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Pulitzer: O homem que deu prestígio à imprensa

Magnata norte-americano, criador do renomado prêmio, travou uma histórica disputa pelas maiores tiragens de jornais com William Randolph Hearst, é reconhecido como o fundador do jornalismo moderno

TEXTO Marcelo Abreu

01 de Outubro de 2011

Joseph Pulitzer

Joseph Pulitzer

Imagem Reprodução

Durante a última década do século 19, a primeira visão que se tinha ao chegar de navio ao porto de Nova York não era a de um prédio do governo, do comércio ou do setor financeiro. Era um edifício imponente de 13 andares, na Rua Park Row, com uma cúpula reluzente onde estava sediado um jornal, o New York World, do magnata Joseph Pulitzer. A mais alta construção de escritórios do mundo era “um templo da nova mídia de massas da América” que abrigava o periódico de maior circulação no país. A descrição, presente na biografia Pulitzer: a life in politics, print and power (Uma vida na política, na imprensa e no poder) lançada em 2010 pelo jornalista norte-americano James McGraph Morris, inédita no Brasil, ilustra bem o poder desse empresário que revolucionou o jornalismo norte-americano e deu à imprensa diária a importância que ela ainda tem hoje.

Contestado em sua época e acusado de sensacionalismo, Pulitzer deixou dois legados importantes: o prêmio que leva seu nome, entregue anualmente a profissionais da imprensa e das artes, e o prestigiado curso de Jornalismo da Universidade de Columbia, fundado com parte de sua fortuna. Pulitzer morreu há exatos 100 anos, depois de viver uma vida que daria um filme de aventuras beirando o inverossímil, daqueles de tirar o fôlego. Por ironia do destino, a história de vida que deu um longa-metragem memorável foi a do seu maior rival, o também barão da imprensa William Randolph Hearst, que inspirou Orson Welles a fazer Cidadão Kane (1941).

Mas Pulitzer foi o verdadeiro protótipo do aventureiro self-made man, jornalista astuto e ambicioso que se tornou um grande empresário de imprensa. Politzer József (esse era seu nome de batismo, em húngaro) nasceu na pequena cidade de Makó, na Hungria, em 1847, filho de um comerciante judeu e mãe católica. Além do húngaro, que falava em casa, aprendeu alemão e francês na escola. Aos 17 anos, decidiu tentar a vida no exterior e saiu em busca de um emprego em algum exército que aceitasse os seus serviços. Acabou sendo recrutado como mercenário para lutar na guerra civil norte-americana. Chegou aos EUA sem dinheiro e sem falar inglês. Após alguns meses lutando na cavalaria da União, a guerra acabou e ele foi procurar abrigo entre os imigrantes alemães que moravam em Saint Louis, no Missouri, no Meio-Oeste.

Fez vários trabalhos para sobreviver, enquanto tentava estudar. Segundo Seymour Topping, que escreveu uma de suas biografias, Pulitzer, que então já tinha adaptado seu nome ao inglês, estava numa biblioteca lendo e observando dois homens jogando xadrez, quando resolveu dar um pitaco sobre uma jogada. Chamou a atenção dos jogadores, que eram editores de um jornal e acabaram lhe oferecendo um emprego de repórter no Westliche Post, publicação destinada à comunidade de língua alemã do Missouri. Aos 21 anos, portanto, Pulitzer tornou-se jornalista. Quatro anos depois, aos 25, aproveitou uma oportunidade e assumiu o controle do jornal.

A partir daí, sua vida deu saltos consecutivos. Aos 31, comprou os jornais St. Louis Dispatch e o Post e uniu as publicações para fundar o St. Louis Post-Dispatch, que existe ainda hoje e esteve sob o controle de seus descendentes até 2005. Aos 36 anos, tornou-se dono de um jornal, em Nova York, que projetaria seu nome nacionalmente. Aos 43 anos, abandonou a redação por problemas de saúde.

Já em Saint Louis, Pulitzer havia demonstrado um talento especial para fazer um jornalismo agressivo, defendendo causas consideradas progressistas. Chegou a publicar declarações de imposto de renda de famílias ricas, para mostrar como quem mais ganhava dinheiro muitas vezes sonegava impostos. Era o chamado sensacionalismo com consciência social.

UM REI EM NOVA YORK
Mas Saint Louis acabaria sendo apenas um ensaio. Foi em Nova York que ele tornou-se o grande nome do jornalismo americano, quando decidiu comprar um jornal em crise, o New York World. A circulação do jornal era de 15 mil exemplares. Dentro de pouco tempo, pulou para 600 mil exemplares, a maior tiragem do país.

É difícil alguém avaliar, hoje, toda a dimensão do impacto, até mesmo sensorial, do World no leitor médio do fim do século 19. Foi lá que a repórter Nellie Bly, pioneira entre as mulheres que escreviam sobre assuntos sérios, fez suas reportagens investigativas que a tornaram uma estrela do jornalismo. Até então, as jornalistas se limitavam a temas como jardinagem e a outros assuntos domésticos.

Pulitzer foi o primeiro a colocar seus repórteres na rua, em busca das notícias do mundo real, dos pobres e imigrantes, abordando problemas como corrupção no governo, violência policial, habitações precárias, assuntos que afetavam as massas de estrangeiros que chegavam a Nova York na época. Introduziu a cobertura de esportes e de negócios. Encarava o jornal como um produto que fosse útil para a vida prática, não somente para o debate de ideias. Nesse sentido, ele é tido como o criador do jornalismo moderno.

