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Sketchbook: Pequeno diário do pensamento artístico

Cada vez mais popular, o caderno de rascunho torna-se fetiche entre artistas e público como importante objeto de estudo do processo criativo

TEXTO Diogo Guedes

01 de Fevereiro de 2011

Quadrinista Lourenço Mutarelli, presente na coletânea 'Sketchbooks', diz que seus cadernos são “geradores de ideias livres”

Quadrinista Lourenço Mutarelli, presente na coletânea 'Sketchbooks', diz que seus cadernos são “geradores de ideias livres”

Imagem Reprodução

Uma vez, levei um caderno para a praia, em Copacabana; era uma terça-feira. Estava tentando desenhar com grafite; nada muito bom. Então pensei: ‘E se eu entrar na água com o caderno?’, e dei um mergulho agarrado ao sketch, sem piedade.” O depoimento de desapego do designer Yomar Augusto, no livro Sketchbooks – As páginas desconhecidas do processo criativo, organizado por Cezar de Almeida e Roger Basseto, é uma amostra da relação íntima – mesmo na semidestruição de um objeto, mergulhado na água – que um artista pode ter com sua produção e com seu processo de criação. A coletânea de cadernos de autores, lançada no final de 2010, reflete um fenômeno atual nas artes visuais: a valorização, tanto por parte dos autores como por parte do público, dos livros de rascunhos, também chamados de sketchbooks.

Para quem desenha, eles, além de práticos, são úteis para fins documentais e criativos. Já o público, afastado de galerias e exposições, passou a se interessar pelo lado antes escondido da criação, visto parcialmente em blogs pessoais de autores e em sites sobre o tema, como o Urban Sketchers. O interesse é tamanho, que os produtos da marca Moleskine, conhecida pelo acabamento cuidadoso, tornaram-se fetiches mesmo para quem não desenha.


Bruno Kurru entende os skecthbooks como parte de um processo criativo que nunca se conclui. Imagem: Reprodução

Um dos que expõem abertamente seus volumes, recheados de anotações pessoais e observações, é o quadrinista do jornal O Globo, Bruno Drummond. Autor de tiras, ele mantém o blog Anotando gente, que traz páginas do seu diário de referência com desenhos de observação em caneta nanquim e aquarela. “Os cadernos surgiram em paralelo à criação da coluna Gente fina. Eu fazia anotações de tipos para usar nos cartuns que não tinham personagens fixos. Primeiro, em folhas soltas, depois, em cadernos”, conta.

Segundo Drummond, só quando os desenhos passaram a ter uma unidade é que pensou em mostrá-los na internet. Para a produção dos seus livros, não usa os termos rascunhos ou esboços. “São anotações. Simples anotações que tomaram de tal forma meu tempo, que me permito divagar sobre elas. O fato de manchá-las de aquarela, queimá-las com as cinzas do meu cigarro e derramar o meu café sobre elas nada mais é do que uma tentativa de torná-las mais próximas de mim”, define.

Nome também ligado ao universo dos quadrinhos, João Lin não chega a expor seus esboços, mas atribui a eles um papel fundamental no processo de criação. “O caderno é a minha oportunidade de desenhar”, diz, explicando que, dentro do seu ateliê, se dedica quase exclusivamente a ilustrações para revistas semanais e livros infantis. Assim, só em saídas e em reuniões é que ele arranja tempo para rabiscar. “Levo meu caderno comigo, mas desenho coisas que não estão nos locais aos quais vou. Não falo do que está lá, mas, de certa forma, altero o resultado do que faço em cada lugar. Não faço observação direta, mas os lugares me influenciam”, reflete o quadrinista. Definindo-se como um criador disperso, Lin fala da criação a partir de uma metáfora que atribui ao cartunista Fábio Zimbres: criar é como ser um ímã, atraindo influências de outros trabalhos e artistas para o seu próprio objeto.


O calígrafo Cláudio Gil já chegou a ficar oito horas trabalhando em cima do mesmo caderno

Segundo o quadrinista, os cadernos são o local onde ele se sente mais à vontade com seu desenho. “Eles têm importância para mim porque significaram o meu retorno ao desenho autoral. Eu estava fazendo muitas ilustrações para revistas semanais, trabalhos mais comerciais. O meu desenho tinha começado a ficar convencional, com uma anatomia até mais realista”, lembra.

RELAÇÃO CONTEMPORÂNEA
O interesse crescente do público por esses objetos tem uma estreita ligação com a ideia de rascunhos como desenhos de observação. Até por isso, uma seleção como a que foi feita em Sketchbooks – As páginas desconhecidas do processo criativo acaba sendo composta majoritariamente por artistas que se destacam em campos de atuação mais pop, como designers, quadrinistas, grafiteiros e ilustradores – ainda que existam, no livro, nomes que se definem como artistas plásticos – e valorizam as técnicas de desenho.


O quadrinista Bruno Drummond faz desenhos de observação em caneta nanquim e pinta com aquarela, posteriormente. Imagem: Reprodução

No entanto, se desenhar parece uma atividade menos valorizada dentro do caráter multimídia e da pluralidade de formatos da arte contemporânea, não se pode dizer que os rascunhos e esboços perderam o sentido dentro dela. O artista plástico Gil Vicente diz ter o costume de fazer esboços e desenhos ocasionais, mas eles não chegam a ser hábitos. “Não é para todo trabalho que eu faço estudos. Em alguns, quando eu quero que a imagem fique mais próxima do real – e nem é tão próxima assim –, eu uso um modelo”, aponta.

