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Amy é um gênio

TEXTO Luís Henrique Pellanda

01 de Fevereiro de 2011

Luís Henrique Pellanda

Luís Henrique Pellanda

Foto Matheus Dias/Divulgação

A professora Mary Ashley, especialista em assuntos do leste europeu, é convidada pelo presidente dos Estados Unidos a assumir a embaixada americana na Romênia. Mas seu marido, o doutor Edward, desaprova a ideia. Não quer abandonar seu consultório no Kansas. Mary se submete e recusa o cargo. Pouco depois, o médico morre num acidente automobilístico e a viúva, abalada, decide voltar atrás. Atende à convocação presidencial e dá início a uma eletrizante carreira diplomática.

Eis o enredo do livro Um capricho dos deuses, lançado por Sidney Sheldon, em 1987; e era esse o best-seller que Amy Winehouse lia à beira da piscina do Hotel Santa Teresa, no Rio, na tarde do dia 8 de janeiro. Notícia quentíssima. Juntos, Winehouse e Sheldon ganharam até manchete na Folha.com. Chamada de capa no UOL.

Coincidentemente, naquela mesma semana, tomado por uma espécie de “siricotico” arqueológico casual, eu havia me dedicado a vasculhar, sem objetivo definido, uma porção de gavetas e baús da velha casa de meus pais, onde passei a infância, nos anos 1970. E dali desenterrei uma preciosidade: os cinco volumes do Dicionário do lar, organizado por uma tal de Cláudia Santos, e que, em 1969, já estava em sua 20ª edição.

A obra fornecia às suas leitoras noções básicas a respeito de qualquer coisa; ensinava-as a saborear bananas com o auxílio de um garfo e uma faca, a polir pedras preciosas e escolher nomes apropriados à sua prole. Nada disso, claro, nos interessa hoje, é coisa morta e sepultada. O que nos interessa é discutir literatura, um tema cada vez mais atual.

Portanto, aí está um trecho do capítulo que a autora reservou aos livros em seu Dicionário do lar: “A mulher deve lutar contra o enjoamento, que relaxa e destrói o caráter, contra a obsessão da coqueteria e o complexo de inferioridade. Para isto, deve ocupar sua vida de coisas úteis”. Em seguida, após aconselhar o mulherio a fugir de novelas em quadrinhos e romances baratos, Cláudia passa a enumerar dicas de outra natureza. Em encadernações de couro, diz, deve-se esfregar óleo de alfazema. Mas, para desinfetar livros usados — um perigo! —, a solução é apelar à seguinte fórmula: cianureto de mercúrio 3.0, creosoto 120.0, óleo de cravo 2.0, essência de alfazema 10.0 e álcool a 90 graus 1000.0. E, assim ilustrados, chegamos à pergunta final: o que não deve faltar em nossa biblioteca? Ora, essência de sândalo e um pedaço de cânfora. Xô, insetos!

E pensar que, naquela mesma década de 1960, Sidney Sheldon libertaria as mulheres de seus afazeres domésticos. Quem poderia supor que, nos anos 1980, elas já estariam trabalhando fora, e até seriam sensuais embaixadoras em Sófia? Amy Winehouse está mais do que certa em pagar tributo a ele, o imortal criador de Jeannie é um gênio. Aliás, Amy e Jeannie não têm um penteado parecido? 

LUÍS HENRIQUE PELLANDA, escritor, jornalista, músico e autor do livro de contos O macaco ornamental

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