O FATOR HEARST
Um acontecimento que marcou profundamente a trajetória de Joseph Pulitzer foi a chegada de William Randolph Hearst a Nova York, em 1895. Hearst comprou o New York Journal, copiou a fórmula editorial do World e entrou numa briga ferrenha pela maior tiragem. Dezesseis anos mais jovem e filho de um senador rico da Califórnia, Hearst viria a ser um magnata com mais sorte e mais glamour, uma versão playboy do compenetrado Pulitzer. Os dois apelaram para o sensacionalismo, baixaram o preço de suas publicações para um centavo de dólar, criando o conceito da chamada penny press. E elevaram as tiragens a níveis inéditos.

Nos tempos em que disputava a preferência de leitores com os jornais de Hearst, o World de Pulitzer ficou conhecido por mais uma novidade à época, a publicação do Yellow Kid (o “garoto amarelo”, criado por Richard Outcault), personagem principal da revista de quadrinhos Hogan’s Alley. A cor do pijama usado pelo garoto acabou dando nome ao estilo sensacionalista, gerando a expressão yellow press – imprensa amarela, ou marrom, como se diz no Brasil. Dois anos depois, Hearst levaria o Yellow Kid para o seu jornal.A disputa entre os dois chegou ao auge durante a crise que resultou na Guerra Hispano-Americana em Cuba. Os dois jornais rivais praticamente obrigaram os Estados Unidos a entrarem em guerra contra a Espanha, numa campanha baseada em notícias exageradas e até mesmo falsas. Esse é o capítulo mais polêmico na trajetória de Pulitzer.

No final do século 19, Nova York tinha cerca de 15 diários (hoje tem apenas três). Com cerca de um milhão de exemplares nas duas edições diárias, nos anos de apogeu, a influência do World era proporcionalmente maior do que qualquer periódico norte-americano hoje.

O jornal tinha uma primeira página escandalosa, com manchetes chamativas, ilustrações e fotos. Sua preocupação era o cidadão comum. Paradoxalmente, sua página de editoriais era sofisticada. Especula-se que, se não fosse pela concorrência com Hearst, Pulitzer poderia ter seguido uma linha mais ao estilo do The New York Times, na época já um jornal de qualidade que tirava apenas 25 mil exemplares.

O jornalista John William Tebbel, um dos críticos de Pulitzer, escreveu, em 1974, no seu livro Os meios de comunicação nos Estados Unidos: “A mistura de sexo, escândalo e corrupção figura na primeira página do World. Na página editorial, estavam expressões bem-escritas do idealismo intelectual de Pulitzer. Em suma, uma página de frente para trabalhadores e uma página editorial para intelectuais. O resultado não satisfazia nem a uns nem a outros. Os trabalhadores não compreendiam os assuntos da página editorial e os intelectuais deploravam o sensacionalismo do World”.

Críticas à parte, as tiragens eram enormes e os anunciantes davam ao jornal um faturamento recorde. O World metia-se em tudo. Fez até campanha para arrecadar fundos para a construção do pedestal da Estátua da Liberdade. Disputava os maiores talentos da época como Mark Twain e Stephen Crane.

O jornal foi gerido pela família Pulitzer até 1931, quando, descumprindo a ordem expressa do pai, dois de seus filhos venderam a publicação à cadeia Scripps-Howard, que o fechou em seguida. Na época, tinha cerca de três mil funcionários. O prédio da Park Row foi demolido nos anos 1950.

Os problemas de saúde enfrentados por Pulitzer deram à sua trajetória uma dramaticidade inusitada para um homem do seu poder e influência. Em 1890, no auge da carreira, ficou praticamente cego e sua vida deu outra reviravolta. Teve de afastar-se do comando da redação e, ainda por cima, desenvolveu uma aversão a todo tipo de ruídos, o que o obrigava a usar suas mansões e seu iate para isolar-se. Há relatos de que sofria de surtos depressivos. Viajou inúmeras vezes à Europa em busca de tratamento, mas nem sua fortuna nem seu prestígio puderam lhe devolver a saúde. Durante os últimos 21 anos de vida, controlou seus jornais à distância, mantendo um relacionamento difícil com os diretores de redação que contratava.

WORLD DE VOLTA
Pulitzer foi um dos primeiros a defender uma formação universitária para os jornalistas e ofereceu dinheiro para criar a Faculdade de Jornalismo na Universidade de Columbia, em Nova York. O curso surgiu depois de sua morte, mas mesmo assim ele é considerado o fundador.

Ele deixou US$ 2 milhões em seu testamento para instituir um prêmio que estimulasse o jornalismo investigativo de qualidade e as artes, como a música e a literatura. O Prêmio Pulitzer tornou-se a mais importante premiação da área no mundo, uma espécie de Nobel do jornalismo. É escolhido por uma comissão criteriosa, composta dos melhores jornalistas do país. Especula-se que Pulitzer, aos instituir o prêmio, queria se redimir dos excessos do World na época da penny press.

A mística em torno de seu nome e do seu World é tanta, que, em 2011, a Faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia anunciou o relançamento do jornal, desta vez como um site que vai explorar o tipo de reportagem investigativa estabelecido por Pulitzer nos tempos em que o jornalismo impresso era dominante. 

MARCELO ABREU, Jornalista e professor da Universidade Católica de Pernambuco.

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