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Afrodisíacos: “Eu quero um ovo de codorna pra comer...”

Mesmo sem comprovação científica, alguns alimentos mantêm a fama de provocar a libido, povoando o imaginário de diversas culturas

TEXTO RENATA DO AMARAL
FOTOS EDUARDO QUEIROGA

01 de Fevereiro de 2011

O restaurante Chez Georges prepara pratos com a cor da paixão, a vermelha, como o royalle de cordeiro ao molho de chocolate, com galette de batata e coulis de pimenta

O restaurante Chez Georges prepara pratos com a cor da paixão, a vermelha, como o royalle de cordeiro ao molho de chocolate, com galette de batata e coulis de pimenta

Foto Eduardo Queiroga

Filha caçula, Tita não pode nem pensar em casamento: sua obrigação é cuidar da mãe até a morte. Quando ela e Pedro se apaixonam, ele decide se casar com a irmã de Tita, Rosaura, apenas para ter sua musa por perto. Proibida de ficar a sós com ele, Tita – tão sensível, que chorava até dentro da barriga da mãe, quando alguém picava cebola por perto – usa a comida para entrar em contato com o amado.

Depois de receber um buquê de rosas de Pedro, ela resolve usar as pétalas para preparar um prato de codornizes com purê de castanhas. “É um prazer dos deuses!”, diz o rapaz à mesa. Impedido de se manifestar no casal, o poder afrodisíaco se transpõe para a outra irmã, Gertrudis. O calor do prato faz com ela saia da mesa direto para o chuveiro, de onde é raptada nua, con mucho gusto, por um estranho montado a cavalo.

Quem leu ou viu a sequência não esquece. É parte do romance Como água para chocolate, de 1989, da mexicana Laura Esquivel, adaptado para o cinema por Alfonso Arau em 1992. Na vida real, porém, os amantes podem contar com alimentos responsáveis por trazer o desejo à tona? Ostra, chocolate, pimenta, ovo de codorna e amendoim são alguns dos ingredientes conhecidos por dar uma forcinha ao amor.

A nutricionista Fábia Moura desconhece comprovação científica sobre afrodisíacos. Ela afirma, porém, que alguns alimentos podem, sim, ajudar no prazer indiretamente, ao equilibrar os hormônios sexuais e melhorar a irrigação sanguínea. Banana, gengibre, ostra, oleaginosas, aspargo, romã, chocolate, café, vinho, pimenta, cereais integrais e alimentos com ômega 3 são alguns exemplos.


Pimenta, ovo de codorna, amendoim e ostra estão na lista dos
alimentos que supostamente estimulam o apetite sexual

“Eles são estimulantes, aceleram o metabolismo e provocam aumento de sangue nos músculos, inclusive nos órgãos sexuais. Dessa forma, facilitam o ato sexual tanto em homens quanto em mulheres. Outros estimulam hormônios sexuais, aumentam a lubrificação da vagina ou liberam serotonina, substância que provoca sensação de prazer semelhante à do orgasmo. Isso pode potencializar o prazer do sexo”, explica.

A ostra é rica em zinco, mineral que contribui para a formação do hormônio masculino testosterona. O amendoim é uma oleaginosa rica em vitamina B3, que ajuda na vasodilatação sanguínea, o que pode aumentar a libido. “Muitos desses alimentos podem ajudar o prazer, porém não são capazes de provocar reações exageradas, ditas afrodisíacas”, diz. A apresentação do prato também conta para estimular todos os sentidos.

Na contramão, alimentos de difícil digestão atrapalham o desempenho sexual, pois o sangue se concentra nos órgãos digestivos e foge dos órgãos sexuais. “Então, nada de feijoada antes do sexo!”, alerta. Para os casais enamorados, a nutricionista sugere um prato leve, com ingredientes estimulantes, como um filé de peixe grelhado com molho chutney de abacaxi e pimenta.

