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Destilados: Uma ressaca histórica

Do uísque à cachaça, a trajetória das bebidas alcoólicas no mundo confunde-se com a da civilização e seus grandes eventos

TEXTO Bruno Albertim

01 de Julho de 2013

Imagem The Virtual Absinthe Museum/Divulgação

Sem os destilados, provavelmente, o mundo não teria se globalizado tão velozmente durante o que a história chamaria de a Era das Grandes Navegações. “Os destilados representavam uma forma durável e compacta de álcool para transporte a bordo de navios e encontraram uma série de outros usos. Essas bebidas transformaram-se em mercadorias de tal importância econômica, que sua taxação e seu controle tornaram-se assuntos de grande relevância política e ajudaram a determinar o curso da história”, sintetiza o jornalista inglês Tom Standage, editor da The Economist e autor de História do mundo em seis copos (Jorge Zahar Editor). Ele não foi o único: em diversos momentos, autores investigaram a presença e a relevância do álcool na história. Confirmando a premissa: com ou sem ressaca, o mundo, para se tornar o que se tornou, precisou de um porre histórico. Ou de vários.

Se, antes, os destilados eram apenas bebidas medicinais desenvolvidas pelos árabes, no século 15, o que se chamava de forma generalista de aqua vitae começou a ganhar largo e franco uso recreativo. “O surgimento dessas novas bebidas destiladas ocorreu exatamente quando os exploradores europeus estavam começando a abrir os caminhos marítimos no mundo, fazendo a travessia pelo extremo sul da África, na direção oriental e atravessando o Atlântico para estabelecer os primeiros contatos com o Novo Mundo na direção ocidental”, segue o autor, lembrando que as ilhas atlânticas da Madeira, dos Açores e Canárias se mostraram excepcionais para a produção de açúcar – outra, aliás, invenção árabe.

Como a manufatura do açúcar exigia água e muita mão de obra, estava instalado o círculo vicioso e randômico: era preciso gente para produzir açúcar e os subprodutos da cana – e eram também mais que necessários esses artigos para se conseguir mais trabalhadores. “Durante a década de 1440, os portugueses começaram a embarcar escravos negros de seus postos comerciais na costa ocidental da África. Inicialmente, esses escravos eram raptados, mas logo os portugueses acertaram com negociantes africanos sua troca por mercadorias europeias”, diz ele, lembrando o que nós, brasileiros sempre mestiços, sabemos: “O uso de escravos expandiu-se drasticamente após a descoberta do Novo Mundo por Cristóvão Colombo em 1492”.

Os brasileiros, lembrou Câmara Cascudo no seu clássico História da alimentação no Brasil, são filhos diletos da cachaça. Tão logo a versão brasileiríssima e potente do rum, nascida nos engenhos, chegou engarrafada à África, virou instrumento de cobiça. “Aguardente da terra, a futura cachaça, era indispensável para a compra do negro africano e, ao lado do tabaco em rolo, uma verdadeira moeda de extensa circulação”, observou Cascudo num livro em que visitou mais especificamente o tema: Prelúdio da cachaça, feito sob o patrocínio do Instituto do Açúcar e do Álcool, em 1967. Nas muitas guerras de independência e gestos de tensão com o governo colonial, a cachaça brasileira tomou o lugar do vinho português como símbolo de afirmação política e identitária nacionais. “A cachaça passou a ser citada por padres, viajantes, políticos, escritores. Virou sinônimo de ‘mal que tudo cura’, e ficou cada vez mais popular”, seguiu Cascudo. Em Sobrados e mocambos, Gilberto Freyre, confirmando que “não há Wanderley que não beba”, diz que os brasileiros são grandes bebedores de água: a exceção seria o Pernambuco dos canaviais e as áreas da mineração do século 18.

No tráfico internacional de escravos, a cachaça confirmava o fluxo dos destilados. “Os traficantes que supriam os europeus com escravos aceitavam uma lista de produtos em troca. De longe, os produtos mais solicitados eram as fortes bebidas alcoólicas”, confirma Tom Standage, lembrando que o homem africano, alcoolicamente educado com vinho de palma, hidromel e cervejas artesanais, viu no consumo dos destilados trazidos por europeus um forte e incontrolável traço de distinção social. E, se sabemos como o desejo (mais que a necessidade) move o mundo, logo os traficantes africanos estavam comercializando conterrâneos por um trago.


A sequência mostra, jocosamente, o processo de embriaguez pelo consumo de absinto, bebida de forte teor alcoólico. Fotos: The Virtual Absinthe Museum/Divulgação

RUM REVOLUCIONÁRIO
Mais para cima do Equador, o rum, igualmente extraído da cana-de-açúcar, ajudou a fazer os Estados Unidos da América. “Além da venda para consumo local, os destilados da Nova Inglaterra encontraram um mercado pronto em meio aos comerciantes de escravos para os quais o rum tinha se tornado a forma preferida de moeda alcoólica com a qual podiam negociar na costa ocidental da África”, segue o autor, lembrando que os destiladores chegaram a produzir versões ainda mais potentes da bebida, confirmando a lógica geral dos destilados: quanto mais álcool comprimido, maior a quantidade de riqueza engarrafada.

