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“Minhas tiras nascem do espanto”

Desenhista e quadrinista, fenômeno da internet e um dos mais famosos artistas argentinos na atualidade, Liniers conversa sobre quais influências sustentam o seu ofício

TEXTO Paulo Floro

01 de Outubro de 2010

Liniers

Liniers

Foto Nora Lezano e Sebastián Arpesella/Divulgação

O banal sempre foi muito caro a Liniers. Desenhista e quadrinista argentino, ele se tornou sucesso no Brasil com as tiras em quadrinhos Macanudo, publicadas na Folha de S.Paulo e em coletâneas da editora Zarabatana (o terceiro volume acaba de chegar às livrarias). No imaginário desse artista, os personagens vivenciam experiências surreais, enquanto refletem e comentam coisas simples. “Minhas tiras nascem do espanto”, disse. E o espanto é o elo para que o leitor adentre o mundo de Liniers, povoado por personagens como um pinguim da Patagônia, um monstro que tem uma amiga imaginária, duendes, um misterioso Homem de Preto e o próprio artista, representado na forma de um coelho.

O sucesso do autor no Brasil provavelmente repercute apenas aquele por ele conquistado no próprio país, já que é hoje um dos artistas mais cultuados na Argentina. Sua tira Macanudo é publicada desde 2002 pelo jornal La Nacion, por uma indicação de outro nome forte dos quadrinhos, Maitena, que teve seu Mulheres alteradas na lista dos mais vendidos por aqui. Além do Brasil, Liniers é publicado em países como a França, Espanha e o Canadá. Nesta entrevista à Continente, ele falou de sua relação com o Brasil e comentou suas memórias afetivas de Quino, nome que é uma instituição das HQs e famoso no mundo todo por sua personagem Mafalda. “Por vezes, encontro com ele em meu subconsciente”, comentou Liniers.

Conhecido entre brasileiros antes mesmo de ganhar uma edição nacional de suas tiras, Liniers teve seu Macanudo “retuítado” e enviado por e-mail por diversas pessoas, muitas vezes acompanhadas da tag#gênio ou simplesmente #hilário. Tudo graças ao seu blog Cosas que te pasan si estás vivo (Coisas que te acontecem se estás vivo, em tradução literal), que ele ainda atualiza. “É meu diário íntimo e, talvez, minha autobiografia in progress”, define.

CONTINENTE Você consegue perceber o sucesso que Macanudo alcançou no Brasil? Antes mesmo do lançamento pela editora Zarabatana, sua obra já era comentada pela internet e lida em espanhol.
LINIERS Sempre me surpreendo com qualquer repercussão que tenho fora da Argentina. É algo lindo de ver, sempre. Acabo criando interesse por pessoas e lugares que não conheço, que não entendo. É engraçado. Acho que, no início, os leitores do Brasil chegaram a mim através de outros artistas, como Maitena ou mesmo Quino. Uma vez, coloquei o nome deles no Google e, entre os resultados da busca, lá estava eu. Fico feliz de marcar presença com eles. Tenho sorte.

CONTINENTE E o que acha das edições lançadas no Brasil? Estranhei, no início, ler Macanudo traduzido.
LINIERS Para mim também é muito estranho (risos). E agora estão traduzindo para o tcheco, o que será mais esquisito ainda. Mas acho bonito olhar minha obra em um idioma que não compreendo. É sempre uma sensação estranha e bela ao mesmo tempo.

CONTINENTE Você gostou das traduções?
LINIERS Fiquei feliz. Algumas ficaram maiores do que a versão lançada na Argentina. Mas tenho um carinho enorme por todas elas.

CONTINENTE Qual a lembrança mais remota que você tem de Macanudo? Como surgiu a ideia para criar os personagens?
LINIERS Eu estava desenhando minha tira semanal chamada Bonjour, no jornal Página 12, em 2002. Foi quando Maitena insistiu muito com o jornal La Nacion, no qual ela trabalhava, para que eles me publicassem todos os dias. Na verdade, comecei sem ter muita ideia do que iria sair. Comecei desenhando um pinguim, porque acho divertido desenhá-los. Não sabia como seria a tira, como iria desenvolvê-la, então aquele pinguim no meio da Patagônia acabou refletindo todas as minhas inquietações. Não sabia se teria outros personagens ou não. Então, todos foram aparecendo. É como se as tiras chegassem a mim e não o contrário.

CONTINENTE Em Macanudo, alguns dos poucos personagens fixos da série são a menina Enriqueta, seu gato Felini e o urso de pelúcia Madariaga. Eles remontam a personagens clássicos dos quadrinhos, como Calvin e Haroldo, por exemplo.
LINIERS Sim, são três personagens da tira que têm um humor mais clássico, já que em Macanudo trabalho muito com o absurdo, com coisas surrealistas muitas vezes. Esses três são meu jeito de dizer que também curto esse tipo de humor mais antigo e direto, como SnoopyMafalda e Calvin e Haroldo. E gosto de trazer um pouco desse mundo mais clássico, de quando as tiras eram para crianças.

CONTINENTE Como surge a inspiração para desenhar as histórias de Macanudo? Como é o processo criativo?
LINIERS Meus desenhos nascem da surpresa. Minha inspiração é sempre fruto de um espanto. Algo que me surpreenda, por mais banal que seja.