“Rascunhos servem para livrar as ideias ruins, livrar aquilo que não parece possível de ser resolvido durante a execução. É para livrar, pelo menos, aquelas ideias ruins que a gente consegue identificar”, diz o artista. Apesar de guardar com cuidado os esboços e até presentear amigos com eles, Gil Vicente não é um adepto dos cadernos. Seus desenhos são feitos em folhas soltas, organizadas posteriormente em gavetas, no seu ateliê em Boa Viagem.

O artista plástico Marcelo Silveira, que trabalha com diversos formatos, como colagens, livros de artista, escultura e móveis, faz mais uso dos cadernos, ainda que com especificidades. Primeiramente, ele ressalta que suas criações não vêm sempre do papel: “Elas podem vir de várias formas. Podem vir de seis molduras douradas, por exemplo”, afirma, ao apontar os objetos, comprados em um brechó, ainda sem destinação definida.


Apesar de não ser apegado às suas anotações, Marcelo Silveira ressalta
a importância delas para a criação artística. Imagem: Reprodução

“A minha relação com o desenho é o rabisco, o esboço. Faço a repetição de uma linha até chegar a uma certa exaustão”, define o artista. Dentro dos cadernos, ele mescla rascunhos, colagens e esboços de projetos com anotações e memórias “afetivas ou financeiras”. Silveira admite ter pouco apego às anotações, mas reconhece nelas importância para a realização de trabalhos ligados ao desenho e ao papel. “Neles, você registra certos momentos, cola, desenha, e ele passa a ser um livro de anotações e a ajudar a memória. Ainda assim, é apenas secundário como forma de alimentação artística e de renovação”, observa.

RASCUNHO COMO CRIAÇÃO
Para o professor e pintor escocês radicado no Brasil, Charles Watson, referência na área de processo criativo, o desenho se valorizou nos últimos anos. “Sempre houve interesse. É possível, sim, que nos últimos cinco anos tenham sido feitas mais publicações internacionais sobre desenho do que nos últimos 20 anos anteriores”, afirma. João Lin concorda: “Digo isso por amigos desenhistas que tenho, que há cinco ou seis anos não falavam disso e, atualmente, quase todos têm cadernos de desenho”.


Nos seus cadernos, João Lin retorna ao desenhos mais autorais, distanciando-se dos trabalhos comerciais. Imagem: Reprodução

Watson defende que os cadernos de rascunhos são espécies de “pedágios do pensamento”. “O pedágio é um lugar onde você para e ‘cobra’ uma ideia passageira, modificando, assim, sua relação com ela. O ato de traçar o pensamento é o ato de transformar nossa relação com ele, fazendo com que ele seja menos efêmero. É uma maneira de marcá-lo”, explica. Assim, rascunhar ou anotar algo serve “para mudar o relacionamento que nós temos com aquela ideia, para dar uma palpabilidade a ela”.

Outra imagem utilizada pelo educador é a do rascunho como um oráculo: “Em várias culturas, existe a ideia de um oráculo, como o Oráculo de Delfos, dos gregos. Os romanos, os gregos, para saberem o que ia acontecer no futuro, pegavam uma galinha e abriam suas entranhas. Com base naquilo, diziam: ‘Não é uma boa época para uma guerra’. Não eram as entranhas que diziam isso, mas, sim, o processo de externalização de alguma coisa. O desenho em cadernos é uma espécie de oráculo. Ele permite que sejamos testemunhas de uma ideia”, define.


Os esboços de Gil Vicente são essenciais para o resultado final
de séries como a
Inimigos, exposta na Bienal de Artes de São
Paulo de 2010. Imagem: Reprodução

O escocês diz que é comum que o público só tenha interesse pelas obras finalizadas. “Para o artista, muitas vezes, o produto termina sendo até desinteressante. O bom criador está inevitavelmente mais interessado no processo. O produto para ele é uma mera consequência de um processo vicenciado. O criador, uma vez que termina seu trabalho, já quer um novo problema”, defende.

Lin afirma que o pensamento dos cartunistas ainda é muito moderno, relegando o processo a segundo plano. “A gente fica na limitação de que a obra de arte é o que está acabado. E quem disse que é assim? O pensamento contemporâneo já entende isso de uma ‘obra finalizada’ como algo anacrônico”, expõe o quadrinista.

Para Watson, no entanto, o público ainda tem uma visão simplista, quando diante da possibilidade de ver partes do processo artístico de criação, como os sketchbooks. “Ainda existem ideias equivocadas de que a arte está associada ao talento, de que ela é algo que vem de cima. As pessoas têm essa imagem ideal do artista, e, quando acessam o processo, ficam fascinadas”, comenta. Sua experiência como pesquisador aponta que os autores têm uma visão contrária. “O que diferencia um artista de um amador é a paixão pelo que faz. Eles são mais apaixonados, por isso trabalham mais no que fazem. Entrevistei vários artistas em projetos de pesquisa. Eles ficam até insultados, se você fala com eles sobre talento; ficam ofendidos. Dizem: ‘Talento? Eu ralei muito para chegar até aqui!’”, finaliza. 

DIOGO GUEDES, repórter da Continente Online.

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