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Fabiano Gonpe

Antropologia do sujeito

TEXTO Mariana Oliveira

01 de Maio de 2011

Sujeitos sem rostos com atitudes autoritárias sugerem provocação às instâncias do poder

Sujeitos sem rostos com atitudes autoritárias sugerem provocação às instâncias do poder

Imagem Flávia Lamenha/Divulgação

Durante muito tempo, o desenho foi visto como esboço, verdadeiro estudo para a execução de grandes obras. Sempre foi tido como algo que antecedia o trabalho final. No século 20, apesar de seguir como croqui para o desenvolvimento de esculturas, pinturas e instalações, ele se emancipou, encontrou um fim em si mesmo. É com essa autonomia que Fabiano Gonper vê o desenho – uma das bases de sua obra. Ao iniciar sua trajetória artística, na década de 1990, o paraibano, que atualmente divide ateliê entre João Pessoa e São Paulo, dedicou-se à escultura, o que, segundo ele, teria garantido uma visão mais complexa e construtiva da arte de desenhar.


Imagem da série O manipulador foi colocada em um prédio, na Avenida São João, durante a Street Bienal, no ano passado, em São Paulo. Foto: Ricardo Alves/Divulgação

Os indivíduos e suas relações com o entorno, com a coletividade e com as instâncias do poder, da arte e da sociedade sempre habitaram as suas obras. Daí o fato de ele considerar seu trabalho como “um tipo de antropologia do sujeito e do entorno”. Para explorar essas questões, Gonper aposta em narrativas e códigos específicos que, em alguns momentos, pedem uma simples contemplação dos espectadores ou sua ativa participação.


Em Cuidado animais em você, o artista faz de um espelho a base
da obra. Foto: Fabiano Gonper/Divulgação

Na série O manipulador (2008), por exemplo, o público contempla, seja na rua (como aconteceu durante a Street Bienal, em 2010em São Paulo), seja em alguma instituição, traços que criam sujeitos sem rostos com atitudes autoritárias, numa provocação aos altos escalões do poder. O primeiro desenho da série tratava da manipulação entre os sujeitos. Num segundo momento, Gonper começou a trabalhar com imagens de referência política, como homens engravatados, retirados de revistas e jornais. Em Pinturas variáveis, o público tem um papel mais ativo. As pinturas são feitas em espelhos foscos que refletem o ambiente e passam a variar de acordo com o posicionamento do espectador em relação à obra.


Ao longo de sua trajetória artística, Gonper abandonou o modelo clássico
de escultura e passou a trabalhar com outros suportes. 
Foto: Fabiano Gonper/Divulgação

Nesse constante flerte com as relações de poder, o artista também critica o campo da arte, do qual é sujeito atuante. Ao criar a obra Gonper Museum (2002), insere um novo espaço expositivo dentro da própria instituição. Só que nesse “espaço/obra” é ele quem possui o poder sobre o que será e o que não será exibido. Inicialmente, o Gonper Museum abrigou apenas seus trabalhos, mas em outras mostras passou a receber também obras de artistas e instituições diversas, como em 2005, no Panorama da Arte Brasileira, quando o recebeu o acervo do MAM-SP.


Feitas em espelhos foscos, as pinturas variam de acordo com o posicionamento do espectador em relação à obra. Foto: Ricardo Alves/Divulgação

A sua produção escultórica começou com influências clássicas, era o que ele tinha como referência principal. Com o tempo, contextualizando sua pesquisa, passou a desconstruir esses ideais, chegando às suas Esculturas planas em mármore branco.


Com a obra Gonper Museum, ele cria outro espaço expositivo, que recebe trabalhos seus e também de outros artistas. Foto: Rodrigo Braga/Divulgação

Em seus trabalhos, Gonper redefine e reafirma a potência do desenho e da escultura. “Um desenho minúsculo pode ser mais arrebatador que uma grande pintura, assim como uma pequena escultura pode gerar questões mais pertinentes e fortes que um desenho em grande escala, em um campo ampliado. Não importa o meio, mas, sim, o que propõe o trabalho”, pontua. 

MARIANA OLIVEIRA, repórter especial da revista Continente.

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