CONTINENTE Falando em banal, queria que você comentasse um pouco a sua rotina. Essas pequenas coisas do dia a dia devem influenciar seus trabalhos.
LINIERS Sim! Tudo tem influência em meus desenhos, tudo que vejo, leio, escuto ou as pessoas com quem falo. As notícias também acabam me dando ideias, de alguma forma. Bem, levanto cedo, já que tenho duas filhinhas. O melhor para mim é desenhar pela manhã, logo após ler o jornal, ver alguma notícia que me interesse. Desenho no papel e pinto com aquarela, sinto-me meio Gepeto com Pinóquio. Depois passo para o computador, que acho pouco útil, como desenhista. Durante a tarde, dedico-me a outros projetos, como livros, ilustrações.

CONTINENTE Quando você descobriu o talento para desenhar?
LINIERS Descobri desenhando (risos). Como todo mundo, comecei a rabiscar aos três, quatro anos de idade. Nunca fui o melhor desenhista da classe. Sempre tinha dois ou três que faziam desenhos melhores que o meu. Não tive um talento natural, como Picasso, por isso tive que trabalhar muito para encontrar um jeito de desenhar que me agradasse. Insisti muito e demorei a gostar de algo que eu criasse e, mais importante, que achasse engraçado. Nunca fiz escolas de desenho, apenas oficinas. Aprender a desenhar, só mesmo tentando muito.

CONTINENTE Você já chegou a afirmar que Quino fez parte da sua infância. Quanto desse autor está presente nas suas obras?
LINIERS Quino é uma influência muito grande. Mais do que isso. Minha geração aprendeu a gostar de quadrinhos lendo Mafalda. Ela diz muito ao argentino da minha idade que lia aquelas tiras quando criança. Os personagens ficaram no meu subconsciente como se fossem pessoas reais. O próprio Quino é como se fosse uma pessoa presente para mim. Ele é tão presente no meu subconsciente, que muitas vezes nos cruzamos, mas não falamos muito, já que ele é tímido (risos). É uma espécie de base pessoal, como leitor e como pessoa.

CONTINENTE O conteúdo político das obras de Quino sempre foi muito comentado, mas, para muitas pessoas, não passa de uma questão de interpretação. Qual sua opinião sobre isso?
LINIERS Bem, o Quino desenhou a Mafalda nos anos 1960 e 1970 e, aqui na Argentina como no mundo inteiro, existia muita politização. As pessoas eram mais informadas. Se eu desenhasse naquela época, com certeza seria mais político com minhas tiras. Gosto muito desse lado engajado de Quino e admiro também suas ideias nesse campo. Muitas pessoas concordam com suas visões, não importam as convicções que tenham.

CONTINENTE Você costuma abordar política em suas tiras?
LINIERS Normalmente desenho poucas. Acho que não tenho muito o que falar desse e daquele político ou do assunto em detalhes. Já existe gente fazendo isso muito bem. Recentemente, fiz uma tira sobre a aprovação do casamento gay na Argentina. Mas é algo muito esporádico.

CONTINENTE Seu blog, Cosas que te pasan si estás vivo traz impressões pessoais, como músicas e filmes de que você gosta. Fala também de suas filhas, de livros. É como um diário.
LINIERS Sim, posso dizer que é como um diário íntimo. São quadrinhos de coisas que me acontecem durante a semana. Acredito que Macanudo seja um diário emocional e no blog posso falar de outros assuntos. E, sim, é como uma autobiografia em curso.

CONTINENTE Como tem sido o retorno dos leitores?
LINIERS Maravilhoso. Lembro quando era criança e lia as histórias de Quino. Ele me parecia tão inacessível, distante, quase inumano. Hoje, posso ter um relacionamento mais direto com quem admiro, qualquer artista. A internet é uma ferramenta importante no meu trabalho. Sem ela, eu não existiria fora da Argentina, ninguém me conheceria.

CONTINENTE No blog, você aparece bastante como um coelho. Há algum motivo específico para isso?
LINIERS A explicação é que apareço nas tiras como um disfarce de mim mesmo. Existe uma escola grande de cartunistas que se representam como animais. Mas acho que, no fim, seja apenas timidez.

CONTINENTE Você tem um livro de viagens chamado Conejo de viaje (Caderno de viagem, em tradução livre, embora conejo em espanhol signifique “coelho”, inédito no Brasil). Tem planos de voltar a desenhá-lo?
LINIERS Comecei esses diários como uma maneira de registrar minhas viagens. Era algo rápido, pessoal, por isso algumas passagens são um tanto estranhas. Não era minha intenção publicar. Mas meu editor viu e achou aquilo tudo muito especial, próximo do que as pessoas já liam de mim. Foi uma maneira de sair da rotina. Como desenhista, continuo viajando (risos), mas as viagens estão ficando mais escassas. Quero voltar a desenhar esses cadernos, gostaria muito de desenhar lugares como a Bolívia e a África.

CONTINENTE Para terminar: podemos chamar seus personagens de existencialistas?
LINIERS Todos somos, de alguma forma. Todos queremos saber por que estamos aqui. Eu desenho para fazer essas perguntas, para questionar coisas que não entendo. Todas as minhas tiras são perguntas, de algum modo. 

PAULO FLORO, jornalista, editor da revista O Grito! e repórter do JC Online, no qual assina coluna sobre HQs.

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