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Cobertura

SP-Arte: um festival marcado por novos talentos e doações

A 15ª edição do evento apresentou ao mercado da arte nomes em ascensão e bateu recorde nas aquisições de obras para instituições nacionais e internacionais

TEXTO MARIANA OLIVEIRA, DE SÃO PAULO*

12 de Abril de 2019

Vista geral do Pavilhão da Bienal durante a SP-Arte 2019

Vista geral do Pavilhão da Bienal durante a SP-Arte 2019

Foto Leo Eloy/Divulgação

Há pouco mais de uma semana, tinha início no Pavilhão da Bienal, em São Paulo, a 15ª edição do SP-Arte, a conhecida feira que hoje atende pelo nome de Festival Internacional de Arte de São Paulo. A quinta, dia 4 de abril, marcava a abertura para o público geral, já que, na quarta (3), o evento havia realizado a sua sessão preview apenas para convidados seletos. Nesta edição, o grande destaque foi o boom de aquisições para doações a museus e instituições, que bateram todos os recordes.

Ano passado, foram 20 doações. Agora, mesmo sem o número total fechado, as doações mais que dobraram. O Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) recebeu 11 doações, a Pinacoteca do Estado de São Paulo recebeu seis, mas foi o Museu de Arte do Rio (MAR) quem liderou a lista, com o recebimento de 43 obras doadas. No caso da instituição carioca, o foco principal foram os jovens nomes em ascensão.


Francisco Hurtz no estande da galeria Verve. Foto: Divulgação

Entre essas doações, está o trabalho de Francisco Hurtz, que iniciou sua carreira em 2009, mas há alguns anos não participava do evento, retornando este ano com a galeria paulistana Verve. Hurtz desenvolve pinturas e desenhos calcados eminentemente nas discussões contemporâneas de gênero, sexualidade e disputas de poder. Seus traços limpos, quase sempre em P&B, terminam também ganhando os corpos. “Meu projeto das tatuagens começou em 2014, quando recebi uma imagem de um rapaz que havia tatuado na perna um dos meus desenhos. Vi nisso um trabalho em potencial. Publiquei a foto dele e liberei meus desenhos para que outras pessoas pudessem tatuá-los. Hoje, eles estão em corpos de pessoas em mais de 30 países”, detalhou.

Dias depois, quando a doação de sua obra ao MAR foi concretizada, Hurtz escreveu em sua movimentada página do Instagram: “Entendam a doação da minha obra e de outros artistas LGBTQ nesse ano ao @museudeartedorio como um processo de reconhecimento não só a mim como artista, mas a todos nós como comunidade. Espero que outros museus olhem para a arte queer com atenção e comecem um movimento de pluralização de discursos e percebam que seus acervos são parciais e contam quase sempre as mesmas histórias sobre como um artista homem branco heterossexual foi grandioso e inovador ao confrontar outros homens brancos heterossexuais”.

Outro artista com obra doada ao MAR foi Andrey Rossi, da Galeria OMA, de São Bernardo do Campo (SP) – dos sete artistas da galeria, cinco tiveram obras doadas ao museu carioca. Na quarta, sem imaginar que sua obra passaria a fazer parte do acervo do museu carioca, Rossi conversou com a Continente sobre suas expectativas para esta que era a sua segunda participação no festival. “Eu sempre encarei a SP-Arte como um momento de estabelecer relações, conversas, trocas. É uma oportunidade de ter mais gente vendo seu trabalho. Sempre achei a questão comercial menos importante”, comentou, comemorando o fato de o galerista Thomaz Pacheco deixar a cargo do artista a escolha das obras que eram expostas.

Rossi apresentava uma composição feita com quatro telas da série Carga viva. Nesses trabalhos, ele abandona as lonas de caminhão usadas como suporte e passa para a tela branca. Ficam para trás também as figuras animais e botânicas presentes em suas obras anteriores. Nas telas, há figuras humanas encarceradas em caixas, em cenas verdadeiramente claustrofóbicas, ou sacos cheios de cabeças humanas pintados na parte inferior da tela, como se estivessem rente ao chão (onde todos terminarão, afinal). Esse excesso de informação na parte baixa contrasta com a parte superior da tela, mantida em branco. “Nessas obras, eu reflito um pouco sobre o peso da vida. Sobre como é pesada a nossa existência. Nós vivemos sempre dentro de caixas. A gente está aqui dentro de uma grande caixa, de isolamento e de exclusão. Na verdade, esse trabalho faz parte de um processo, relacionado também à minha pesquisa de doutorado na Unicamp”, explicou Rossi.


