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Pedro II: Um hospital renascido

Referência da arquitetura pernambucana, centro hospitalar passa por reforma que preza pela manutenção do projeto original de 1847

TEXTO Dora Amorim

01 de Dezembro de 2010

A arquitetura, neoclássica, é marcada pelas arcadas romanas

A arquitetura, neoclássica, é marcada pelas arcadas romanas

Foto Divulgação

Seria improvável que alguém que passasse por ali, nas imediações do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, o Imip, não observasse a presença portentosa do edifício largo e de janelas em arco do Hospital Pedro II. Mas, até meados deste ano, essa visão era um tanto tristonha e vergonhosa: aquele prédio imenso e antigo abandonado, inútil, numa área do Recife que tanto demanda cuidado social, porque lotada de moradias pobres e modestas, de gente que precisa de todo tipo de suporte e assistência. O Pedro II ficou desativado por 28 anos. Depois desse hiato, que privou três gerações dos seus serviços, o hospital foi reaberto em agosto, recuperando uma das mais interessantes construções civis pernambucanas e seus usos.

Projetado pelo famoso engenheiro José Mamede Alves Ferreira, responsável também por outras construções representativas do Estado – como a instituição de ensino Ginásio Pernambucano e o Cemitério de Santo Amaro –, o Pedro II era o que havia de mais moderno em termos de construção médico-hospitalar do século 19. O projeto original do engenheiro, datado de 1847, foi encontrado no acervo do Arquivo Público de Pernambuco e em nada deixa a desejar em relação aos demais hospitais construídos na época.


No século 19, o Pedro II funcionava como asilo. Foto: Reprodução

“José Mamede era antenado com o que acontecia de mais importante em termos de construção. O Pedro II tem, inclusive, um hospital-irmão, em Paris, o Lariboisière, construído em 1854. Daí a contemporaneidade dos projetos e do pensamento do engenheiro em relação ao resto do mundo”, observou Jorge Passos, arquiteto responsável pelo projeto de restauro e modernização do patrimônio, ao lado de Humberto Zirpoli. O arquiteto diz que, ao assumir o trabalho, soube que o seu maior desafio seria respeitar, ao máximo, as ideias de Mamede, sem comprometer a funcionalidade do hospital, tornando-o um eficiente centro de atendimento médico dentro dos padrões atuais.

INOVAÇÕES DO SÉCULO 19
Após uma apurada pesquisa histórica, realizada através do estudo das plantas originais do prédio, foi definida uma diretriz de restauro que prezou pela manutenção do projeto original de 1847. Assim, durante as obras, foram deixados de lado vários apêndices e anexos construídos aleatoriamente, ao longo dos anos, para aumentar a operatividade do hospital. “A ousadia de abraçar um projeto de restauro se traduz em escolhas, tivemos que derrubar 4 mil metros quadrados de áreas construídas”, ressalvou Antônio Carlos Figueira, presidente do Imip.


Hoje, o Pedro II destina-se a um hospital-escola. Foto: Maíra Gamarra

Graças às obras, o prédio entrará finalmente em processo de tombamento, iniciado em 1998, pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). Foram três anos para restaurar um dos maiores exemplos do neoclassicismo imperial brasileiro. A partir da experiência na França, José Mamede projetou o Pedro II incorporando os ensinamentos modernos provenientes de pesquisas científicas realizadas na Europa.

Seguindo os modelos da arquitetura neoclássica, ele é caracterizado, principalmente, pela presença das arcadas romanas em toda a sua fachada e interior. Contudo, desde o início, o projeto fez uso de materiais muito simples e só tem de importado o pórtico de entrada, feito em mármore de lioz, proveniente de Portugal. Esse pórtico é encimado por um relevo que traz a imagem de uma mulher que deposita moedas em uma caixa e tem ao seu lado uma criança de leite, símbolo da caridade, um dos pilares do atendimento público religioso.


Em mármore de lioz, o pórtico simboliza a caridade. Foto: Maíra Gamarra.

Até hoje, a obra do engenheiro José Mamede Alves Ferreira é respeitada pela inovação dos seus desenhos. Mas o grande segredo da arquitetura do Pedro II vem de conhecimentos trazidos do século anterior, como ressalva Jorge Passos: “Durante o século 18, o espaço hospitalar foi repensado. O médico Dr.René Tenon e o arquiteto Bernard Poyet perceberam que os ambientes destinados ao uso hospitalar tinham um problema de contágio muito elevado, devido à umidade. Sendo assim, os dois desenvolveram estudos e teorias para redimensionar as enfermarias e o espaçamento entre elas, tudo para criar ambientes que permitissem uma melhor circulação, como os jardins. Além disso, foram separados pacientes por sexo e doenças, para evitar maiores problemas de contágio”.

