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Ser Tão: Veredas de uma companhia

Destaque da ascendente cena teatral paraibana, grupo adapta texto de Joaquim Cardozo em seu novo espetáculo, 'Flor de Macambira'

TEXTO ASTIER BASÍLIO
FOTOS DAYSE EUZÉBIO

01 de Agosto de 2011

O espetáculo 'Flor de Macambira' aponta para a maturidade dos atores do grupo

O espetáculo 'Flor de Macambira' aponta para a maturidade dos atores do grupo

Foto Dayse Euzébio

Foi-se o tempo em que a principal e, por que não dizer, única referência em âmbito nacional do teatro paraibano era o espetáculo Vau da sarapalha, montagem do grupo Piollin dos anos 1990, que se tornou um clássico da cena teatral brasileira. De uns anos para cá, é possível afirmar que há, sim, o surgimento de uma cena teatral no estado. Isso se deve a fatores como a criação do curso de bacharelado em Artes Cênicas na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com a primeira turma de 2007, que trouxe pesquisadores de outras regiões do país, além da criação de companhias que têm feito um trabalho de pesquisa contínuo, e do intercâmbio estabelecido entre grupos locais com outros do Nordeste, como é o caso do Ceará, de Pernambuco e do Rio Grande do Norte.

Um dos grupos que têm contribuído para o consolidação dessa cena é o Ser Tão Teatro. Surgida em 2007, a companhia ganhou oito editais importantes, entre os quais, o Myriam Muniz, da Funarte, o da Eletrobras, e o de circulação da Petrobras. No mês de junho, entrou em cartaz, na sede do grupo, em João Pessoa, a sua mais recente produção, o espetáculo de rua Flor de Macambira, adaptação do texto do escritor pernambucano Joaquim Cardozo. A montagem, antes da estreia oficial, percorreu 10 cidades, em sete estados. Uma das apresentações se deu no Rio de Janeiro, no Morro do Vidigal. Foi lá que a crítica de teatro Barbara Heliodora assistiu ao espetáculo que elogiou em sua coluna no jornal O Globo.

Para integrar a turma de fundadores do curso de Artes Cênicas da UFPB, a carioca Christina Streva se mudou para João Pessoa, em 2006. Nesse mesmo ano, em parceria com o paulista Márcio Marciano, que veio à cidade acompanhando a esposa Paula Coelho, também professora do curso, Christina ministrou uma oficina de teatro para iniciantes na cidade. Alguns dos jovens que participaram daquelas aulas foram convidados a integrar a companhia que ela estava criando, o Ser Tão Teatro, a exemplo de Isadora Feitosa e Gladson Galego; da oficina, Márcio Marciano também pescou um integrante para o Coletivo Alfenim que fundara meses antes, Daniel Porpino.

A primeira peça do Ser Tão foi Vereda da salvação, do dramaturgo Jorge Andrade, que já havia sido montada por Antunes Filho duas vezes, em 1964 e em 1993. Com patrocínio do edital Jovens Artistas, Ministério da Cultura, Christina produziu o seu primeiro espetáculo. Mas, ao contrário de Márcio, que mesclou atores com alguma bagagem para seu Alfenim, Streva apostou, essencialmente, em sangue novo e constituiu sua companhia com não atores e iniciantes. “Eu sabia que precisava começar dando uma base pra eles”, pontua.


A encenação do texto de Joaquim Cardozo rendeu elogios da crítica Barbara Heliodora

O entusiasmo e, por certo, o histrionismo de Christina Streva assustaram a atriz Isadora. Antes de ela fazer parte da oficina, a encenadora estava escalando o elenco para Vereda da salvação. De cara, chamou a menina para fazer um teste. “Eu não dei muito cartaz não. Achei meio esquisito uma carioca, aqui, estava achando isso muito estranho”, contou, aos risos, a atriz, que não só fez o teste, como passou e interpretou a personagem Tertuliana e a participou de todas as três montagens do Ser Tão.

