Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Meio mote

TEXTO José Cláudio

01 de Dezembro de 2011

Imagem José Cláudio

Lá em casa éramos cinco, isto é, somos, porque estamos vivos: eu primogênito e irmãs. Todas formadas. O único que não deu para nada fui eu. Aliás mamãe dizia que os homens da nossa família, quer dizer, do lado dela, nunca deram para nada. Assim, tive a quem puxar. Ela, também, sem nunca ter lido Euclides da Cunha, achava que homem confiável era do Sertão, que na Zona da Mata não dá homem que preste, embora meu pai, cabense, fosse homem de respeito como sabem todos que o conheceram. Outro dia Egídio Ferreira Lima mesmo disse: “Seu Amaro era um homem de bem”. Me veio isso ao cantarolar o aboio, que conheço há mais de quarenta anos: “Minha mãe teve três filhos/Todos três interesseiro/Um deu pra tocar sanfona/Outro deu pra boiadeiro/E eu dei pra beijar moça/Qu’é um serviço maneiro”.

Como não sei quem é o autor do aboio, imagino o quanto não lhe deve ter doído, ou doer se ainda estiver vivo, ouvir seu aboio sem que seja citado o nome do autor, como se nascido do nada, caído, afrontosamente, no tal “domínio público”. E mesmo no domínio público não quer dizer que se negue a autoria, apenas não precisando pagar direitos autorais depois de sessenta anos do falecimento do autor. Parece que é assim. Vou perguntar a Zé Paulinho.

Não raro, por mais que o autor reivindique a autoria, corre o risco de ficar falando sozinho, sendo até ridicularizado, contestado por algum espertalhão que se apresente como verdadeiro autor e disso convença Deus e o mundo.

Vou contar um caso que aconteceu comigo há muitos e muitos anos num reino a beira mar quando fazia o primeiro ano de direito que aliás nunca fiz. Convivia, isto sim, com os estudantes que gostavam de literatura, poesia, pintura. Tenho como certo, por exemplo, que foi Fernando Coelho, colega de turma, quem me mostrou pela primeira vez os Cadernos da Bahia de Carybé, artista de cujo convívio cheguei a privar e que teria tanta importância na minha vida. 1951 ou 52: nem disso me lembro. Uma noite fomos, alguns estudantes, “acadêmicos” dizia-se na época, a uma cantoria no antigo prédio da Associação de Imprensa de Pernambuco antes da modernização, ou melhor, da demolição do centro do Recife. Fiquei sentado junto de Constantino Dounes, colega de turma, que morava ali pela Boa Vista, como eu. Eu, na Rua de Santa Cruz. Ele, não sei. Mas seu irmão fazia ponto com outros, inclusive meu futuro cunhado Roberto, casado com minha irmã Nena, no poste da esquina do cruzamento das ruas de Santa Cruz, Glória, São Gonçalo e Visconde de Goiana.

Voltando à cantoria. Pediram para a plateia dar motes. Me ocorreu: “O Capibaribe canta”. Constantino completou: “Quando o Recife adormece”. Os cantadores alinhavaram alguma coisa, nada de muita expressão. Então um senhor ainda jovem, alto, afilado, branco, cabelo bom, preto, penteado para trás, sentado ao meu lado, abriu uma pasta de couro – ele era um tipo elegante –, tirou uma folha de papel em branco, do bolso interno do paletó uma Parker 51 de tampa dourada e escreveu com tinta azul sem nenhum titubeio: “Quando a lua se levanta/Do dorso do firmamento/Num vago e triste lamento/O Capibaribe canta;/Sua líquida garganta/Se desfaz em longa prece/O vento da noite desce/Trazendo estrelas dos ares/Cantam as ondas nos mares/Quando o Recife adormece”. Como não ficou registrado em canto nenhum, pago aqui este tributo ao grande Rogaciano Leite, como assinou embaixo: “Rogaciano Leite”, uma letra levemente inclinada para frente mas bem legível. Aliás escreveu duas estrofes das quais só decorei esta. Guardei o papel muitos anos. Até hoje tenho a ilusão de tê-lo comigo enfiado por aí em algum pacote nestas mil mudanças que fiz nos últimos cinquenta e mais anos.

Tempos depois, tendo deixado de estudar, sem saber o que fazer da vida, “sem ter dado para nada”, num bar em Ipojuca, ouvindo um programa de cantoria da PRA-8, o locutor anunciou o mote enviado por algum ouvinte: “O Capibaribe canta/Quando o Recife adormece”. Olhei em volta. Ninguém olhou para mim. Nem ousei pensar em dizer que o mote era meu: teria passado por mentiroso até hoje.

Recentemente cogitei narrar o episódio a Roberta Clarissa num programa de violeiros, aboios, poesia matuta da Rádio Folha mas até nisso dei azar: o programa saiu do ar. Vou até me queixar a Zé Paulinho. Prova de que a omissão de autoria me dói mesmo depois de tanto tempo. E do mote, de dois versos, somente sou autor do primeiro, de meio mote pois. E nem de poesia vivo. Vivo de pintura. A não ser que se leve em conta o dito de Simônides de Ceos (556-468 a. C.): “a pintura é uma poesia muda; a poesia, uma pintura que fala” (Laocoonte ou sobre as fronteiras da pintura e da poesia, G. E. Lessing, Iluminuras, obrigado Sidney Rocha). 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

Publicidade

veja também

Venda a sua música, não a sua alma

Um cinema sem respostas

Vedetes e polêmicas