Série Carga viva, de Andrey Rossi. Foto: Divulgação

Entre os trabalhos arrematados pelo MAR, estava também o de Rafael Pagatini, representado pela Oá que fazia parte do setor Solo, dedicado a galerias que se propunham a apresentar trabalhos de um único artista. O mineiro Rodolpho Lamonier também participava do setor e foi, certamente, um dos jovens artistas mais celebrados do festival. Ao descer a rampa do Pavilhão da Bienal, no térreo, seus trabalhos em tecidos bordados recepcionavam o público no estande da galeria Periscópio. Já na quarta feria (3), uma obra da série Profecias, foi adquirida e doada à Pinacoteca. Nela, lia-se uma das “previsões” feitas pelo artista: “Em 2040, legalizaremos o amor e as drogas menos intensas”.

Além das instituições brasileiras, o Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires (Malba) também realizou aquisições na feira, uma delas também no setor Solo. O artista peruano Fernando Bryce teve quase todas as suas obras, expostas pela galeria espanhola Espaivisor, doadas à instituição.

Para a curadora do Solo, a chilena Alexia Tala, essas aquisições de artistas que expunham seus trabalhos no setor mostram a força da arte latino-americana. Quando foi convidada pela SP-Arte para conduzir a curadoria, ela definiu que seu recorte seria trabalhar com talentos do continente. “Interessava-me reunir artistas latino-americanos, em especial aqueles que discutissem, de algum modo, o imaginário construído sobre nós pelo Ocidente”, explicou. Nesse processo, ela conta que conduziu sua curadoria com um modus operandi similar ao que realiza quando empreende uma curadoria para uma instituição ou bienal.


Profecias, Rodolpho Lamonier. Foto: Divulgação

“Não fui atrás de galerias. Primeiro pensei em trabalhar essa questão da imagem, do estereótipo da América Latina, defini eixos e aí fui em busca dos artistas que tinham poéticas criativas nessa linha. Só cheguei nas galerias depois que tinha escolhido os artistas”, explica, destacando a lógica de funcionamento diferente daquela implantada no SP-Arte, de modo geral, onde tudo começa no convite às galerias e não aos artistas. Porém, artistas como Rafael Pagatini chegaram até ela através do open call aberto pelo festival para que se enviassem projetos dentro da proposta da curadoria. “Eu não poderia achar que conhecia tudo. E dentro dos projetos enviados, encontrei Pagatini”, disse Tala.

Segundo a curadora, é necessário implementar essa troca, esse diálogo entre os artistas latino-americanos. Ela cita o caso do guatemalteco Luis González Palma, que segue uma linha de trabalho muito parecida com a de Cláudia Andujar. Ambos são da mesma geração e, para a curadora, seus trabalhos podem e devem ser postos em diálogo. “Me parece imprescindível que os colecionadores e o público brasileiro conheçam o trabalho de González, num momento em que Andujar também apresenta uma enorme exposição no Instituto Moreira Sales paulista”, defendeu.

O setor Solo é um dos três setores curados da SP-Arte, junto com o projeto Performance, o Master e o Openspace. Marcos Gallon foi o responsável por selecionar seis trabalhos performáticos que se desenvolveram ao longo dos dias de festival, espalhados pelo Pavilhão da Bienal. Um deles foi a performance do artista gaúcho, radicado no Recife, Cristiano Lenhardt. Atoritoleituralogosh (2019) recebeu o prêmio de aquisição da Pinacoteca, dentro de uma proposta de ampliar o acervo de performances da instituição paulistana.

No setor Master, Tiago Mesquita fez uma seleção de artistas dos anos 1950 a 1980, dando prioridade a nomes que, por diversos motivos, não foram muito expostos e que “pensaram as vanguardas depois que as promessas utópicas da modernidade se dissiparam”. A grande novidade do festival foi o Openspace, que levou 17 esculturas e instalações de 15 artistas para a área externa, capitaneada por Cauê Alves, curador geral do MuBE.


