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Coletivos: Inquietação criativa

Grupos pernambucanos ganham respaldo em eventos como o Festival de Teatro de Curitiba

TEXTO Olívia Mindêlo

01 de Abril de 2012

 Apresentação de 'Aquilo que o meu olhar guardou para você' em festival recifense deu impulso à ida do grupo a Curitiba

Apresentação de 'Aquilo que o meu olhar guardou para você' em festival recifense deu impulso à ida do grupo a Curitiba

Foto Victor Jucá/Divulgação

Lucas passou os primeiros meses da sua vida sem ter um nome. Enquanto sua família não resolvia o impasse, todo mundo o chamava de “menino”. Era menino pra lá, menino pra cá... Até que, um dia, ele ficou doente e a mãe achou que era castigo por falta de batismo. Suplicando a melhora do filho, ela abriu a Bíblia, acordando com Deus que o primeiro nome que aparecesse seria o de seu filho. E, assim, Lucas nasceu de novo.

Já com Ceronha, a história foi diferente. Seu nome nada habitual surgiu de uma ideia do pai, inspirada num programa de humor, que satirizava os coronéis da roça. No enredo, um coronel tinha uma mulher, Antônia, que resolveu batizar sua filha de Corônia. O pai disse que, se juntasse o apelido dele, Cenhão, com o nome da mãe, a filha sairia Cenhônia. E, se pegasse emprestado o “ro” da patente do avô coronel, ficaria Cerônia. A brincadeira poderia ter parado aí, se o obstetra não tivesse convencido a família de que a menina seria a única Cerônia no mundo. No cartório, a escrivã registrou Ceronha, com “nh”. E assim ficou.

Tanto Lucas Torres quanto Ceronha Pontes são personagens da vida real. Mais do que isso: são atores cuja própria história de vida (e de nomes) se confunde com a ficção que entra em cena nos espetáculos Aquilo que meu olhar guardou para você (2012) e Essa febre que não passa (2011), nos quais os dois, respectivamente, atuam. Por percursos cênicos bem diferentes, são essas peças que levam, neste mês, os nomes do Grupo Magiluth e do Coletivo Angu de Teatro, pela primeira vez, à mostra oficial do Festival de Teatro de Curitiba.

Dado o peso do evento para as artes cênicas do país, a escolha da curadoria por dois grupos do Recife, ao mesmo tempo, numa mostra seletiva e disputada pelos “formadores de opinião”, parece querer acender uma pergunta: será que o teatro recifense vive um novo momento, com esses grupos?

Tudo indica que os ventos sopram uma fase de reconhecimento e circulação deles fora do estado, uma fase sintomática de inquietação criativa. Além dos dois mencionados, também viaja, este mês, a Trupe Ensaia Aqui, Ensaia Acolá, da mesma geração teatral do Magiluth e do Angu, nascida com os anos 2000. A trupe não vai ao Festival de Curitiba, mas foi selecionada por curadores de todo o país para circular por cerca de 40 cidades brasileiras, com a “tragicomédia” O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas, através do Palco Giratório, projeto nacionalmente já consolidado do Sesc. Com tiradas escrachadas e bom apelo de público, a peça já conquistou plateias do Recife, do interior pernambucano e de outros estados.

Mas não é de hoje que a Trupe, o Angu e o Magiluth circulam pelos palcos brasileiros. Festivais como o de Guaramiranga, no Ceará; o Porto Alegre em Cena, no Rio Grande do Sul; o Cena Contemporânea, de Brasília; e o extinto Rio Cena Contemporânea, no Rio de Janeiro, foram alguns dos locais importantes nos quais eles já encenaram seus trabalhos. Dessa vez, no entanto, os holofotes são ainda mais fortes, principalmente no caso do Festival de Curitiba, um terreno fértil para lançar os grupos em novos voos ou, ao menos, tirá-los do anonimato no âmbito nacional.


O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas, da Trupe Ensaia Aqui,
Ensaia Acolá, circulará por 40 cidades brasileiras. Foto: Priscila Buhr/Divulgação

INFLUÊNCIAS
“No ano passado, o grupo Clowns de Shakespeare (de Natal, RN) abriu a mostra oficial do Festival de Curitiba com a peça Sua incelença, Ricardo III. Depois, acabou se apresentando no Chile (no Santiago a Mil, bem importante na América Latina). Curitiba atrai um público grande e jornalistas e críticos fundamentais na formação da opinião de todo o país. É prestigioso estar na mostra oficial”, ressalta Celso Curi, um dos curadores da edição de 2012, ao lado de Thania Brandão e Lúcia Camargo. Para Celso, a ida do Magiluth e do Angu à principal seleção do festival tem a ver com uma atenção do evento à produção latino-americana. “Acredito muito no trabalho deles. O público de Curitiba vai se surpreender”, aposta.

