Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Mágica: Um mundo de ilusão

Hoje, os profissionais do setor contam com aparatos tecnológicos e realizam quimeras com signos do momento, como celulares e computadores

TEXTO Christianne Galdino

01 de Julho de 2013

O mágico Mr. Denis, que também cria engenhocas para suas apresentações, trabalhou como eletricista de teatro

O mágico Mr. Denis, que também cria engenhocas para suas apresentações, trabalhou como eletricista de teatro

Foto Helder Tavares

Difícil não ficar espantado com tamanha agilidade. Criando ilusões, os mágicos causam uma bagunça no nosso campo visual, distorcendo até a mais treinada percepção e desestruturando a nossa lógica. Mas como conseguem nos enganar dessa maneira? Objetos que somem ou aparecem do nada, pessoas que voam, trocas de roupa em poucos segundos, adivinhação de pensamento. Efeitos que levam até os mais descrentes a um estado de encantamento. De passe em passe, a mágica foi escrevendo sua história milenar, e mesmo que esse universo possa parecer distante da vida real, está cada vez mais próximo. A pós-modernidade trouxe o ilusionismo para o dia a dia, mas esqueça o fraque, a cartola e o coelho, por enquanto.

Não que a figura do mágico tradicional tenha desaparecido por completo ou perdido o valor, é que hoje eles usam outros tantos artifícios e apresentam a ilusão nos mais variados formatos e estilos. De caixas, cestos e baús imensos a baralhos, copos, moedas e inofensivas canetas esferográficas, tudo vira mágica. Nas mãos desses artistas, o impossível se torna real. Ainda podemos encontrá-los sob a lona, em picadeiros de circos tradicionais, como o Portugal, o Le Cirque e o Tihany Spetacular, que, pelo fato de ter sido fundado por um ilusionista, o húngaro Franz Czeisler, e ser comandado até hoje por seus descendentes e discípulos, dá ênfase à mágica em todos os seus espetáculos.

Outros invadiram as telas de televisão, com quadros fixos e participações especiais ou atuando como consultores para personagens mágicos da teledramaturgia. Nesse segmento, a presença mais marcante no Brasil é a do paulista Mario Kamia, que foi consultor da Rede Globo nas novelas O astro e Gabriela. O nome, as habilidades mágicas e o gosto pelo desafio, ele herdou do pai, que seguia os passos do seu avô japonês. Atualmente, Kamia, que já ensinou os primeiros truques ao filho Mike, de apenas cinco anos, produz shows de grandes ilusões e desenvolve também números com tablets e smartphones e outros aparatos tecnológicos para clientes do meio empresarial.


Criado por um ilusionista, o Circo Tihany dá ênfase à mágica em suas apresentações.
Foto: Divulgação

Kamia chegou a criar um equipamento específico para essas apresentações: a “mesa multimídia”. Integralmente dedicado à arte mágica, ele costuma protagonizar números de escapismo com alto nível de complexidade, projetos que exigem anos de preparação. “Estou envolvido, agora, em uma nova iniciativa, um desafio de criogenia, em que vou passar 32 horas congelado”, anuncia o mágico, que tem como inspiração David Copperfield, ídolo de gerações inteiras de mágicos em todo o Brasil.

A notória variedade de linhas de trabalho revela o potencial e mostra o panorama de ascensão da arte mágica na atualidade. Em Pernambuco, a maioria se concentra, ainda, nas festas infantis e eventos sociais, mas, aos poucos, vai conquistando também o público adulto, os turistas e o mercado empresarial, além da produção de espetáculos teatrais de mágica. Assim, crescem a cada dia as possibilidades de atuação dos que decidiram abraçar a ilusão como ofício.

A paixão pela mágica surge quase sempre na infância, como uma brincadeira que, futuramente, pode ser um hobby, e, para muitos, uma segunda profissão. Mas, como se pertencessem a uma sociedade secreta, os mágicos permanecem anônimos, camuflados numa outra identidade profissional. Por isso fica difícil identificá-los na rotina apressada da contemporaneidade.


Além de realizar truques que utilizam aparatos tecnológicos, Mario Kamia atua como consultor mágico de programas de TV. Foto: Divulgação

“Quando tinha 17 anos, apesar de já ter feito até curso de mágica com a Estercita Fernandes, e ser apaixonado pelo ilusionismo desde, pelo menos, os 10 anos de idade, eu não pensava em mágica como uma possibilidade de carreira. A pressão social e familiar me fez optar por uma profissão convencional e decidi, então, cursar engenharia eletrônica”, conta o paulista Rafael Baltresca, um dos principais palestrantes-ilusionistas do Brasil, que, atualmente, concentra 100% da sua atuação no mercado corporativo.

Curioso e inquieto, ele encontrou, nas palestras, um jeito de unir suas habilidades mágicas aos conhecimentos de hipnose e PNL – Programação Neurolinguística, e ainda ao carisma e demais atributos de professor, desenvolvidos em 10 anos de aula em cursinhos de pré-vestibular. O caso de Baltresca não é um fato isolado, a história da mágica está repleta de personagens que tiveram que manter outra atividade profissional para garantir o sustento, pelo menos no início de suas trajetórias. São poucos os que se dedicam e sobrevivem exclusivamente da mágica e, por isso, ainda há muito o que se explorar, mesmo porque, como afirma o veterano mágico Lorax, “o ilusionismo é uma arte baseada em ciências naturais, com uso da física mecânica, ótica, química, entre outras, que só podem trazer benefícios”.

FORMAÇÃO
O trabalho do mágico é uma mistura simultânea de referências e experiências técnicas, científicas e artísticas, o que demanda o desenvolvimento de múltiplas habilidades. Mas como se tornar um mágico de verdade? Já que não há escolas regulares ou faculdades no Brasil, “a formação autodidata foi a saída encontrada por quase todos os profissionais”, afirma Baltresca, que investiu também em cursos no exterior.


