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O retorno ao belo na obra de arte

TEXTO André Antônio

01 de Agosto de 2011

Alessandra Sanguinetti não maquila o ambiente real habitado pelas personagens Guille e Belinda

Alessandra Sanguinetti não maquila o ambiente real habitado pelas personagens Guille e Belinda

Foto Divulgação

Em uma série de fotografias intitulada As aventuras de Guille e Belinda e o enigmático significado de seus sonhos, a artista norte-americana Alessandra Sanguinetti retratou o cotidiano de duas primas, na região rural da Argentina, ao longo de cinco anos, desde quando eram crianças até se tornarem adolescentes. A obra fez parte da 29ª Bienal de São Paulo e pode ser vista até o dia 21 de agosto no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, no Recife, como parte dos trabalhos selecionados para a mostra itinerante da Bienal.

Nessas imagens, é possível identificar signos que talvez façam jus ao que normalmente se espera de uma exposição cujo mote curatorial são as relações entre arte e política: as paredes ao redor de Guille e Belinda estão descascadas e prejudicadas pela umidade; uma delas toma banho ao ar livre dentro de um objeto reaproveitado como banheira; há montes de ferro velho e enferrujado num quintal compartilhado por galinhas e cães vira-latas. No entanto, o interesse de Sanguinetti não é denunciar as condições econômicas em que vivem as duas primas. Sua proposta, na verdade, foi mostrar não as privações da miséria, mas, pelo contrário, as estampas brilhantes, muito coloridas e floridas das roupas das meninas; a densidade da luz que as cerca e a materialidade sensual da paleta de cores que essa luz carrega; as primas não sofrendo, mas brincando, arrumadas, esperando uma festa de casamento, abraçadas, no enterro do animal de estimação, fazendo um brinde, maquilando-se, usando joias ou tiara de princesa.

Sanguinetti também recompõe momentos canônicos da história da arte: ora carrega-se uma galinha e vê-se um típico “quadro de caça”, ora vive-se uma cena religiosa de natividade, ora boia-se numa água florida pré-rafaelita, ora fita-se o mundo melancolicamente pela janela como numa pintura do Romantismo, ora pousa-se num claro-escuro que lembra os interiores do cotidiano holandês. O dia a dia dessas primas, parece dizer Sanguinetti, tem tanto valor quanto esse panteão de cânones.

É preciso enxergar, através dessas operações formais nas fotografias de Sanguinetti, não uma espécie de estetização perversa da “vida do pobre”, mas todo um modo novo da arte se posicionar politicamente – sobretudo após o esgotamento da maneira modernista de conectar arte e emancipação. Contemporaneamente, a tendência da arte não é pensar o mundo criticamente, mas pensar criticamente a partir e através de mundos. Ela busca menos categorizar os sujeitos em situações e, ao invés de correr o risco de olhá-los condescendentemente, interessa-se pela autonomia com a qual esses sujeitos podem enxergar e sentir as coisas. Esses sujeitos sonham, desejam, engendram afetos, subjetividades e mundos singulares que, por vezes, criam dissonâncias e dissensos frente a formas hegemônicas de ordenar a vida. Esses sujeitos são portadores de atitudes propriamente estéticas, de formas litigiosas de beleza.Onde quer que Guille e Belinda morem, é a fantasia colorida de suas aventuras e sonhos, expostos por Sanguinetti, que parecem suspender um destino e um horizonte de possível. Há, assim, nos últimos anos, uma espécie de “retorno ao belo” nas obras de arte que buscam interfaces e dimensões políticas.

CINEMA
Pode-se sentir essa tendência tanto nas obras que fizeram parte da Bienal quanto, por exemplo, em vários filmes mais interessantes do cinema contemporâneo. Potiche: esposa troféu (2010), dirigido por François Ozon, passa-se no final da década de 1970. É sobre Suzanne (Catherine Deneuve), uma dona de casa rica, casada com o diretor de uma fábrica de guarda-chuvas e cujo cotidiano se resume a escrever poemas, a se preocupar com a vida afetiva dos filhos já adultos e a gerenciar o lar. Contudo, ao substituir o marido temporariamente doente na direção da fábrica por causa de uma crise que culmina em reivindicações e greves dos trabalhadores, Suzanne reconfigura e reordena as coisas ao seu redor. Percebe que não era feliz, que existem problemas mais amplos que os da própria casa, pede o divórcio e decide se candidatar às eleições. Mas essa reconfiguração não pressupõe uma mudança nos gostos, nas atitudes estéticas através das quais Suzanne se relaciona com o mundo. Ela, que redecora a fábrica, cria uma linha de guarda-chuvas com “cores modernas”, demora escolhendo o vestido apropriado para uma reunião, anuncia a seus eleitores: “Sempre organizei e cuidei da minha casa com carinho; por que não fazer o mesmo pela França?”

A proposta de Ozon é clara: trazer para uma dimensão pública o que antes estava escondido no privado. Ele não rejeita a visão de mundo de Suzanne como fútil ou alheia às discussões coletivas, mas mostra lá, no gosto pela delicadeza, pelo cor-de-rosa e pela atenção aos detalhes estéticos tanto da fábrica quanto da casa, uma política legítima e singular, que destoa e se confronta com uma ordem hegemônica na qual a vida pública é um lugar que deve excluir o cuidado e o carinho. “Quero ser para vocês uma mamãe”, continua Suzanne aos eleitores, “para mimá-los e acolhê-los embaixo de um imenso guarda-chuva.”

Potiche, assim, é – sobretudo através de sua direção de arte – um inventário nostálgico e afetivo de roupas, músicas e cabelos retrô, papéis de parede de cores pastéis, gêneros da cultura de massa dos anos 1970 que, antes, eram considerados retrógrados, “burgueses” e conservadores, mas que hoje revelam, através do filme de Ozon, um inusitado interesse político.

O retorno da categoria do belo às obras de arte contemporâneas não significa o retorno a um “padrão” de beleza, a regras ou hierarquias que constroem uma concepção única e restrita do belo. Trata-se, na verdade, do interesse pelas várias belezas, no plural, com que os sujeitos do mundo, seus gostos e imaginação, configuram ordens singulares. Mundos frágeis, contextuais, localizados. Mas que, por isso mesmo, podem gerar dissidências e subversões contra modos hegemônicos de organizar a vida – eles próprios, também, frágeis e arbitrários. Potiche, por exemplo, é inteiramente construído a partir de uma sensibilidadecamp: as atuações são propositalmente exageradas e as imagens surgem como grandes clichês visuais. Ozon não nega quão kitsch são os objetos dos anos 1970 pelos quais se interessa – o “belo” que ele quer explicitar não é o “correto”, mas um belo, que pode particularmente interessar a certas discussões políticas de hoje. Do mesmo modo, a beleza das fotografias de Sanguinetti não maquila o ambiente de Guille e Belinda, não esconde as paredes descascadas e manchadas – e isso é o que configura sua força.

Percebe-se, então, nos artistas contemporâneos, um interesse renovado pelos poderes do belo; um interesse sem ingenuidade, que não ignora as discussões pelas quais essa categoria passou ao longo da modernidade, mas que enxerga nela uma forma de criar distanciamentos críticos frente a maneiras hegemônicas de ordenar a materialidade do mundo e, portanto, uma potência política latente. 

ANDRÉ ANTÔNIO, mestrando em Comunicação pela UFPE, faz parte do Cineclube Dissenso e trabalha com cinema.

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