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Pimentel, divino cangaceiro ou para além das paixões

Ator, diretor, roteirista e professor morre aos 86 anos, deixando sua marca em Pernambuco. Sobre sua vida fala o jornalista Cleodon Coelho, autor da biografia de Pimentel

TEXTO Cleodon Coelho

14 de Agosto de 2018

As várias fases de José Pimentel está no livro de Cleodon, 'José Pimentel: para além das paixões'

As várias fases de José Pimentel está no livro de Cleodon, 'José Pimentel: para além das paixões'

Mosaico Reprodução

Foram quase dois anos de convivência entre o convite da Coleção Memória (Cepe) para escrever a biografia de José Pimentel e o lançamento, em concorrida noite no Teatro de Santa Isabel, em janeiro desse ano. O ator dizia, com seu jeito irônico de sempre, que ser biografado era coisa de quem já tinha morrido. É bem verdade que passei alguns sustos durante esse tempo, como uma internação séria perto do Natal de 2016. Mas ele era duro na queda e não deixaria se entregar assim tão fácil.

Ao longo desse tempo, eu – que moro no Rio de Janeiro – fui ao Recife pelo menos uma vez por mês para encontrá-lo. Nossas conversas aconteceram sempre em sua casa, no bairro do Arruda, onde ele viveu boa parte da vida. A cada visita, eu descobria uma caixa de foto, um envelope, pastas com recortes de jornais, e sua história foi se descortinando para mim. E que história.

Pimentel viveu mudando de cidade durante a infância, até que – depois da morte do pai – foi parar no Recife. Tinha 10 anos e tornou-se arrimo de família. Na adolescência, virou fisiculturista e ganhou títulos como o de “melhor perna”. As matérias dos jornais da época registraram. E foi por conta de seu físico que foi parar em Nova Jerusalém, quando a Paixão de Cristo ainda acontecia nas ruas, para atuar como soldado romano, uma simples figuração. Lá, o teatro acabou lhe fisgando e não parou mais. Virou ator, diretor, autor, iluminador, crítico... Um legítimo homem dos palcos.

Quando dei por concluída essa história (claro que muita coisa acabou ficando de fora), tirei uma tarde para ler todo o livro para ele. E é essa imagem que fica: a do homem que ouvia aquela narrativa como se fosse a de mais um personagem que viveu. A todo instante, ele comentava: “Caramba, eu fiz tudo isso?”. Que honra poder ter dividido sua trajetória com os leitores. Durante muito tempo, o título do livro seria Divino cangaceiro. É a vida de um cabra danado, que sempre soube se reinventar todas as vezes que a vida tentou lhe dar uma rasteira. Bravo!


Ao lado da produtora Aurora Duarte, Pimentel estuda o texto do filme
Riacho do sangue. Foto: Reprodução

CLEODON COELHO é pernambucano radicado no Rio de Janeiro, jornalista, roteirista e autor de José Pimentel: para além das paixões (Coleção Memória, Cepe Editora), além de outras biografias. 

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