Além da mostra oficial, composta este ano por 29 espetáculos do Brasil e de outros países, a grade da 21ª edição é formada pelos espetáculos do Fringe, uma seleção paralela ampla (com 365 trabalhos, em 2012), na qual geralmente não se ganha cachê e, às vezes, nem passagem e hospedagem para se apresentar. O Coletivo Angu, por exemplo, já foi por conta própria ao Fringe, numa caravana com 17 pessoas. Esteve em 2007, com as peças Angu de sangue e Ópera.

Segundo contam, a ida valeu a pena para a autoestima e para a divulgação do grupo. “Todos os festivais são importantes, mas Curitiba é vitrine”, resume André Brasileiro, um dos fundadores do Angu e diretor, com Marcondes Lima, do drama feminino Essa febre que não passa, com apresentação marcada para os dias 6 e 7 de abril, no evento.

O Magiluth, que nunca foi ao festival curitibano, tinha sido chamado inicialmente para o Fringe. Antes de os curadores inseri-lo na mostra oficial, a Companhia Brasileira de Teatro, que é de Curitiba e organiza uma das mostras paralelas, convidou o grupo para apresentar Aquilo que meu olhar guardou para você, depois de ver algumas cenas do trabalho no Rumos Itaú Cultural Teatro, em agosto do ano passado. Na ocasião, em São Paulo, os selecionados pelo edital tinham que exibir o resultado de uma bolsa de pesquisa recebida durante seis meses, a partir de um compartilhamento entre eles – os grupos de teatro contemplados pelo edital. A Cia. Brasileira, o Magiluth, o Angu e outros nomes estavam na seleção. O resultado consistia em mostrar culminâncias do percurso investigativo ou discutir sobre os estudos realizados.

“O edital do Rumos não é para montagem e, sim, para dar condições de os grupos fazerem o que já estão fazendo; condições para o estudo. O Magiluth chamou a atenção pela sua maneira própria de criar, tinha leveza e força no jeito de eles fazerem teatro”, lembra Sônia Sobral, gerente de Artes Cênicas do Itaú Cultural. Sobre a participação pernambucana no edital, ela diz que só assistiu ao Angu e ao Magiluth duas vezes. “Tenho muita vontade de acompanhá-los e ver mais, porque eles têm potencial para construir linguagem. Definitivamente, não estão fazendo ‘mais do mesmo’ que já vem sendo feito no Brasil”, afirma.

A Cia. Brasileira e o Grupo Espanca (MG), aclamados na cena contemporânea nacional, foram alguns dos que se surpreenderam com o trabalho do Magiluth no Rumos. Meses depois, o mesmo aconteceria com Celso Curi, após pisar no Recife a convite do Janeiro de Grandes Espetáculos de 2012, festival organizado pela Apacepe – Associação de Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco. “Eu já tinha ouvido falar no Angu. Desde o ano passado, eles tinham mandado DVD e tínhamos fechado a sua ida para a mostra oficial. Quando fui ao Recife, aproveitei para assistir, ao vivo, à Essa febre que não passa e só confirmei a escolha que fizemos. É um trabalho interessante, contundente, e as atrizes são fenomenais. Agora, o Magiluth foi uma surpresa absoluta. Fui desavisado e, quando voltei do Recife, vi que algo tinha me atingido. É o tipo de teatro que me interessa. Apesar de ser um velhinho de 61 anos, gosto da experimentação”, conta o curador do Festival de Curitiba.


O grupo Angu de Teatro leva para o Festival de Teatro de Curitiba a peça Essa febre que não passa. Foto: Isabela Maranhão/Divulgação

Foi assim que o espetáculo Aquilo que meu olhar guardou para você passou a compor a mostra oficial, ficando na seleção da Companhia Brasileira e no Fringe, O canto de Gregório e Torto, outros espetáculos do Magiluth. Depois de se apresentar em Curitiba, o coletivo segue para São Paulo. Este ano, o Fringe também vai receber mais um trabalho do Recife: O varal de casa, do Coletivo Âmbar de Teatro.

