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No cinema, a cidade como um reduto de "não lugares"

TEXTO Kleber Mendonça Filho

01 de Abril de 2012

Nos últimos anos, a produção local de cinema registra a cidade de forma crítica, como no 'Projetotorregêmeas'

Nos últimos anos, a produção local de cinema registra a cidade de forma crítica, como no 'Projetotorregêmeas'

Foto Divulgação/ [projetotorresgemeas] / projetotorresgemeas.wordpress.com

SEQ. 1. EXT. RUA. CALÇADAS/MUROS. DIA. Uma sátira aos vídeos institucionais: grupo de passistas de frevo que pulam sorridentes com sombrinhas coloridas. As imagens dos dançarinos hiperativos são feitas contra paredões gigantes de prédios caros, um fundo brutalista que toma todo o quadro. Cada novo plano revela quão pequeno o grupo fica em relação ao fundo absoluto de cimento e quadradinhos brilhosos de cerâmica. Todos dançam e pulam alegres. Na trilha, ouvimos Viva o Recife, da Banda de Pau e Corda:

“O Recife acordou, deu bom-dia/ Encontrou todo o povo nas ruas/ Nas pontes, nas praças, se amando/ Se encontrando com alegria/ No eterno gingado de frevo, ciranda e baião/ Batida de coco, maracujá e limão/ Vem, vem, vem fazer parte deste cordão/ Recife tem um lugar pra você dentro do coração”.

PLANO FINAL: Num plano geométrico chutando para baixo, tomado do 40º andar de algum prédio em Boa Viagem, vemos o diminuto grupo de frevo lá embaixo, como formiguinhas coloridas e saltitantes. A música agora baixinha e distante.

Poderia ser uma cena para algum filme pernambucano sobre o espaço urbano do Recife hoje. Parece que essa cidade toma um caminho apressado para transformar-se num reduto de “não lugares”. Com a montagem certa e ângulos de câmera ok, poderia resultar numa sequência musical remixada com elementos distintos, como o musical (bo/ho)llywoodiano), o VT local chapa branca com figurantes sorrindo aleatoriamente e locações irreconhecíveis do “não espaço” urbano. Talvez funcionasse como mais um ponto de vista possível sobre o que estão fazendo com esta cidade, um ponto de vista de dentro do próprio cinema.

Nos últimos anos, a produção cinematográfica pernambucana tem registrado o Recife de maneira crítica. Já temos uma boa dezena de filmes, curtas e longas-metragens, que se completam sobre um mesmo tema. Um lugar ao solPraça Walt DisneyMenino-aranhaEiffel[Projetotorresgêmeas]Recife MD e os vídeos VurtoQuarteto simbólicoRecife frio, boa parte deles disponível na internet.

Os filmes serão documentos para o futuro, talvez de uma época quando, em visão retrospectiva, ainda teria sido possível fazer alguma coisa. Fotografar uma cidade, seja em imagens still, em movimento, oferece inevitavelmente uma releitura da realidade escrita pela própria arquitetura, e por um desejo de urbanismo que faz essa mesma cidade existir como espaço urbano. Revela também uma relação de amor com esse mesmo espaço.

Para tal, não é preciso ser fotógrafo profissional, ou cineasta. Cada vez mais, blogs e jornais recebem imagens, feitas com câmeras baratas ou celulares, da cidade dando errado. Muitos desses registros revelam o próprio lugar. Eu, pessoalmente, acredito que, para o cinema, a má arquitetura fotografa melhor do que a boa e bela arquitetura. Há uma dramaticidade natural na má arquitetura, na organização incompetente do espaço urbano, ditada pelo interesse econômico e não por ideias inteligentes que priorizem as pessoas, a população.

As duas torres “dedo no olho” da Moura Dubeux, no Cais de Santa Rita, sem qualquer critério, “poluem” uma área histórica. Fotografam bem pela feiura da inadequação naquele contexto, e representam a mais forte demonstração de desrespeito à cidade e da bagunça em que tudo se transformou. Dois “puxadinhos” de 40 andares no coração histórico de uma cidade histórica.

