilidade da árvore da sua calçada? Como incutir respeito a essa forma de vida e às demais que ela abrigava? Esse parece ser o grande desafio da arborização urbana”, defende Isabelle Meunier.

Dendrofobia, explica a engenheira florestal, é o mal social que faz as pessoas detestarem as árvores (no grego, dendron). “Em pleno mês de abril, início das chuvas, o Recife ferve a mais de 30ºC. Se esse calor já é efeito das mudanças climáticas globais, não sabemos. Mas é certo que a nossa dendrofobia tem contribuído, e muito, para vivermos numa cidade de clima escaldante”, escreveu Isabelle num artigo. Ela acredita que essa atitude só poderia ser combatida através de uma ação educativa perene, que fizesse a população entender os benefícios efetivos da arborização urbana. “A importância das árvores na paisagem não tem como ser negligenciada. Elas geram benefícios ambientais e sociais.”

Uma pesquisa feita na década de 1990 e início dos anos 2000, em Chicago, analisou o impacto psicossocial dos espaços verdes em áreas urbanas. Frances Kao, pesquisadora do Laboratório de Saúde Humana e Paisagem da Universidade de Illinois, estudou o comportamento de moradores de prédios de habitação. Eram dois conjuntos de arquitetura idênticas, exceto que perto de um existia uma área verde, com equipamentos de lazer e contemplação. Após a análise de uma série de dados, como o número de chamadas à polícia por residência, e da realização de entrevistas, o resultado mostrou que as pessoas que residiam próximas ao verde eram menos agressivas, tinham maior espírito de comunidade e lidavam melhor com as tensões do cotidiano. “O homem volta do trabalho exausto. Se ele passa pela praça e encontra um amigo, senta, conversa e relaxa. Quando chega em casa, já está melhor. E, se for agressivo com a mulher, ela consegue buscar ajuda mais facilmente, pois já fez amizades na comunidade por conta do convívio proporcionado pela área verde”, exemplifica Isabelle.


Levantamento realizado em 2006, sobre vegetação do Recife a partir de suas zonas, apontou desproporção de ocorrência, sendo mais arborizados os bairros de melhor poder aquisitivo

Apesar disso, uma pesquisa realizada na comunidade do Coque, na área central da cidade, revelou que a praça pública é vista com receio pelas mães de jovens e crianças em localidades de baixo poder aquisitivo. Elas preferem que seus filhos fiquem dentro de casa, onde podem controlar de maneira mais efetiva a educação deles. “Se simplesmente jogamos uma área verde no meio da comunidade e pronto, impera a lei do mais forte. Então é preciso uma gestão do lugar para transformar a área pública num espaço de cidadania.” O Parque da Jaqueira, na zona norte, é um exemplo de gestão consciente, destaca Isabelle.

Em 2006, ela realizou um levantamento da vegetação urbana do Recife, a partir de amostragens divididas pelas RPAs. Foi possível perceber uma constante que relacionava a flora com o poder aquisitivo do bairro. “Nós temos um processo de disparidade em termos de ofertas do benefício da arborização proporcional a questões da renda. Nas áreas mais densamente povoadas, onde as calçadas são mais estreitas que o normal ou quase inexistentes, como os altos e morros, não há nenhum esforço para se buscar formas alternativas de arborização, como parques e praças”.

Pedro Paulo se diz cansado de lutar por um olhar adequado ao verde da cidade. “Hoje, põem cercas em todas as áreas públicas e deixam algumas delas completamente abandonadas. Na minha época, cada um desses espaços contava com um quadro fixo de funcionários, que se revezavam cuidando da manutenção e segurança do local, 24 horas por dia.” Aposentado do cargo na prefeitura e da função de professor na UFRPE, ele diz que se preocupar com o paisagismo da cidade é como uma corrida de obstáculos. “Um revezamento. E, agora, estou passando o bastão adiante.” 

FELLIPE FERNANDES, jornalista e mestrando em Comunicação Social pela UFPE.
HÉLDER TAVARES, fotógrafo.

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