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Holofotes para a animação brasileira

Não estamos falando de Copa do Mundo, mas da boa fase do cinema animado do país, que levou o Festival de Annecy, o mais importante do gênero no mundo, a homenagear o Brasil este ano

TEXTO JÚLIO CAVANI, DE ANNECY

15 de Junho de 2018

Pavilhão do Festival de Annecy em 2018

Pavilhão do Festival de Annecy em 2018

Foto C Flach CITIA/Divulgação

Enquanto o Brasil vive uma histórica crise econômica e política, o cinema animado brasileiro encontra-se no auge da produtividade. A indicação do filme O menino e o mundo ao Oscar, em 2016, foi apenas uma das várias conquistas que os nossos animadores obtiveram nos últimos anos. Agora, mais um inédito e inestimável reconhecimento é verificado na cidade francesa de Annecy, onde o maior festival de animação do mundo, realizado até este sábado (16/6), escolheu o país como homenageado de sua 42ª edição.

Antes de chegar ao Oscar, O menino e o mundo, dirigido por Alê Abreu, venceu o Festival de Annecy em 2014. Todos ficaram surpresos porque, um anos antes, outro longa-metragem brasileiro também havia vencido a competição – Uma história de amor e fúria (2013), de Luiz Bolognesi. Em 2015, mais dois troféus foram conquistados pelo curta Guida, da animadora paulista Rosana Urbes.

Como o Brasil nunca tinha sido premiado, essa sucessão de prêmios, em três anos seguidos, despertou um interesse especial nos organizadores, que decidiram realizar a homenagem para investigar e revelar essa vocação ao mundo. Toda a consagração coincidiu ainda com o centenário do curta-metragem O kaiser, o primeiro desenho animado da história do país, realizado em 1917 por Seth (nome artístico do cartunista Álvaros Martins).



“Esse sucesso, que a gente tem obtido nos últimos anos, é resultado de uma luta de pelo menos três décadas. Essas conquistas demoram, mas elas chegam, então eu acho que a animação brasileira veio pra ficar”, avalia Cesar Coelho, um dos diretores do Anima Mundi, o maior e mais antigo festival de cinema do Brasil, convidado para elaborar a retrospectiva de curtas brasileiros presente na programação deste ano em Annecy.

Para Coelho, “a arte da animação envolve questões fortes de ritmo e capacidade de improvisação, duas coisas que os brasileiros dominam muito bem. As novas tecnologias, plataformas e mídias também ajudaram a despertar esse gigante. Hoje em dia, você pode produzir filmes competitivos, capazes de ganhar festivais e mercados internacionais, com recursos que você pode ter no quarto de sua casa”.

Lamentavelmente, nenhum filme produzido no Nordeste foi incluído na retrospectiva panorâmica, apesar da presença do pernambucano Guaxuma, de Nara Normande, na competição internacional de curtas-metragens deste ano. “Alguns filmes entraram pela importância histórica para o cinema brasileiro, mas a maioria são projetos mais novos que a gente trouxe, porque Annecy é um grande centro de comercialização de animação, então era importante mostrar o que o Brasil está fazendo de melhor”, justifica Aída Queiroz, também diretora do Anima Mundi e organizadora da mostra especial em Annecy.



Além da mostra retrospectiva, que inclui ainda séries de TV e comerciais, a homenagem ao Brasil envolve uma exposição, uma conferência (com foco em questões econômicas), o lançamento do livro Animação brasileira: 100 filmes essenciais, a exibição do documentário Luz, anima, ação (sobre a história da animação brasileira), de Eduardo Calvet, e um estande especial no Mifa (Mercado Internacional do Filme de Animação), a feira de negócios do festival, além de projeções ao ar livre dos filmes O menino e o mundo, Uma história de som e fúria e Guida. “Annecy é um santuário pra mim. Acompanho a programação desde o começo da minha paixão pela animação. Eu nunca imaginaria que participaria e ainda mais com um reconhecimento tão bacana”, celebra Rosana Urbes, sobre a participação do seu Guida.

“O mundo começou a olhar para o Brasil como um fornecedor de conteúdo de alto nível autoral. A gente ativou um novo mercado pelo viés da qualidade. De cinco anos pra cá, os filmes e séries de animação brasileiros passaram a ser vendidos no mundo inteiro. Annecy foi um marco de transformação dessa indústria”, acredita Luiz Bolognesi, que veio ao festival este ano para antecipar detalhes de seu novo projeto de longa, A estrangeira, ainda em fase de desenvolvimento e captação.

“A animação é um território muito mais livre do que o live action (filmes com pessoas reais). É uma linguagem que permite narrativas e viagens dramatúrgicas sem orçamentos gigantescos”, diferencia Bolognesi. “Além disso, existe um púbico cativo específico de animação que consome tudo o que é lançado. Proporcionalmente, a produção de longas de animação é pequena em comparação com outros formatos. Isso faz com que a demanda seja maior porque não há tanta oferta, principalmente no cinema mais autoral. O menino e o mundo é um case de sucesso absoluto, que chegou a ser nomeado pro Oscar tirando a vaga de O bom dinossauro, da Pixar. Só que o filme do Alê custou 200 mil dólares, enquanto o filme da Pixar custou 140 milhões de dólares.”



“A gente tá colhendo os resultados de uma trajetória que vem sendo construída há um bom tempo, principalmente pelos curtas-metragistas com trabalhos autorais. Espero que continue, mas é preciso que exista uma estrutura para isso”, observa César Cabral. O realizador está em Annecy com o curta Tempestade (foi apresentado no festival em 2011 e agora está na retrospectiva brasileira) e com um episódio da série Angeli, the killer (Canal Brasil), presente na mostra competitiva internacional de séries de TV, na qual o Brasil também está representado por O irmão do Jorel (Cartoon Network), de Juliano Enrico. “É uma das categorias mais concorridas, com programas de emissoras do mundo todo”, enfatiza Cabral.

“Para mim, Annecy sempre foi um mito. Ter um filme aqui é inesperado porque é superdifícil e porque eu não poderia ter estreado em um lugar melhor”, comemora a cineasta alagoana Nara Normande, cujo curta Guaxuma é uma coprodução entre Brasil e França patrocinada pelo Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura).

Dos longas em competição este ano, o único brasileiro é Tito e os pássaros (SP), codirigido por Gustavo Steinberg, Gabriel Bitar e André Catoto. No total, 11 filmes brasileiros concorrem nas competições internacionais de Annecy em 2018. Há produções nacionais na mostra de vídeos comissionados (dedicada a comerciais e vinhetas), na Off-Limits (curtas radicalmente experimentais) e na Perspectivas (curtas com novas tendências).



Músicas de cantores brasileiros, como Lenine e Gilberto Gil, são tocadas nas salas de projeção entre as sessões. Vinhetas animadas especiais inspiradas no Brasil, e produzidas pela Escola de Imagem Gobelins, também são projetadas antes de todos os filmes do festival (assista ao longo deste texto). Além disso, a identidade visual (veja topo acima) traz as cores da bandeira.

JÚLIO CAVANI, jornalista, crítico e realizador. Dirigiu os curtas Deixem Diana em paz (2013) e História natural (2014). Atualmente, é também curador do festival Animage, no Recife. 

*O jornalista viajou a convite do Consulado da França no Recife, do Instituto Francês do Brasil e do festival Animage.

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