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Ricardo Piglia: O encontro com a voz que guiará o leitor

Escritor argentino explica como funciona seu método de construção de histórias, tomando como ponto de partida o seu mais recente romance ‘Alvo noturno’

TEXTO Schneider Carpeggiani

01 de Novembro de 2011

Piglia afirma que os gêneros literários são ocos e busca revirar expectativas

Piglia afirma que os gêneros literários são ocos e busca revirar expectativas

Foto Divulgação

Tony Durán era um aventureiro e jogador profissional e viu a oportunidade de estourar a banca, quando topou com as irmãs Belladona. Foi um ménage à trois que escandalizou o povoado e ocupou a atenção geral durante meses. Essas linhas não são minhas, mas roubadas de Ricardo Piglia, do primeiro parágrafo de sua mais recente novela, Alvo noturno. A ladroagem é justificável (e perdoável), se lembrarmos (outra vez) as palavras do escritor argentino: “São nas primeiras linhas que a gente ganha a confiança do leitor. É quando a voz da narrativa se estabelece”.

Piglia é um campeão em confiscar nossa confiança em parágrafos iniciais (ainda que a trama posterior nos ensine a jamais confiar assim tão fácil em primeiras impressões), desejo maior de qualquer jornalista ou escriba. Em Respiração artificial, ele perfilou/resumiu o drama da família do narrador com a curta exclamação de espanto contida na frase “Dá uma história? Ah, se dá”. Assim, simples, e sem perder o fôlego. Com Alvo noturno, seu retorno à ficção após quase uma década, recebe-nos com ménage à trois, insinuação de incesto e o assassinato do suposto protagonista. Quem se atreveria a largar uma leitura com tantas e tamanhas reviravoltas num espaço de tempo tão curto?

“Quando a gente encontra a voz que vai guiar o leitor, ou mesmo a voz que fará ele se perder pela história, o livro flui rápido para o escritor”, continuou, numa entrevista por telefone com a Continente. Não foi minha primeira conversa com Piglia. Há um ano, quando da sua participação na Fliporto, conversamos no hall de um hotel à beira-mar, no bairro de Boa Viagem, zona sul do Recife. Foi esquisito encontrar com aquele homem que entendeu Kafka, descascou o peronismo, reelaborou a ideia de ficção-histórica e viu Borges, tendo como pano de fundo a alegria solar de turistas bronzeados.

Lembro que Piglia discorria sobre o teor de Alvos noturnos (na época, ainda sem edição nacional), com sua voz sendo enterrada por um casal de namorados que não se entendia sobre os rumos da programação do final de semana, na mesa ao lado. A cena, vista hoje em perspectiva, era tão, mas tão surreal, que mais parecia extraída de um livro do realismo mágico, típico do (hoje pejorativo) “boom literário latino-americano”, do qual o argentino conseguiu se “safar”.

A salvo dos clichês da geração do boom, Piglia construiu um mundo literário particular, que se repete, livro após livro, formado pela desconstrução do peronismo, homens cascas-grossas e mulheres fatais envoltos num universo de dúvidas. “Acho que as mulheres fatais aparecem tanto nos meus romances porque aprendi algo com elas bem cedo na minha vida (risos). E quando você aprende algo com uma delas, jamais esquece”, ironizou. Se é possível listarmos com facilidade as derrapadas literárias de autores que começaram em meados dos anos 1960, junto com Piglia (leiam-se pesos-pesados da estirpe de Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa), com esse argentino, a coisa complica: ele soube ser mais regular que seus contemporâneos e parece hoje mais próximo da geração formada por nomes como Roberto Bolaño e Alan Pauls.

ARMADILHA PARA GÊNEROS
Alvo noturno é uma armadilha das mais traiçoeiras com os formatos tradicionais da ficção. Aqui, o romance policial é revirado pelo avesso. “Os gêneros literários são ocos. Não havia sentido em fazer um livro policial. A minha perspectiva é sempre revirar todas as expectativas”, disse Piglia. Na sua trama, estão presentes todos os elementos clássicos do filão noir: o vilarejo isolado do resto do mundo, o investigador durão e honesto, as mulheres fatais, e fatais consigo mesmas (no caso aqui, gêmeas idênticas), o forasteiro assassinado, o milionário excêntrico, o suspeito inocente, o repórter cínico, mas de bom caráter, o hotel decadente e acima de qualquer suspeita e, claro, o fiel ajudante japonês. Todos eles tratados como marionetes pela voz confiante de Piglia, que parece saber de tudo, estar acima de todos os fatos.

A história é narrada a partir de inúmeros voos por referências literárias e filosóficas, porém tratadas de maneira condensada, para que o leitor não perceba que o substrato da própria literatura é sempre o tema favorito de Piglia. É nesse contexto, que percebemos a habilidade do escritor: ele é continuador da tradição de Flaubert e Cervantes de escrever livros sobre outros livros, mais um obcecado pela “biblioteca universal”, mas acha que não precisamos perceber isso tão fácil.

Qualquer um, com o mínimo interesse em jornalismo cultural, sabe que os repórteres adoram questionar se determinado livro, de alguma forma, mimetiza a vida real do seu criador (como se fosse assim tão simples separar a memória da ficção). Críticos literários parecem sempre “caçadores” de diários. Isso não costuma ocorrer em relação a Piglia. Porque ele aparenta estar sempre falando de uma coisa distante da própria experiência pessoal, ainda que com um inquestionável conhecimento de causa. Habilidoso, aprendeu a se misturar de tal forma com suas criações, que fica difícil encontrá-lo pelos seus textos.

Em Alvo noturno, ao menos, sabemos que a obra foi erguida a partir de memórias familiares. “Sim, o romance relata a história de um filho de um irmão de meu pai. Mas não se começa a contar uma história interessante desse jeito, é preciso mascarar, criar outros fatos, é assim que se faz ficção. Então, inventei um crime, um detetive, uma mala de dinheiro, um forasteiro, uma intriga sexual – do contrário, não haveria romance, não haveria Alvo noturno.”

Talvez a melhor forma de entendermos Piglia nem seja pelas entrevistas ou buscas por algum vislumbre de sua discreta biografia. É possível que o “sumo” da sua literatura esteja na nossa disposição em entender que ninguém repete tanto, e tão bem, os mesmos personagens por tanto tempo, sem querer revelar alguma coisa com isso. 

SCHNEIDER CARPEGGIANI,  jornalista do Jornal do Commercio, editor do suplemento Pernambuco e doutorando em Literatura. 

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