Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Cobertura

'O farol', ou o outro como medida de si

Há algo já visto antes no filme de abertura da 12ª edição do 'Janela Internacional de Cinema do Recife'

TEXTO Bianca Dias

07 de Novembro de 2019

Cena de 'O farol', de Robert Eggers

Cena de 'O farol', de Robert Eggers

Foto Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Um filme em preto e branco
não é, de fato, preto e branco; não se apresenta como uma separação distinta e contrastante entre duas cores opostas. Um filme em preto e branco é, na verdade, cinzento. O farol (Canadá/Inglaterra, 2019), em múltiplos aspectos, é um filme cinzento.

Antes da obra de Robert Eggers (o mesmo diretor de A bruxa), Virginia Woolf, em seu Passeio ao farol, apresentou-nos um farol como metáfora. Também ela narra uma opressão sofrida, causada pela figura masculina dominante que não permite a concretização do tão ansiado passeio ao farol. Sua luz é vista a distância, não sendo possível se aproximar do seu foco de origem. Persona, de Ingmar Bergman – um filme em preto e branco apontado por muitos especialistas como sendo um filme cinzento como nenhum outro – traz duas mulheres protagonistas vivendo em isolamento numa casa de praia, onde desenvolvem uma relação simbiótica sob a névoa da incerteza acerca do que é real ou não. Ernest Hemingway e Jack London nos legaram um cânone literário em que não resta dúvida: não há possibilidade de vitória do homem diante de um enfrentamento contra a natureza. O meio ambiente selvagem, a natureza exterior, o universo físico, o mundo natural: ele sempre vence.

Há algo já visto antes no longa-metragem que abriu, na noite desta quarta (6/11), a 12ª edição Janela Internacional de Cinema do Recife. Em O farol, como se poderia esperar, encontramos um farol e um faroleiro (Willem Dafoe); apresenta-se a chegada de um novo ajudante de faroleiro (Robert Pattinson), submetido à sua perversidade, figura de autoridade que lhe barra o acesso ao local onde fica a luz do farol; tem-se a relação cada vez mais intrincada entre faroleiro e ajudante, evocando uma espiral crescente de embotamento dos sentidos, avanços e retrocessos sentimentais, helicoide esta guiada pelo estranhamento de duas pessoas obrigadas a uma intimidade forçada, potencializada pelo isolamento de uma ilha estéril e inóspita, castigada periodicamente por tempestades diluvianas e povoada praticamente por pássaros – estes que já vimos no filme de Alfred Hitchcock, ou numa fotografia de Graciela Iturbide.


Willem Dafoe e Robert Pattinson contracenam no filme. Foto: Divulgação

Contudo, por outro lado, e sem que se desvele o enredo da obra, existe igualmente em O farol algo que se apresentará ao espectador como familiar sempre, porque inerente à nossa existência: a natureza humana interior. Esta, por ser inescapável à vontade, nos leva a pensar se o interesse que sentimos por determinadas histórias viria não propriamente dos fatos narrados, mas da maneira como são contados. Temas universais serão repetidos ad eternum na arte porque não há respostas para as, talvez, mais profundas perguntas elaboradas pelo homem acerca dele mesmo.

Quem somos? Quem somos verdadeiramente? O que nos atribui a qualidade de seres humanos? O que faz com que o outro se constitua como humano para nós? O que pode ser retirado de nós sem que nossa humanidade seja perdida, até que reste apenas uma humanidade ínfima, infinitesimal, mas que, mesmo assim, esta humanidade ainda esteja lá? Qual é o mínimo de humanidade admissível? Quem assim definirá, e com base em quê?

Dois indivíduos até então completamente desconhecidos, isolados do mundo, ligados entre si por uma relação abusiva de subordinação, confinados em um ambiente doméstico diminuto, mostram-nos que o limite entre o verdadeiro e o ilusório está em encontrar o ponto de equilíbrio na figura do outro. Nesta situação, pouco importa se existem sereias ou se as aves marinhas guardam as almas dos marinheiros afogados: fugir do passado e buscar o distanciamento físico do resto do mundo não fará com que se consiga deixar para trás a própria consciência; e quando falharmos na tentativa de distinguir a sanidade da loucura, será esse outro que, reconhecendo-nos como seres humanos, atribuindo-nos a qualidade de detentor de humanidade, apontará a necessidade de espelhamento como saída, borrando a zona limítrofe entre subjetividades distintas.

Em seu Elogio da loucura, Erasmo de Roterdã dá voz a esse sentimento: “Todos têm por mim [loucura] a veneração mais profunda, todos gostam de sentir meus benefícios; e, apesar disso, depois de tantos séculos, ainda não se viu um só que tenha se lembrado de celebrar meus louvores por um elogio carinhoso”.

Se há algo que O farol nos ensina é que, às vezes, a luz no topo do farol não é uma luz no fim do túnel e, sem o balizamento do outro, causa cegueira.

O filme tem estreia prevista para janeiro de 2020.

BIANCA DIAS é advogada e leitora diletante.

Publicidade

veja também

As faces de um luto a Joseph Stalin

Filmes para manter no radar

Ao que assistimos na primeira semana da Mostra

comentários