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Peleja: Jarmeson de Lima x Anderson Foca

TEXTO Revista Continente

01 de Outubro de 2010

Imagem Hallina Beltrão sobre foto de divulgação

Recentemente, as cerimônias de premiação dos canais de televisão Multishow e MTV consolidaram o fenômeno teen Restart, o Menudo da geração 2.0. Detentores de vários prêmios por votação do público via web, os adolescentes superaram artistas mais experientes da música pop, como Otto e Cidadão Instigado. O jornalista Jarmeson de Lima defende a importância de tais consagrações, mas lhes faz ressalvas, enquanto o músico Anderson Foca define eventos com esse fim como “programas de auditório”.

JARMESON DE LIMA
Jornalista, radialista e produtor do Coquetel Molotov


Foto: Divulgação

Há 43 anos, o Brasil via, no Festival da Record, o jovem Edu Lobo ser consagrado com a música Ponteio. Em meio a uma plateia ruidosa, sobressair-se dessa forma não era uma tarefa fácil. Ainda mais se a gente considerar que entre os concorrentes estavam Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque, tornados posteriormente e até hoje os maiores nomes da música brasileira, acima do bem e do mal, e de qualquer premiação.

Possivelmente, muita gente não teria conhecido Ponteio se não fosse aquele festival. Não podemos ignorar o fato de que o evento – assim como os da Globo e os Prêmios Shell – revelou diversos talentos para o país. Talvez nós demorássemos mais a descobri-los, se não fosse o atalho oferecido por eles. Sendo assim, é ainda por conta disso que esses eventos merecem um pouco de crédito. Lembremos que a Orquestra Contemporânea de Olinda foi indicada numa das categorias do Grammy Latino e soube usufruir dessa exposição e alcançar novos degraus.

O que há de errado não são exatamente as premiações, mas, sim, a distinção que podemos fazer entre uma cerimônia séria e outra de brincadeira, em que até uma votação de Rainha do Milho é menos constrangedora. Salvo alguns deslizes e sua tendência mais “conservadora”, a única premiação que pode ser considerada séria no Brasil, atualmente, é o Prêmio da Música Brasileira, o herdeiro doPrêmio Sharp, mas que peca por focar apenas a produção recente de medalhões.

É bom ver que Erasmo Carlos e Ney Matogrosso ganharam prêmios por seus discos mais novos, mas sempre que um desses ganha, um novo talento perde espaço nas FMs, ainda pautadas por esses mecanismos de validação artística. Um reconhecimento como esse pode não significar muita coisa hoje para Gal Costa, mas pode render a uma cantora como Karina Buhr o destaque merecido. Também pode ser só mais um troféu na estante de Chico Buarque, mas pode significar muito para Rômulo Fróes.

É por isso que devem existir premiações, não para celebrar o passado, mas reconhecer em vida e no auge de sua criatividade os novos Edus, Gils e Chicos. Porém, se virem por aí alguma cerimônia que não contemple essa nova produção, então tenham certeza de que seu corpo de jurados precisa urgentemente parar de ouvir a “Nova” Brasil FM.

ANDERSON FOCA
Músico, produtor e coordenador do Festival DoSol


Foto: Nicolas Gomes

Nos anos 1980, do meio para o final de cada ano, não tinha coisa mais legal nas revistas de música do que a edição que vinha com os prêmios de melhores do ano. Era uma delícia saber os vencedores, poder ler a opinião da crítica especializada e, ao mesmo tempo, fazer a própria lista de destaques.

Também eram um orgulho para gravadoras e artistas tais “comendas”. Sinal de que o trabalho havia sido bem-feito, tinha relevância artística e, de alguma forma, representava uma visão crítica sobre as obras, excluindo o conceito de que, se o álbum é popular, merece estar entre os melhores. A verdade dura dos fatos é que quase nunca público e crítica concordam com o assunto “o melhor”. Existem exceções, claro, mas só justificam a regra geral.

Com o passar de duas décadas e a revolução digital, não só batendo em nossa porta, mas tomando conta de tudo (com a internet sendo protagonista), o que vemos no mercado da música, hoje? O que torna um trabalho relevante? Como conseguir dar conta de ouvir tanta oferta? Sim, ao mesmo tempo em que as chamadas majors entraram em falência, digo com todas as letras: nunca se ouviu ou produziu tanta música como agora.

No meio desse turbilhão de informações, em que se converteram os prêmios de música? A revolução para essa turma está, sim, sendo televisionada. Quase todos os prêmios ditos como importantes pelo mercado musical são organizados por canais de entretenimento. Para piorar – e porque não são (ou não querem ser) especialistas –, eles passam toda a responsabilidade de escolha dos melhores para a audiência, como se todo mundo que vê televisão tivesse tempo de ficar votando nos seus ídolos na frente do computador.

Não há como querer chamar esses programas de auditório de “musicais”, assim como não dá para aceitar que eles estejam outorgando “prêmios de música”. Talvez os blogs sejam, hoje, os mais cotados para assumir tal ação. Então, fica minha sugestão: um pool de blogs promove um verdadeiro prêmio de música e as televisões passam a premiar o entretenimento popular, que, na realidade, é o foco de trabalho delas. Cada um ficaria no seu devido lugar. Do jeito que vai, prêmios musicais na TV não valem absolutamente nada para amantes de música. 

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