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Veneza coloca Polanski em discussão

Festival de cinema na Itália insere novo filme do cineasta na competição, mas abre o debate sobre o que fazer com os gênios que se comportam mal

TEXTO MARIANE MORISAWA, DE VENEZA

05 de Setembro de 2019

Cena de 'J'accuse', de Roman Polanski

Cena de 'J'accuse', de Roman Polanski

Foto Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

O 76º Festival de Cinema de Veneza é palco de um dos principais debates da arte hoje: é possível separar o artista da obra? Ao longo da história, aos gênios criadores quase tudo foi permitido: assediar, maltratar, ter comportamento volátil e até cometer crimes. O que contava parecia ser somente a sua obra. Mas em 2019 o “passe livre”, se não deixou de existir, pelo menos está em questão. Para a cineasta argentina Lucrecia Martel, presidente do júri da competição este ano, não é possível separar o homem do seu trabalho: “Porque o interessante da obra é o que ela revela do homem”. Para o diretor do festival, Alberto Barbera, não só é possível, como necessário. “Eu tenho muita convicção de que se deve fazer uma distinção entre o homem e o artista. A história da arte está cheia de criminosos, e nem por isso desconsideramos suas obras ou deixamos de admirá-las.”

A discussão veio à tona por causa da inclusão da competição em Veneza de J’accuse (“Eu acuso”, na tradução livre do francês), novo filme de Roman Polanski sobre o caso Dreyfus – do militar judeu acusado injustamente de espionagem – e também de American skin, de Nate Parker. Polanski, hoje aos 86 anos, foi preso e acusado de drogar e estuprar uma garota de 13 anos nos Estados Unidos, em 1977. Depois de aceitar se declarar culpado por um crime menor (“sexo ilegal com menor”), ele fugiu para Paris antes da sentença, com medo de ser mandado para a prisão. Desde então, vive sob constante ameaça de ser extraditado para os EUA – tanto que não foi a Veneza com a delegação do longa. A sobrevivente do abuso já disse que quer esquecer o caso, mas, a partir de 2010, o cineasta foi acusado por outras três mulheres. Parker, por sua vez, foi inocentado da acusação de estupro a uma mulher inconsciente durante a faculdade. A moça que o acusou suicidou-se alguns anos depois. Durante o lançamento do seu primeiro filme, O nascimento de uma nação (2016), mais detalhes de seu passado vieram à tona, a resposta foi considerada insuficiente e isso prejudicou a estreia.

J’accuse soa como uma resposta do diretor às acusações. Dreyfus, interpretado por Louis Garrel, foi acusado de espionar para os alemães sem provas consistentes e condenado principalmente por conta do antissemitismo – no final do século XIX, ele era o único oficial judeu do exército francês. O longa se concentra em Georges Picquart (Jean Dujardin), ex-professor de Dreyfus que acreditava em sua culpa até topar com indícios de que ele poderia ser inocente. O caso foi um dos maiores escândalos da França, dividindo o país e motivando um artigo histórico do escritor Émile Zola.

Por mais que o cineasta tenha ressaltado sua fascinação pelo caso, sobram pistas de que o tema é pessoal: ele sempre se sentiu perseguido. E com certa razão. Afinal, trata-se de um sobrevivente do Holocausto que teve a mulher, a atriz Sharon Tate, grávida de oito meses, assassinada pela Família Manson em Los Angeles, em 1969 – algo que Quentin Tarantino acabou de abordar em Era uma vez em... Hollywood. Até os verdadeiros criminosos serem presos, o diretor foi considerado culpado pela morte de Tate, por suposto envolvimento com o satanismo – a prova seria o seu filme O bebê de Rosemary (1969). Mas o material de imprensa, que contém uma entrevista de Polanski, chama as acusações das mulheres de “macarthismo feminista”, comparando-o com as perseguições que ele sofreu dos nazistas e depois dos stalinistas na Polônia. “Na história (de Dreyfus), eu às vezes encontro momentos que eu vivenciei, posso ver a mesma determinação de negar os fatos e me condenar por coisas que não fiz”, diz ele na mesma entrevista.

Movimentos como #MeToo e Time’s Up botaram em pauta os limites do gênio – que em 99,9% dos casos são homens. E é um debate complexo. Cancelaremos todos os artistas homens que se comportaram mal? Ou só os que cometeram crimes? Passaremos pano para todos? Em Veneza, Lucrecia Martel falou sobre a complexidade do tema e seus próximos questionamentos pessoais:
“Creio que este debate é muito importante neste festival. Reitero que não separo a obra do homem. E justamente pela obra de Polanski, acredito que o homem merece ter uma chance, pelas reflexões sobre a humanidade que colocou em seu trabalho. Mas imagine como foi difícil porque estou vivendo, no meu país, situações diárias em que é muito duro discernir até onde ir contra pessoas que cometeram coisas assim e foram julgadas. Se uma pessoa foi condenada, e a vítima se diz ressarcida, o que vamos nós fazer? Condená-lo? Impedi-lo de estar no festival? Colocá-lo fora de competição para proteger o festival? Todas essas conversas são pertinentes e são os debates de nosso tempo. Tirar ou colocar Polanski no festival nos obriga de igual maneira a discutir, porque todos estamos vivendo em nossos países. Então aproveitemos este festival para refletirmos juntos, porque o mundo precisa disso”.

MARIANE MORISAWA é jornalista apaixonada por cinema. Vive a duas quadras do Chinese Theater, em Hollywood, e cobre festivais. 

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