Performance Atoritoleituralogosh, Cristiano Lenhardt. 
Foto: Jéssica Mangaba/Divulgação

VALOR SIMBÓLICO
Para Fernanda Feitosa, idealizadora do SP-Arte, esses pequenos setores que reúnem trabalhos de artistas selecionados, a partir de uma proposta curatorial, funcionam como opções para que o público em geral possa nortear sua visita. “Esses setores curados te oferecem essa pequena calma dentro desse ambiente tão diverso. Acho fundamental para que o público possa passear de modo mais fluido, em ambientes mais filtrados”, diz, com razão. Afinal, a cada dia, as galerias mudam seus estandes, trocam obras, expõem novas peças e, em meio a essa profusão de trabalhos de mais de dois mil artistas, sem nenhum fio conceitual norteador, a visita pode se tornar um pouco complicada.

A cada ano, percebe-se a preocupação do festival com essas questões e a implementação de mecanismos que possam agregar ao evento – cujo fim comercial é claro e primordial – outras formas de trabalhar e dialogar com o espectador. E talvez a SP-Arte venha logrando esse objetivo, principalmente com o seu poder de articulação, que consegue movimentar todas as galerias da cidade, ateliês de artistas e as principais instituições culturais no período de sua realização, com a abertura de importantes exposições e mostras, para além do Pavilhão da Bienal. Como estava grafado em uma das paredes do festival: #respirearte. Parece que é isso que a cidade faz, de fato, a despeito de uma certa sensação blasé e elitista que permeia o ambiente.

BALANÇOS
Este ano, o evento manteve o número total de 164 galerias participantes, novamente com um andar dedicado ao design, que dá sinais de ser o setor com maior potencial de crescimento hoje. “Essa área vem ganhando corpo. Como tudo por aqui, vamos sentindo onde e o que está dando certo, ajustando o que não está funcionando. O público vai também captando essas mudanças e reagindo positivamente a elas”, pontuou Fernanda Feitosa, em conversa com a Continente.

Este foi o primeiro ano em que o número total de galerias (arte + design) permaneceu estável em relação ao ano anterior. O crescimento registrado em 2017 e 2018 deveu-se exclusivamente ao setor de design, já que o número de galerias de arte aponta uma redução – eram 134 em 2017, 131 em 2018 e, este ano, 120 –, mesmo seguindo como o carro-chefe do evento.

Esses números não precisam ser vistos como negativos. Não estaria o festival, agora que se aproxima da sua “vida adulta”, alcançando uma dimensão condizente com o mercado nacional, que viveu um verdadeiro boom há alguns anos e parece começar a se acomodar? A “bolha” dos anos anteriores estourou  faz um tempo e, em 2018, o mercado já apresentava sinais de recuperação, com as galerias alcançando resultados positivos na 14ª edição da feira, tendência que parece ter se mantido neste ano.

“Uma pergunta que todos estão me fazendo é se temos planos de aumentar, de crescer. Eu tenho dito: crescer não é nosso objetivo final. Nós não queremos ser o maior evento, nós queremos ser o melhor evento. Qualidade é o que nos move e nos guia”, comentou Fernanda Feitosa.

Circulando pelo segundo andar do pavilhão, principal setor da feira, onde se instalam as grandes galerias de arte contemporânea nacional e internacional, era possível perceber a aposta tanto em artistas renomados e com nomes consolidados no mercado, como também em outros ainda pouco conhecidos. Esse mix foi uma aposta para ampliar as possibilidades de venda.

A galerista pernambucana Lúcia Costa Santos, da Amparo 60, única do estado a participar do evento, seguiu essa lógica. Ao mesmo tempo em que apresentou trabalhos de Delson Uchôa e José Patrício, mostrou obras de jovens artistas como Fefa Lins e Juliana Lapa. Inclusive, o primeiro trabalho comercializado pela galeria, na quarta-feira, foi um desenho de Juliana da série Breu.

Fernanda Feitosa destaca que, ao longo desses 15 anos, o público do SP-Arte tem se expandido – na sua primeira edição, atraiu pouco mais de 5 mil pessoas, chegando, em 2019, a 36 mil – e se tornado bem variado. “Uma coisa que escuto muito dos galeristas é que o seu público tem rejuvenescido. Eles vendiam para os avós, depois para os filhos e agora chegaram os netos”, contou, lembrando que esse público mais jovem deseja encontrar no festival artistas novos, de sua geração, que muitas vezes possuem peças com preços mais acessíveis para quem está iniciando suas coleções.

MARIANA OLIVEIRA é editora-assistente da revista Continente.

*A jornalista viajou a São Paulo a convite do SP-Arte.

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