NA RUA
O ambiente começou a fervilhar quando a Paraíba entrou no circuito de intercâmbios e passou a sediar os encontros do Lapada, um coletivo de grupos teatrais que congregou companhias expressivas do Nordeste, como grupo Bagaceira, do Ceará, e o Coletivo Angu, de Pernambuco. Além de assistirem aos seus espetáculos, as reuniões propiciaram trocas estéticas e interações que redundaram em parcerias circunstanciais, até uma montagem assinada por dois grupos, que foi o que aconteceu com Ser Tão Teatro e o grupo potiguar, Clowns de Shakespeare. Christina Streva e o seu colega Fernando Yamamoto dividiram, em 2009, a direção de A farsa da boa preguiça, texto de Ariano Suassuna, com aprovação do programa Eletrobras de Cultura. Foi o primeiro espetáculo de rua do grupo, modalidade que já vinha sendo praticada, improvisadamente, por conta de circunstâncias adversas. Eles tiveram de cair na estrada com Vereda em cidades que não possuíam teatro. Obtiveram verba de um edital de circulação do BNB, para se apresentarem pelo interior da Paraíba. “O Ser Tão foi construindo a sua identidade a partir de uma realidade bem nossa”, observa Streva.

Mais uma vez premiado, com o edital do Myriam Muniz, da Funarte, o Ser Tão Teatro levou aos palcos outro espetáculo de rua, Coronel Macambira. Após cumprirem as apresentações previstas, e ganhando novamente o edital da Eletrobras, o Ser Tão Teatro resolveu chamar a dramaturga e pesquisadora carioca Rosyane Trotta para, juntamente com o grupo, retrabalhar o texto que se tornou Flor de Macambira.

Há mais de um ano, Christina Streva voltou a residir no Rio de Janeiro. Aceitou o convite para ser coordenadora de cultura da Unirio. Espelhados em grupos como o Galpão de Minas Gerais, os atores dividem tarefas, planejam ações e se organizam como uma empresa. A distância não tem sido problemas para eles. “A gente se reúne virtualmente desde que eu me mudei”, conta Christina. “Temos reuniões de aproximadamente seis horas de trabalho, venho o máximo possível à Paraíba e eles têm ido ao Rio também. Os atores passaram, este ano, 35 dias no Rio, eu vim pra cá umas cinco, seis vezes”, recorda. “A gente tem construído uma dinâmica que tem funcionado muito bem, por incrível que pareça.”

MAIORIDADE
Se, no primeiro espetáculo, era visível a mão forte da encenação, agindo como uma professora sobre os seus alunos, Flor de Macambira é um marco da maturidade obtida pelos atores que cresceram junto com o grupo. “Sempre caminhamos para uma horizontalidade, para um teatro colaborativo e só agora conseguimos isso”, reconhece Christina.

Um dos atores que ratificam uma condição promissora é Thardelly Lima, que chegou a integrar o grupo Piollin, entrou como substituta em A gaivota (Alguns rascunhos), viu-se diante de um impasse e teve de tomar uma decisão. Não daria para aceitar o convite de interpretar o poeta Simão, em A farsa da boa preguiça, no Ser Tão, e continuar no processo do grupo que trabalhava em seu novo espetáculo, à época com os contos de Ronaldo Correia de Brito, e depois, com uma novela de Osman Lins. “No dia em que tive de tomar a decisão, passei a noite sem dormir”, diz o ator.

Christina Streva dirigiu Thardelly, a primeira vez, no espetáculo de conclusão de curso de uma turma de pós-graduação em Representação Teatral, de uma companhia chamada Os Fodidário, que reuniu atores do grupo Bigorna, Alfenim e Piollin. Eles montaram A farsa do poder, do dramaturgo potiguar Racine Santos, e Thardelly interpretou o personagem-pícaro Ferreirinha, que acabou, para prejuízo do ator, colando-se muito à interpretação do também poeta Simão, personagem de A farsa da boa preguiça. Em Flor de Macambira, Thardelly se divide em vários pequenos papéis e, para cada um deles, encontra um tom diferenciado de humor.

O próximo desafio do grupo, que vem numa sequência de montagens com clássicos da dramaturgia nordestina, é Gota d’água, tragédia musical escrita pelo paraibano Paulo Pontes e o carioca Chico Buarque, nada mais emblemático para um grupo que reinventou suas fronteiras. E o rio da aldeia, o Sanhauá, parece desaguar diretamente na baía da Guanabara. 

ASTIER BASÍLIO, poeta, jornalista e dramaturgo.
DAYSE EUZÉBIO, fotógrafa e jornalista pela UFPB, é coeditora da revista eletrônica Cult PB e repórter fotográfica.

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