Também para o psiquiatra Tárcio Carvalho, os afrodisíacos carecem de comprovação científica. “A sexualidade é uma constituição psicológica e afetiva. O aumento da libido está muito mais associado ao bem-estar emocional, humor e à autoestima”, explica. “Se estamos deprimidos, não há alimento ou companhia que melhore a sexualidade.” No entanto, boa alimentação e exercícios físicos podem contribuir para um bom desempenho sexual, segundo o médico.

Apesar de não acreditar em ingredientes afrodisíacos, o chef executivo do restaurante francês Chez Georges, Robson Lustosa, gosta de mexer com a imaginação dos clientes e crê no poder de sugestão de certos pratos. Ele lembra que, quando a casa começou a oferecer ostras, um cliente comeu 30 unidades e sua acompanhante brincou: “Está bom de parar ou eu não vou aguentar você hoje!”

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Nos menus especiais do Dia dos Namorados, ele gosta de preparar pratos que levem a cor vermelha, cujo apelo visual remete à paixão. Além disso, insumos como gengibre e pimenta geram uma sensação de calor, que pode causar o mesmo efeito. “O importante é trabalhar a libido das pessoas”, diz. O prato royalle de cordeiro ao molho de chocolate, com galette de batata e coulis de pimenta, que ilustra essa reportagem, é um bom exemplo disso.

RESTAURANDO A FORÇA
Mesmo sem disparar reações físicas ou psicológicas comprováveis, os afrodisíacos povoam a imaginação de diversas culturas há tempos. O livro Cântico dos cânticos, do Antigo Testamento, considerado o mais carnal da Bíblia, traz trechos assim: “Ele me conduziu à casa do banquete, onde a bandeira era para mim sinal de amor. Restaurai-me as forças com tortas de uva, revigorai-me com maçãs, porque desfaleço de amor!”

Passando de escritos religiosos capazes de enrubescer os mais puritanos à música popular, o rei do baião Luiz Gonzaga, preocupado com a perda do vigor, pediu ovo de codorna: “Eu quero um ovo de codorna pra comer/ O meu problema ele tem que resolver/Eu tô madurão/ Passei da flor da idade/Mas ainda tenho/Alguma mocidade/Vou cuidar de mim/Pra não acontecer”.

No cinema, a mesma codorna que causou furor em Pedro e Gertrudis aparece em A festa de Babette, de Gabriel Axel (Dinamarca, 1987), vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro. Ex-chef de cozinha do Café Anglais, Babette se refugia na Noruega e vira empregada de duas filhas de um pastor protestante. A pequena cidade era tão refém de princípios religiosos, que seus moradores não se permitiam sentir qualquer prazer. Nem na cama, nem na mesa. Até o dia em que Babette ganha 10 mil francos na loteria e resolve gastá-los em um jantar de agradecimento às irmãs que a acolheram. “Lembrem-se: perdemos o paladar”, avisa um dos comensais antes da refeição de sopa de tartaruga e codornas em sarcófago. Convidado de honra, um general não consegue se abster de elogiar nem de comer com as mãos, lambendo os dedos. No final, todos estão em êxtase.

Mas é o excepcional Tampopo, de Jûzô Itami (Japão, 1985), que leva as possibilidades gastrossexuais ao extremo. A personagem que dá nome ao filme tenta aprender a fazer o melhor talharim tipo lámen da cidade, enquanto uma história paralela mostra um casal se divertindo, passando uma gema de ovo boca a boca, sugando alimentos variados (de camarão a limão com sal), derramados sobre o corpo ou comendo uma ostra que acabou de sair do mar.

ENDOSSO CIENTÍFICO
“Embora comer e fazer sexo pareçam atividades complementares, formas de sensualidade que se incentivam mutuamente, cada afrodisíaco é um passo no escuro. Nenhum deles tem qualquer coisa que poderia ser minimamente chamada de endosso científico”, escreve o historiador Felipe Fernández-Armesto, no livro Comida: uma história. Com ou sem endosso, são muitas as histórias que rondam esses alimentos.