O Pedro II representou uma das primeiras aplicações corretas das ideias de Jacques René Tenon, preconizadas posteriormente pela Academia de Ciências da França, e que definiam a decomposição da planta dos hospitais em duas fileiras de enfermarias paralelas, uma para cada sexo, dispostas perpendicularmente e separadas por um amplo pátio central com jardins, que permitia a circulação de ar. Esses espaços podem muito bem ser utilizados para a reabilitação dos pacientes, como alternativa aos ambientes fechados dos hospitais. No projeto inicial, Mamede idealizou 10 enfermarias, mas só seis foram construídas, recebendo nomes de santos. Durante as obras de restauro do prédio, foi possível localizar uma delas, a dedicada a São Anselmo.

HOSPITAL-ESCOLA

Ao ser inaugurado em 1861, sob a tutela da Santa Casa da Misericórdia, o Pedro II recebia exclusivamente pacientes com doenças mentais. À época, as pessoas que apresentavam qualquer desvio comportamental eram levadas a esses espaços “isolados”, para serem excluídas do convívio social. Contudo, com o passar dos anos e em função da sua dinâmica estrutura física, o hospital tornou-se a principal instituição de saúde da região, atendendo a pacientes em todas as especialidades médicas.

Devido ao seu grande prestígio, o Hospital Pedro II transformou-se, em 1920, num hospital-escola, passando a servir ao ensino médico da Faculdade de Medicina do Recife, a pedido de Otávio de Freitas, na época diretor da instituição. Em 1954, o Pedro II concentrou todos os serviços clínicos, de apoio e diagnóstico da Universidade Federal de Pernambuco, sendo denominado, então, de Hospital das Clínicas.


O pátio central permite melhor circulação de ar entre os pavilhões. Foto: Maíra Gamarra

Foi a partir daí que o projeto arquitetônico inicial de Mamede foi alterado, assim como entrou em colapso a administração do hospital. Para atender às necessidades da universidade, foram levantados prédios e outras estruturas que descaracterizaram as ideias originais do engenheiro. A última construção que respeitou os seus conceitos foi a da capela, ainda na década de 1950. Em 1982, depois de diversos problemas administrativos, o Hospital das Clínicas foi transferido para o Engenho do Meio, local em que poderia atender as demandas de um hospital-escola.

Teve início naquela década a desativação do Pedro II. Atuante por mais de 120 anos e considerado de vanguarda em sua inauguração, o hospital passou todo esse período sem receber pacientes.“O fechamento do Pedro II nunca foi absorvido pela comunidade pernambucana e, para nós do Imip, a dor ainda era maior em função da vizinhança”, afirmou Antônio Carlos Figueira. Hoje, o hospital funciona acoplado ao Imip, instituição responsável pela sua reativação e que arrecadou recursos para as obras junto ao poder público, à sociedade e ao empresariado. Ele volta a ser um hospital-escola.

SALÃO VISITA DO IMPERADOR


Foto: Divulgação

“O novo hospital é obra magnífica”, disse Dom Pedro II, em passagem pelo Recife. Durante a estada na cidade, o imperador foi convidado a participar de um baile em sua homenagem, promovido pela Associação Comercial de Pernambuco, com o objetivo de arrecadar fundos para hospitais e orfanatos da região.

Realizada em dezembro de 1859, dois anos antes da inauguração, no próprio Hospital Pedro II, a festa reuniu cerca de 2 mil membros da aristocracia pernambucana. Em uma sociedade escravocrata, senhores de engenho, barões e viscondes eram recebidos, enquanto uma multidão de populares se comprimia em frente ao hospital. Segundo relatos de colunas sociais da época, o imperador dançou apenas cinco vezes, sendo algumas das privilegiadas a viscondessa da Boa Vista e a baronesa de Vila Bela. Ao fim da dança, essas damas depositaram em uma caixa suas joias como forma de doação para o hospital da Santa Casa da Misericórdia.

Dessa visita, assim como dos primeiros anos de funcionamento do hospital, há pouquíssimos resquícios. Dentro do Pedro II, resta apenas uma pintura decorativa em uma das salas do segundo andar (foto), onde foi realizado o jantar , que antecedeu o baile, com o imperador e seus convidados. Esse local vai funcionar como enfermaria de neurocirurgia, possibilitando ao público o contato com um pedaço da história e a percepção do processo evolutivo pelo qual passou o hospital durante os seus 149 anos. 

DORA AMORIM, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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