O elenco do Magiluth também se surpreendeu com o convite para a mostra oficial do festival. Achava que seria improvável, pelo próprio perfil do evento. “É um festival mais comercial, e que já foi criticado por isso. Talvez tenha sido o motivo de estar mudando, abrindo espaço para uma ‘cota’ de novas apostas, digamos assim. Toda curadoria é estratégica, a gente já aprendeu isso”, analisa Pedro Vilela, um dos cinco integrantes do Magiluth. Pedro Wagner, outro membro do coletivo, acha que eles ainda são vistos como “exóticos” pela cena teatral do Sul e do Sudeste. Por Celso Curi, não. Ele diz que “teatro é teatro”, não tem isso de “sotaque”.

Lucas Torres, do Magiluth, acredita que a ida a Curitiba tem a ver com o trabalho focado no coletivo, na continuidade, na pesquisa, na construção de um repertório, na participação em festivais, na troca com grupos de fora e na busca por outra linguagem, outras possibilidades. “Nós não trabalhamos pensando nisso. Quando chegamos ao Itaú Cultural, estávamos onde deveríamos estar”, diz Pedro Vilela, lembrando que, mesmo sem ganhar um edital – sequer foram contemplados num edital local, como o Funcultura –, o grupo nunca parou.

O ator Ivo Barreto, do Angu, vê a ida como consequência: “De alguma forma, já somos uma referência. Há outros grupos se espelhando na gente”. André Brasileiro reforça, ainda, o papel do Festival Recife do Teatro Nacional, que em 2012 completa 15 anos, e do Janeiro de Grandes Espetáculos, como eventos que ajudaram os grupos a circular pelo país.

O ator Leidson Ferraz, da organização do Janeiro, credita a circulação dos grupos mais especificamente à estratégia da Apacepe em trazer, a partir de 2007, curadores de fora de Pernambuco para assistirem aos espetáculos do festival. Hoje, a vinda desses profissionais, determinantes na legitimação dos artistas, representa 3% do orçamento total do evento. “Foi bom, para dar visibilidade aos grupos e ajudá-los a circular, e para o próprio Janeiro de Grandes Espetáculos, que cresceu, tornando-se um festival internacional”, avalia.


Gerente de Artes Cênicas do Itaú Cultural, Sônia Sobral destaca a atuação de grupos que evitam o “mais do mesmo”. Foto: Cia de Foto/Divulgação

CICLOS E FASES
Além do Magiluth e do Angu, outros nomes pernambucanos já se apresentaram na mostra oficial do Festival de Curitiba, como a Companhia Teatro de Seraphim, em 2002, com o espetáculo Churchi blues, e a peça Três viúvas de Arthur, resultado do projeto O aprendiz encena, do Centro Apolo-Hermilo, em 2007. Seria mesmo, então, o sintoma de um novo momento? Para a maioria dos que fazem a cena contemporânea de teatro no Recife não há exatamente uma nova fase, mas um caminho que começa a apontar diferentes possibilidades.

“Não diria que é um momento diferente. Grupos sempre apareceram em Pernambuco. O difícil é continuar. Acontece que, a partir de 2000, houve um boom. O século 21 marca a retomada de grupos em Pernambuco”, diz Leidson, que assina a organização dos dois volumes de Memórias da cena pernambucana, cujas páginas fazem uma compilação da produção teatral no estado, dos anos 1990 para cá.

Para André Brasileiro, o teatro também é feito de ciclos, de safras, e é importante que haja continuidade dos grupos para fortalecer o palco no Recife e em todo o Nordeste.

Para Giordano Castro, Pedro Vilela e Lucas Torres, do Magiluth, é preciso que haja, ainda, uma política voltada para o teatro em Pernambuco. Articulada e capaz de apoiar a cadeia produtiva, pois, como diz Pedro, “o teatro não é uma arte autossustentável”, e estar em festivais ajuda, mas não é tudo.

Jorge de Paula, da Trupe Ensaia Aqui, Ensaia Acolá, acredita que o quadro vem se modificando, a despeito das dificuldades: “Vejo coletivos, grupos e artistas preocupados em discutir as necessidades da contemporaneidade, em investigar uma dramaturgia, em dialogar com o todo”. Que as viagens tragam, então, mais possibilidades de crescimento e amadurecimento para a cena local. 

OLÍVIA MINDÊLO, jornalista e mestre em Sociologia.

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