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A estreita relação entre escrita e encenação

Livro de Raymond Williams, 'Drama em cena', discute as convenções que giram em torno dos textos teatrais e de suas possíveis montagens ao longo da história

TEXTO Raquel Monteath

01 de Março de 2011

Imagem Karina Freitas sobre reprodução de fotos

Quando o assunto é artes cênicas, citar as peculiaridades de Brecht pode hoje parecer um lugar-comum. Mas, quando o escritor Raymond Williams o fez em Drama em cena, livro originalmente publicado no início dos anos 1950 e agora lançado no Brasil pela Cosac Naify, não estava sendo arbitrário.

Ao analisar dramas experimentais modernos como os de Eliot, Beckett e Brecht, o autor referiu-se, por exemplo, ao método incomum desse dramaturgo fazer anotações práticas em seus textos, destacando a forma como ele “orientava” os encenadores a desconstruir tanto seus personagens quanto a redoma que envolve a ilusão teatral.

“A ação aberta e versátil é, de muitas maneiras, um retorno aos métodos teatrais de um drama mais antigo, especialmente o drama elisabetano”, escreve Williams, a respeito da montagem de 1943 da brechtiana Vida de Galileu, ao que prossegue: “Ao mesmo tempo, há uma ênfase em um tipo de atuação e de presença histórica que pertence ao teatro moderno, o que também é modificado pelo elemento mais característico de Brecht: a apresentação crítica – no lugar da ilusão teatral”.

O exemplo de Brecht, que expôs ao público a maquinaria cênica de seus espetáculos, ilustra um ponto crucial proposto por Williams ao longo do livro: historicamente, qual a relação entre texto dramático e suas representações? Movido por esses dois elementos (texto e encenação) que simbolizam o ciclo de um drama, as análises do autor estão voltadas para as relações de tensão geradas entre a literatura e a ação dramática: são, antes, focadas no hiato criativo que se forma entre os espaços cênicos, a fala dos personagens, o movimento em cena e o som, enquanto elementos instáveis que constituem a encenação.

As peças analisadas por Williams são Antígona, de Sófocles; algumas representações do teatro medieval inglês; a peça Antônio e Cleópatra, de Shakespeare; algumas obras da fase de transição do drama inglês medieval (William Wycherley, George Lillo e Tom Robertson); a primeira encenação da peça A gaivota, de Tchekhov, feita por Stanislavski (representando o apogeu do naturalismo); o citado drama experimental moderno de T.S.Eliot, Brecht e Beckett, e o curioso longa-metragem Morangos silvestres, do cineasta Ingmar Bergman, que contempla a única análise fílmica do livro.

A edição conta com reproduções de desenhos de plantas teatrais e com um caderno de imagens que ajudam o leitor a compreender o contexto social e físico no qual essas manifestações ocorreram. Para nortear essa e futuras leituras, há um rico acervo bibliográfico – tanto aquele usado por Williams, capítulo a capítulo, quanto títulos sobre teatro escritos pelo autor – e um índice remissivo.

De maneira bastante didática, como se fosse apontamentos para aulas (“Nessa obra encontramos”, “Podemos examinar três exemplos”, “Vamos aqui nos referir à”, “Examinaremos agora alguns exemplos”, “Analisaremos a peça tal como apresentada” são frases que abrem alguns dos capítulos), o livro reúne análises de obras de diferentes períodos, ilustrando o que seria convencional, cenicamente, e o que se torna também convencional, na medida em que os espetáculos vão sendo encenados. Um olhar bastante ousado para a época em que a obra foi escrita e publicada, visto que as análises teatrais eram basicamente fixadas no texto cênico, o que aponta uma orientação marxista da análise, por observar a realidade a partir do materialismo histórico. 

RAQUEL MONTEATH, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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