Os irmãos Vik e Fabrini atuam em dupla e são os únicos brasileiros premiados pela Federação Internacional de Sociedades Mágicas. Foto: Divulgação

Uns tiveram seus primeiros contatos com mágica através de artistas de rua, que usavam os truques para atrair clientes ou conseguir alguns trocados do público passante. Outros assistiram à apresentação de um ilusionista na escola, em uma festa ou no circo. Para muitos, foi a televisão a responsável por conectá-los ao mundo da ilusão. Em todos os casos, o deslumbre inicial vem acompanhado da ânsia de conhecimento. “Acredito que 90% dos meus amigos começaram na mágica comprando ou ganhando aqueles kits de truques básicos, que são vendidos até em lojas de brinquedo”, diz Mario, que teve as primeiras lições em casa, pois faz parte da 3ª geração de artistas da família Kamia.

Hoje, a internet é uma grande aliada. Livros e vídeos ensinando truques também estão disponíveis em quiosques de artigos de mágica, em algumas livrarias e em festivais do segmento. Existe um circuito internacional, competitivo e articulado em rede, que, na sua programação, sempre inclui apresentações, conferências, workshops, feiras e leilões de produtos profissionais de ilusionismo.

Expoente máximo desse tipo de encontro, o Congresso da Federação Internacional de Sociedades Mágicas (Fism) é bienal e tem caráter itinerante. Em 1988, Vik e Fabrini tornaram-se os primeiros (e únicos, até hoje) brasileiros a vencer o Fism, em edição realizada em Haia, Holanda e, com isso, construíram uma sólida carreira internacional. No correspondente latino-americano, Festival Latino-Americano de Sociedades Mágicas (Flasoma), que este ano aconteceu em Santiago, no Chile, os brasileiros sempre se destacam, alcançando prêmios em várias categorias. O Magic in Rio, realizado anualmente no Rio de Janeiro, e o Festival Nordeste de Mágicos (Fenoma), que acontece em Fortaleza, e este ano chega à 10ª edição, são duas importantes versões brasileiras dessa rede.

Mas, apesar das atividades formativas contribuírem com o aperfeiçoamento dos mágicos, o tempo é curto para uma aprendizagem consistente. “O bom dos festivais é conhecer outros mágicos e ampliar a possibilidade de troca de experiências. Ver o que está sendo produzido e quais são as novidades, para se manter atualizado”, opina Baltresca, vencedor do Flasoma 2009, na categoria invenção, e conferencista em vários eventos internacionais de mágica.


Rafael Baltresca em como foco de atuação eventos corporativos, sendo conhecido como palestrante-ilusionista. Foto: Divulgação

Ao aspirante à ilusionista, recomenda-se a orientação de alguém mais experiente, que poderá ser um bom caminho para uma formação plena. “Na maioria das vezes, a execução de um truque não exige habilidades ou conhecimentos específicos e está ao alcance de qualquer interessado que, de uma forma ou de outra, tem acesso a ele. O sucesso é imediato! Mas, quem faz o sucesso? Quem apresenta um truque ou o próprio truque?”, questiona Ozcar Zancopé, que oferece serviço de consultoria especializada para mágicos, desde 2002. “Ser mágico é mais que fazer truques. Para fazer mágicas, é preciso estudar constantemente”, complementa o mestre.

SEGREDOS REVELADOS
Quando Mister M estreou um quadro no programa Fantástico, da Rede Globo, em 1999, protestos surgiram de toda parte do Brasil. Com o rosto encoberto por uma máscara, o mágico norte-americano revelava os segredos por trás dos mais sofisticados truques de ilusionismo, explicando em detalhes como eles eram elaborados e executados. A ideia não agradou nem um pouco os profissionais do ramo, que fizeram de tudo para impedir que os seus truques fossem desvendados. Em vão. Rapidamente, o enigmático Mister M caiu nas graças do telespectador e ganhou fama no país inteiro.

“Eu sempre fui contra, mas a verdade é que ele conseguiu deixar a mágica em evidência e isso reverteu no aumento do volume de trabalho para a nossa área, ou seja, acabou nos ajudando”, lembra Mario Kamia. Isso era só o começo de uma questão delicada e controversa que até hoje divide opiniões no meio mágico. “Eu considero antiético, mas não tem jeito. Em outros países, os efeitos por si só já são suficientes para satisfazer o público, mas os brasileiros têm essa cultura, querem saber como é feito, o que está por trás”, opina Baltresca.


Mr. M conquistou a ira da categoria por revelar os truques do ilusionismo ao grande público. Foto: Divulgação

O legado de Mister M difunde-se nos dias de hoje através da internet, na qual tantos números são revelados, e também por meio de alguns mágicos que se submetem à exigência das emissoras de televisão, mostrando em rede nacional o passo a passo dos seus truques.

Zancopé protesta: “Ora, se todos preservam os segredos dos seus negócios, imaginem a responsabilidade de cada um de nós, profissional ou amador, para que a arte da mágica seja preservada e continue encantando através dos seus efeitos, que só encantam pelo desconhecimento do público da sua essência, ou seja, do segredo. Sem segredo, não há mágica!”.

Sobrevivendo às polêmicas e muitas vezes se alimentando delas, o ilusionismo evoluiu, fazendo do Brasil um cenário perfeito para a mágica acontecer. 

Leia também:
Mágico: O dom de iludir
E tudo começou ali: Egito, Índia, China
O pioneirismo de Astor
Confraria dos truques

Publicidade

veja também

A boca de Deus

Entre o digital e o analógico

Recife sem rival