Mas o rum que patrocinava a compra de escravos, para que os ingleses mantivessem suas grandes colônias americanas, terminou também por embriagar demais o colonizador: ajudou a precipitar a independência americana. Para impedir que os produtores da Nova Inglaterra comprassem melaço das colônias sob o domínio da França concorrente, a Inglaterra sobretaxou as importações, exigindo que se comprasse apenas o melaço produzido nas ilhas britânicas. Como a produção das colônias inglesas não era suficiente para abastecer a indústria de rum nos estados que ainda não eram unidos, os produtores ignoraram a lei do melaço por completo, contrabandeando o artigo das colônias francesas.

“A taxação do rum e do melaço, que dera início à hostilidade entre a Grã-Bretanha e suas colônias norte-americanas, tinha conferido ao rum um sabor distintamente revolucionário. Muitos anos depois da rendição britânica em 1781 e da independência dos Estados Unidos, John Adams – já então como um dos fundadores do país – descreveu para um amigo: ‘Não sei por que deveríamos ter vergonha de confessar que o melaço foi um ingrediente essencial na independência norte-americana. Muitos grandes acontecimentos resultaram de causas muito menores’”, escreve Tom Standage.

ANESTÉSICO SOCIAL
A popularização das aguardentes estimulou a reflexão sociológica. Camarada da primeira e de todas as horas de Karl Marx, o Frederich Engels que ajudou a urdir o Manifesto comunista se preocupava com as consequências sociais do consumo de álcool. Para ele, havia uma relação sociológica e diretamente proporcional entre a exploração do trabalho operário e o abuso de bebidas: o copo como consolo mais fácil e tranquilizante à mais-valia capitalista: “A aguardente é para os trabalhadores quase a única fonte de gozos e tudo conspira para que se feche o círculo ao seu redor”. Engels, no entanto, abonava o vinho e a cerveja que gostava de bebericar. Mas demonizava a aguardente, para ele uma fonte irrestrita de apatia entre os trabalhadores, um verdadeiro anestésico social.

No seu ensaio A situação da classe operária na Inglaterra, de 1845, Engels diz que o baixo preço da aguardente teria produzido grande indiferença entre os trabalhadores nas lutas classistas de 1830. “No movimento operário europeu do final 19, o debate sobre o uso do álcool pela classe trabalhadora foi um divisor de águas entre dois polos no interior da Segunda Internacional Comunista: dos defensores da proibição, que viam na embriaguez uma forma de degeneração e uma neutralização do potencial de mobilização política e sindical; e dos que se posicionavam contra qualquer medida proibicionista, por identificarem na bebida não só suas formas de consumo compulsivo e alienante, mas também formas moderadas e construtoras de laços de sociabilidade”, explica Henrique Carneiro, professor de História Moderna da Universidade de São Paulo e autor de Bebida, abstinência e temperança – na história antiga e moderna (Ed.Senac).

Um dos pais da sociologia moderna, Durkheim tratava o álcool e o alcoolismo como fatos sociais. Curiosamente, não via qualquer relação entre o consumo exagerado de bebidas e altas taxas de suicídio. Ponto alto de sua trajetória, o sociólogo classificou o suicídio, seja ele qual for, como um gesto social. Em situações de crise, por exemplo, as ocorrências aumentariam mais nos países ricos que nos pobres – já que os menos favorecidos teriam mais escopo psíquico para lidar com problemas cotidianos. Durkheim, como que fortuitamente, percebeu apenas que as taxas de suicídio seriam menores em regiões com mais tradição no consumo de vinhos que de destilados.

A história das civilizações começa, desde seus princípios, molhada de álcool. Quando, há cerca de 12 mil anos, os homens do chamado Oriente Próximo trocaram o estilo nômade de vida e a coleta pela agricultura e o sedentarismo, as primeiras fixações humanas se viabilizaram com os dois principais produtos feitos dos cereais domesticados. “Com a mudança de estilo de vida de caça e coleta para um mais sedentário, os homens vieram a contar com uma nova bebida derivada de cevada e trigo, as primeiras plantas intencionalmente cultivadas. Esta tornou-se o núcleo central da vida social, religiosa, econômica, e foi a principal bebida das primeiras civilizações. Foi a primeira a ajudar a humanidade ao longo do caminho para o mundo moderno: a cerveja”, lembra, de novo, Tom Standage.

Usada também como moeda de troca, a cerveja era o lado líquido de uma moeda que tinha na sua outra face o pão. “Um mingau grosso podia ser cozido ao sol ou numa pedra quente para fazer um tipo de pão; um mingau fino podia ser deixado para fermentar e virar cerveja”, diz ele, confirmando que um chopinho é mais que um exercício de sociabilidade depois do expediente. É uma das matrizes da civilização. 

BRUNO ALBERTIM, jornalista especializado em gastronomia.

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