As ostras já passaram por seus altos e baixos: se na Antiguidade e Idade Média eram consideradas uma cara iguaria, no século 19, chegaram a ser comida da classe proletária na França – para, em seguida, ganhar nova ascensão. Apesar de haver algumas receitas célebres, a ostra crua é a mais apreciada. “No repertório da cozinha ocidental moderna, a ostra é a única coisa que comemos crua e ainda viva”, defende.

“Se não nos livrarmos dos utensílios e, jogando a cabeça para trás, levarmos a meia-concha à boca, extraindo a criatura da toca com nossos dentes, provando seu suco salgado e espremendo ligeiramente contra o céu da boca, antes de engoli-la viva, estaremos nos privando de uma experiência histórica”, afirma Fernández Armesto, numa descrição em que quase dá para sentir o gosto de mar do animal.

É comum que alimentos tidos como excitantes tenham sido ligados a valores como força e poder. O amendoim, conta Maria Lucia Gomensoro no Pequeno dicionário de gastronomia, era tão valorizado pelos povos pré-colombianos do Peru, que era enterrado junto com os mortos para alimentá-los na jornada. Se era capaz de restaurar as forças até dos defuntos, então poderia despertar Afrodite, a deusa grega do amor, bem mais facilmente.

O chocolate era o tônico do rei asteca Montezuma, que tomava 50 xícaras, por dia, de uma mistura de cacau em pó, água, farinha de milho e mel. O sociólogo Ariovaldo Franco, no livro De caçador a gourmet: uma história da gastronomia, explica que a bebida chegou a ser um segredo da corte antes de se tornar a bebida da moda na Europa. Teólogos diziam que os monges deveriam ser proibidos de tomá-lo, para evitar desejos inconvenientes.

A escritora Isabel Allende, que se aprofundou no assunto em Afrodite: contos, receitas e outros afrodisíacos, considera que eles funcionam como um placebo. “No caso desse livro, os amigos que desfrutaram dos afrodisíacos, informados do seu poder, revelaram pensamentos deliciosos, impulsos velozes, arroubos de imaginação perversa e conduta sigilosa, mas os que nunca souberam do experimento devoraram os alimentos sem mudanças aparentes”, conclui.

Se tudo depende da intenção, qualquer comida pode ser afrodisíaca. É o que defende a chef de cozinha Nina Loscalzo, no e-book Fogo alto, disponível no site Panelinha. “Uma caipirinha de limão siciliano com pimenta dedo-de-moça pode ser muito mais afrodisíaca que uma porção de ovos de codorna perdidos na salada”, defende. O livro traz três sugestões de menus para casais cozinharem juntos, sejam pares recentes ou amores antigos.

Um dos cardápios inclui até espaguete ao alho e óleo, para desespero daqueles que têm medo do cheiro de alho. Arroz libanês e risoto de frutos do mar são outras receitas, que contam com modos de preparo sugestivos como “em fogo médio, depois que a água começar a ferver, a cebola e o frango cozinham juntinhos por 15 minutos. Para afastar os olhares curiosos, a panela deve ficar parcialmente tampada”.

A palavra final cabe à sempre sábia escritora M. F. K. Fisher, no livro Um alfabeto para gourmets: “Se duas pessoas querem, esperam e planejam ficar juntas, não precisam ter nenhuma preocupação com o que devem comer antes e, na verdade, não precisam se interessar nem um pouco por isso. (...) Podem comer lagosta, queijo derretido na cerveja, ostras, filé mignon ou até pudim frio, e se erguerão impávidas”. 

RENATA DO AMARAL, jornalista, webdesigner, especialista em Design da Informação e mestre em Comunicação pela UFPE.
EDUARDO QUEIROGA, fotógrafo e mestrando em Comunicação Social.

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