Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Hollywood não acredita em lágrimas

TEXTO André Balaio

01 de Outubro de 2011

André Balaio

André Balaio

Foto Divulgação

Eu quero chorar em um multiplex. Quero histórias plausíveis de seres humanos que tenham angústias, dúvidas, frustrações e crises iguais às minhas. Ou até um pouco maiores. Mas só encontro nas telas os casais abestalhados das comédias românticas, os vampiros sarados do terror adolescente (que em nada lembram o Drácula de Christopher Lee), os super-heróis das enésimas adaptações dos quadrinhos, os garotos ansiosos por perder a virgindade nas comédias teens (embora eu ache Superbad genial), além de ETs, agentes secretos, policiais, videntes e cantores. Não existe mais drama no cinema comercial. E, por drama, entenda-se o sentido vindo do teatro, da representação da vida comum. Porque homem comum só existe para Hollywood se fizer algo espetacular que o torne um herói. Não se encontram mais jovens sofridas como a que Lillian Gish interpretou no clássico mudo Lírio partido (Broken blossoms), do pioneiro D. W. Griffith. Nem dor igual à do jovem casal vivido por Ali McGraw e Ryan O’Neal em Love story – Uma história de amor, condenado ao triste fim pelas diferenças sociais e pelo câncer.

Ainda hoje, seguidas gerações vibram e choram com E o vento levou e Casablanca. O repertório hollywoodiano clássico é recheado de personagens com perfil psicológico bem-desenhado, problemas e dilemas morais. Os filmes de Howard Hawks, William Wyler, John Huston, Billy Wilder, Elia Kazan e mesmo os westerns de John Ford, as comédias humanistas de Frank Capra e os melodramas de Douglas Sirk sempre aprofundaram os seus personagens a ponto de torná-los próximos do espectador. Na Hollywood atual – como no poema de Fernando Pessoa –, todos têm sido campeões em tudo. O que se oferece e se consome é o puro escapismo, a fuga da realidade.

É difícil estabelecer quando essa tendência começou. Até arrisco dizer que está relacionada à nova ordem pós-11 de setembro. Mas uma coisa é certa: ela representa uma sociedade cada vez mais apegada a sensações superficiais e descartáveis. Claro que ainda existe humanidade nas telas, só que em obras de diretores que não seguem a cartilha dos grandes estúdios. É o caso de Lars Von Trier e Terrence Malick, que recentemente nos tocaram com seus respectivos Melancolia e A árvore da vida. Porém, o público que eles alcançam é pequeno e seleto, bem distante da alegre massa que se farta com osblockbusters em salas barulhentas e festivas. Porque chorar em multiplex, hoje em dia, só se for de raiva. 

ANDRÉ BALAIO, músico e fã de Billy Wilder e John Ford.

Publicidade

veja também

O universo plural de Vilém Flusser

Rússia, nome masculino; Recife, palavra feminina

Pulitzer: O homem que deu prestígio à imprensa