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Como era bom

TEXTO José Cláudio

01 de Fevereiro de 2011

'Virgem com o Menino e anjos', de Jean Fouquet. Óleo sobre madeira, 91x81cm, 1450. Museu de Belas Artes de Antuérpia

'Virgem com o Menino e anjos', de Jean Fouquet. Óleo sobre madeira, 91x81cm, 1450. Museu de Belas Artes de Antuérpia

Imagem Reprodução

Ai como era bom quando, mesmo morando na Europa, em Roma, eu não sabia nome de nenhum time europeu! Na mensa, refeitório para estudantes e outros de baixa renda, falavam de um “Zulinho”, Julinho, brasileiro, respeitadíssimo, jogador de time italiano. Acho que o único. 1957. E, morando em São Salvador, como prefiro e está no samba de Geraldo Pereira cantado por Ciro Monteiro Falsa baiana, não tinha a menor ideia do nome do governador da Bahia nem de Pernambuco nem do presidente do Brasil. Não sabia do dia da semana nem do mês nem do ano: 1953? Por isso tenho dificuldade de fixar com precisão quanto tempo andei por lá, muito mal os lugares onde residi, alguns desaparecidos como Avenida Garibaldi e Buraco Doce, ambos no Rio Vermelho, e a lagoa do Pau Miúdo, aterrada com lixo, onde eu pescava traíra com Dna. Carmó, preta retinta, ou negra retinta, não sei como é politicamente correto, bela e risonha, muito nova, belos dentes alvíssimos que vivia limpando com uma pele de fumo, o guarda-comida sempre absolutamente vazio, na casa não tinha nem prato, grandes risadas, feliz e fiel ao seu marido José, pedreiro, igualmente risonho e negro como ela, da mesma idade, tocava cavaquinho, tinham uma filha neném, e nunca me lembro de Dna. Carmó sem a filha no braço como se fizesse parte dela fisicamente, uma irmã siamesa colada no braço, a não ser de noite, a criança dormindo em casa com o pai, eu e Dna. Carmó na beira da lagoa onde as traíras dormiam entre os capins, eu com a pilha e ela com o facão, ela gritava: “Aqui, Seu Zé”, eu alumiava, ela metia o facão na cabeça da traíra. Depois tratava e estendia num varal para secar no sol, muitas vezes nossa única fonte de proteínas. Só saí de lá quando deu uma cheia que levou as paredes da casa, descrevo isso no livrinho Viagem de um jovem pintor à Bahia, 1965.

Como era bom quando eu não lia jornal, revista, nada, nem livros, por cuja leitura sempre tive paixão, pura vaidade! Como era bom meu retorno paulatino ao analfabetismo! De que nunca consegui sair, dirão as más línguas, e de que me gabo. Ai como era bom, muito antes de tudo, quando o Recife era uma ameaça distante, para onde se ia quando não tinha mais jeito! Naquela época, 30, 40, perdia-se o dia para chegar ao Recife, às vezes voltando do caminho, hoje Ipojuca tão perto. Era como ir a outro planeta. Mas mesmo assim quando meu pai perguntou: “Seu Zezé, quer ir estudar no Recife?” respondi “Quero” em cima da bucha. Eu tinha 10 anos. 1942. Seis anos interno no Marista.

Ai como era bom quando eu não sabia nada e sabia tudo! Quando eu pensava que um dia me assenhoriaria de todas as palavras de todas as línguas, teria lido todos os livros: continuo imaginando a eternidade suportável apenas se se pudesse dispor de todos os livros em todas as línguas, podendo entendê-los.

Não sei se era bom ou se era ruim mas acreditando o suficiente para querer comprovar, como quando, eu e outros meninos, Henrique de Seu Otávio na certa, sempre meu parceiro em tudo, conseguimos arrancar cabelos de rabo de cavalo e botar numa bacia com água para ver se viravam muçus ou botar cinza de cavalo-do-cão do rabo vermelho em cima da urina ainda quente de uma menina, assim, claro, que ela tivesse acabado de urinar: ela seria da gente, conquista-la-íamos. Eu e Henrique nos escondíamos dentro das canas, num brejo no fim da Rua d’Água, onde as mães iam lavar roupa e levavam as filhas, mas nunca obtivemos êxito na empreitada, assim como fracassamos na caça ao cavalo-do-cão do rabo vermelho: ainda hoje, aos 78 anos, quando me deparo com um cavalo-do-cão, chamado pelos meninos daqui de Olinda de zig-zig, verifico automaticamente se do rabo vermelho e, se ao alcance da mão, como ocorreu há alguns dias, tenho ímpetos de a ele me atirar mas aí me lembro de que não sou mais menino, de que a vida já passou, e o encanto se desfaz, restando a lembrança de Henrique, falecido há poucos anos em Ibotirama, BA. Desse riacho da Rua d’Água uma senhora aparentada à família de Henrique, Áurea, tirava massapê para fazer bonequinhos de barro, quem sabe uma das fontes de minha queda pela arte, o que me alegra pela origem popular que tanto prezo.

Coisa boa nunca mais ter querido ser outra coisa senão pintor. Oxóssi pelo mato adentro. Não ter esmorecido. Pular da cama cedo. Viver e morrer disso. Ser forte, o que sinceramente não fazia parte dos meus planos, “eu que sou fraco”, como diz o vate.

Como foi bom a travessia no Conte Grande, 15 dias de mar, a viagem de Colombo às avessas, olhando a quilha do navio cortar a água desse meu mar ignoto, os peixes-voadores como se gerados das espumas. Como era bom pegar o ônibus toda manhã, seguir pela Via Nomentana, Porta Pia, ver o Tritão bebendo água num búzio na Praça Barberini, descer na Praça Colonna, seguir a pé pelo Corso, encontrar rapazes e moças risonhos, estimulados pelo frio, no Ferro di Cavallo, uma pracinha em forma de ferradura onde ficava a Academia de Belas-Artes, desenhar modelo vivo, ouvir professores dedicados falar de Ovídio e de Lorenzo Lotto. 1957.

Como era bom andar de barco pelos canais de Bruges, ver os retratos pintados por Memling com a tinta bem fininha, vendo-se às vezes os riscos de lápis, sem aparatos, deixando-nos sós com os quadros, e assim em todo lugar, a Mona Lisa no Louvre, a Virgem de Fouquet, que Murilo Mendes me intimou a ir lá a Antuérpia ver, porque considerava o mais belo quadro já pintado no mundo. Como era bom eu não saber nada do que estava se passando no mundo. Um domingo, em Louvain, parece que em português é Lovaina, um mexicano, que eu via pela primeira vez, me deu um grande abraço, eu sem saber por que. “Mostramos a esses europeus o quanto valem nossos índios!” Ante minha surpresa: “O Brasil ganhou a Copa do Mundo!” O jogo tinha acabado naquele minuto na Suécia. Ele era estudante e na ocasião dava uma mãozinha na portaria da casa de estudante de Madame Morrin. Ai, Madame Morrin, como eu gostaria que a senhora estivesse viva para receber meus votos de Feliz 2011! 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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