Armazéns demolidos, no Cais José Estelita, para a construção de uma sequência gananciosa de supertorres de segurança máxima fechadas para o resto da cidade? Ou armazéns portuários reaproveitados para a cultura, a arte, a educação, o comércio e o verde, como em muitas cidades do mundo que já passaram por essa escolha?

Transporte coletivo de qualidade que fará a população repensar sua relação com a cidade e os automóveis, com mais qualidade de vida e cidadania? Ou transporte coletivo ruim que continua satisfazendo os interesses das famílias que dominam esse business de terceiro mundo, há décadas?

Essa tensão inerente às más ideias transformadas em orgulhosas construções, ou em projetos que sugerem estar contra o povo, rende comentários reveladores a partir das imagens que fazemos.

Para mim, as câmeras revelam que a boa arquitetura não parece nos dar essa tensão dramática necessária no cinema, exatamente por ser ela justa e correta.

O registro de uma bela e generosa construção, ou organização de espaço, lembra o registro de uma flor. Pode-se admirar as cores, a luz, as formas, as gotículas de orvalho nas pétalas macias. No entanto, para mim, pouca coisa vai além desse simples prazer estético.

Na má arquitetura, o drama humano e a sociedade dodói vêm à tona imediatamente. O mau gosto bancado por muito investimento lembra que dinheiro não compra necessariamente talento, mas que ele anda de mãos dadas com a arrogância. Arrogância, quase sempre, rende bom drama.

Nesse sentido, é impossível viver em grandes cidades brasileiras, como o Recife, e não sentir essa tensão. Ela vem da pouca amizade que esse espaço urbano parece nos oferecer, mesmo que nós queiramos ser amigos e defensores desse lugar. De fato, o problema é menos a cidade e bem mais o que estão fazendo com ela.

O conceito de “não lugar” propõe um espaço incapaz de agregar uma identidade, uma relação pessoal nossa com aquele lugar. No cinema, um exemplo válido e prático é uma sala multiplex, um não lugar por excelência, localizado num não lugar ainda maior, o shopping center.

O próprio sistema estimula esse anonimato espacial, pois se, antes, nós associávamos filmes aos espaços onde eles foram vistos – exemplo: “Eu vi Veludo Azul no Cinema São Luiz...” – , hoje, isso quase não é mais possível.

Grupos exibidores investem na não informação de onde você verá um filme. Se é na sala 12 ou na sala 5, pouco importa, na era dos não lugares. O que vale é o ingresso pago, e não um real senso de espaço reconhecido. Se a sala 12 é maior e mais bem equipada do que a 5 ou a 8, isso não vem ao caso, o ingresso é o mesmo nos não lugares.

A cada mês, vêm à tona novas informações e desdobramentos sobre os planos traçados na surdina no sentido de transformar o Recife, cidade tão cheia de personalidade e história, numa paisagem desses não lugares.

Ruas pequenas, onde antes existiam casas, hoje lembram valas de uma represa para o escoamento de água. É possível andar hoje nessas “ruas-vala”, os dois lados da calçada tomados por muros de quatro metros de altura, a sensação de estar num não lugar é cada vez mais forte.

Ninguém prevê isso, quando planos e projetos são submetidos? Ninguém prevê o efeito nocivo que essa configuração do espaço terá na cidade como um todo?

A demolição e a alteração do espaço urbano subtraem obrigatoriamente o que existia antes. A cada novo projeto anunciado e aprovado pelos que deveriam proteger o Recife, vemos sumirem cada vez mais as possibilidades de um espaço público mais sensível, mais inteligente, mais humano.

Talvez seja o caminho natural de um país sem cultura e que, de repente, está tendo acesso a muito dinheiro. Nessa nação nova-rica, tudo pode de qualquer jeito, objetivando o lucro a curto prazo, a partir de intervenções urbanas e construções que irão marcar a cara das cidades a longo prazo. As imagens estão registrando tudo isso. 

KLEBER MENDONÇA FILHO, jornalista, crítico de cinema e cineasta.

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