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Panegíricos

TEXTO José Cláudio

01 de Maio de 2011

Tumba de Cecília Metela, em Roma. Século I a.C.

Tumba de Cecília Metela, em Roma. Século I a.C.

Foto Reprodução

Posso ser acusado, digo aqui antes que passe pelo constrangimento de ouvir, de faturar a morte de meus amigos, usando-a, ou usando-os, para dar vazão ao meu irrefreável beletrismo, humilhando-os ao servir-me deles para praticar essa minha subliteraturazinha, aproveitando-me dos seus méritos, dos seus valores, para obter algum retorno. E de um jeito covarde, porque o outro não tem oportunidade de responder, pelo menos perguntar: “Quem lhe deu o direito de escrever sobre mim?” ou “Quem disse que estou precisando dos seus elogios?”

Não deixa de ser um tipo de oportunismo isso de escrever sobre a morte dos outros, uma forma de devassar a vida alheia, entrar sem aviso, sem ser convidado, sem pedir licença. Pergunto-me se não seria uma agressão, uma ofensa, invadir a privacidade do outro numa ocasião tão íntima, tão pessoal, como a morte. Dá vontade até de não morrer para não passar por essa vexação. Ofensa, dá para rebater; de elogio, ninguém escapa. Quando alguém elogia, dá vontade de perguntar: “De onde tivemos o prazer de nos conhecer?”

Para elogiar, é preciso ter alguma intimidade. Logo, o próprio elogio já carrega em si ou dá a entender um certo grau dessa intimidade que pode ser absolutamente apócrifa, que pode não ter cabimento nem de longe. E o sujeito ainda recebe elogios. Ora, para elogiar é preciso ter estatura. Até ser maior e mais rico, em todos os aspectos, gozar de maior credibilidade para poder emprestá-la ao elogiado, sendo público e notório que não precisa nem vai precisar deste nem do seu clã. Caso contrário, poder-se-ia pensar em adulação.

Os escritores de verdade não vivem se gastando em escrever panegíricos. Bem que Jesus disse: “Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos” (Lucas 9,60). Escritor de verdade tem mais o que fazer. Eu mesmo atribuo esses meus artigos, como quando escrevi sobre a morte de Wellington Virgolino, Ionaldo, Tereza Dourado, Ivan Carneiro, Gina, Margarida da Hora, Delano, mortes que realmente senti e continuo sentindo e de fato é como se tivesse morrido, estivesse entre os mortos de que fala Cristo, atribuo, dizia, a uma certa ingenuidade, vejo isso agora, embora possa haver quem se apresse em dizer: “Ele é é muito do esperto”.

Às vezes noto um silêncio que não é apenas indiferença ou ausência natural, que ninguém é obrigado a saber que penso que existo, mas mais do que isso, um silêncio contido, um silêncio crítico a respeito dessas minhas ousadias. O ato de escrever, aliás, já é em si um gesto de despudor: daí talvez o vezo ancestral de se destruírem tantas bibliotecas.

Ao mesmo tempo houve uma amiga que disse valer a pena morrer somente para merecer uma dessas minhas louvações. Há os que compram terreno em cemitério, escolhem e deixam pago o caixão e serviços funerários, as “pompas fúnebres” lembrando Jean Genet. Vamos pegar a deixa, o tom de brincadeira, da minha amiga. Poderíamos incluir no pacote, ao lado de frases para santinhos distribuídos na missa de sétimo dia e inscrições nas coroas de flores, dísticos em cártulas (conhecidas como faixas-falantes) pintadas à mão por calígrafos, também uma oração à beira do túmulo, estabelecendo de antemão os diversos níveis de comentários da vida da personagem, o tipo de tratamento, mais solene, grandiloquente, ou mais coloquial, à feição do extinto, espécie de preparação do corpo do falecido como vi dizer fazem nos Estados Unidos incluindo até maquiagem e enxertos. Um serviço a oferecer, senhores empresários. Poderiam contratar pessoas que escrevessem bem, colunistas de jornal para ganharem algum por fora, textos tabelados sobre a “inestimável perda”, sem tais lugares-comuns, é claro, empregando muita gente: pesquisadores de biografia, linhagistas, declamadores, podendo haver um incremento à arquitetura funerária, a retomada dos belos mausoléus que já deram emprego a tantos escultores, ramo da estatuária hoje completamente esquecido, glória de tantos cemitérios, como o de Gênova, na Itália, até opção turística, ou a tumba de Cecília Metela na Via Ápia Antiga, em Roma, diante da qual me quedei tantas vezes tomado pela emoção, sem falar das pirâmides do Egito, mas aí já passamos para o delírio.

Voltemos à realidade. Quanto à encenação à beira do túmulo, poderiam ser contratados artistas de renome local ou nacional, das televisões daqui ou do Rio e São Paulo, o cachê dependendo do ibope. Com garantia de ineditismo dos textos, em prosa ou verso, citações em outras línguas, especialmente o latim, como língua morta, mais adequada a uma cerimônia mortuária. Tais encômios poderiam até ser conferidos pelo futuro destinatário.

Infelizmente a maioria dos pintores estariam fora da programação, dado o alto custo da empresa. A não ser amparado por alguma lei de incentivo à cultura. O inconveniente é a demora. Mas morto tem todo o tempo do mundo.

Abelardo, Samico, Guita, prometo não importuná-los com meus louvores. Tratem de não morrer. 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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