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Um voo para além do silêncio e da solidão

TEXTO Ermelinda Ferreira

01 de Agosto de 2013

O longa 'O escafandro e a borboleta' leva às telas o relato do jornalista que ficou totalmente paralisado depois de um AVC

O longa 'O escafandro e a borboleta' leva às telas o relato do jornalista que ficou totalmente paralisado depois de um AVC

Foto Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de "Mercado editorial" | ed. 152 | agosto 2013]

O que têm em comum a jornalista Lisa Sanders,
colunista da New York Times Magazine e professora da Universidade de Yale, e a crítica literária Rita Charon, professora da Universidade de Columbia? Escritoras americanas, formadas em Medicina, são apaixonadas pela literatura e praticam uma clínica que defende a importância das histórias narradas pelos doentes para o sucesso do diagnóstico.

Numa época em que a ciência torna-se cada vez mais mecanizada e a relação médico-paciente cada vez mais desumanizada, ambas investem na defesa da anamnese (do grego ana, trazer de novo e mnesis, memória), entrevista realizada pelo profissional de saúde destinada a relembrar os fatos que se relacionam à doença e à pessoa doente como um expediente dos mais econômicos e eficientes para a prática médica.

Em seu livro Every patient tells a story: medical mysteries and the art of diagnosis, Lisa Sanders considera que a história clínica muitas vezes é o melhor lugar para se encontrar a pista sobre determinado caso: “é a nossa mais antiga ferramenta diagnóstica e também uma das mais confiáveis”. De fato, a maioria dos diagnósticos – algo em torno de 70% a 90% – é feita com base apenas na história do paciente. Essa eficácia esbarra, contudo, no atual modelo do interrogatório da anamnese que, ao adotar pressupostos generalistas sobre os sintomas de determinadas doenças, direciona-se mais à confirmação ou não das expectativas prévias do médico do que a um questionamento verdadeiramente investigativo.

A falta de treinamento, o reduzido tempo de consulta, o desconforto com as emoções dos clientes são algumas das causas apontadas pela médica jornalista para a tendência dos profissionais de buscar “apenas os fatos” durante a entrevista, interrompendo-a frequentemente. Segundo ela, em gravações de atendimentos médicos, constatou-se que a descrição inicial dos sintomas pelo paciente foi interrompida em mais de 75% das consultas. O estudo indicava que os médicos escutavam os pacientes, em média, durante 16 segundos antes de interromper, e alguns interrompiam a fala do paciente em apenas três segundos. Uma vez suspendida a história, menos de 2% dos pacientes a retomavam, e nenhum deles chegava a completá-la.

Arthur W. Frank, em seu livro The wounded storyteller body, illness and ethics, além de constatar o descompasso entre os avanços científicos e tecnológicos da contemporaneidade e os discursos que sustentam o pensamento pós-moderno e pós-colonialista na defesa da necessidade de expressão da pessoa humana – denunciando situações de sua sujeição aos discursos de poder oficiais e institucionais –, identifica na prática de contar histórias de sofrimento uma “ação moral”, considerando extremamente relevantes os testemunhos de sujeitos individuais, não como matéria para a construção de um “caso clínico” – objeto da investigação profissional –, mas como relatos denunciadores do papel que a doença efetivamente exerceu em suas vidas.

A “medicina narrativa” emergiu, segundo Rita Charon – pioneira nesta área –, em resposta a um sistema de saúde que muitas vezes suplanta as necessidades do paciente através de conceitos e interesses corporativos e burocráticos, gerando no sujeito já fragilizado um sentimento de desamparo, solidão e abandono. Estes, incompatíveis com os resultados práticos que os recursos científicos atualmente disponíveis são capazes de proporcionar em termos de cura ou de alívio para os males do corpo.

Em seu livro Narrative medicine honouring the stories of illness, Charon descreve a “medicina narrativa” como uma atividade destinada à formação de profissionais mais competentes para reconhecer, interpretar e reagir com empatia às narrativas dos doentes, utilizando para isso recursos que vai buscar na Teoria da Literatura – como a compreensão da complexidade temporal dos eventos clínicos e o estabelecimento de conexões textuais através da metáfora e da linguagem figurada –, acreditando que o incentivo à construção de uma genuína relação médico-paciente pode conduzir a uma prática clínica, além de eficiente, mais rica e humanizada.

ESCAFANDRO
A literatura sempre foi profícua na elaboração de retratos de médicos e doentes, bem como de relatos autobiográficos de sofrimentos físicos, mentais e espirituais. Há quem diga, inclusive, que só escreve aquele que sofre, constituindo os textos uma espécie de espelho da alma, cuja eficiência em “dizer” já contribui para o conforto e o alívio de seu autor. Uma das mais belas histórias que ilustram a pertinência da defesa da “medicina narrativa” pode ser encontrada na obra de Jean-Dominique Bauby, de 1997, vertida para o cinema 10 anos depois, por Julian Schabel: O escafandro e a borboleta, verdadeiro ato de tradução do espírito na palavra, que redimensiona a arte.

Nascido em 1952, Bauby era um jovem feliz e realizado, com dois filhos, redator-chefe da revista Elle, quando, aos 43 anos, sofreu um acidente vascular cerebral que o aprisionou nos limites de um corpo com todas as funções motoras deterioradas. Inerte e isolado nesse escafandro, sem esperança de recuperação, ele descobriu – com a decisiva ajuda de sua dedicada enfermeira – um caminho para fora de si mesmo. Juntos, eles elaboraram lentamente um código gestual, baseado nas piscadelas de seu olho esquerdo – o único vínculo que podia estabelecer com o mundo –, e conseguiram escrever um livro inesquecível, comovente e devastador na intensidade de sua verdade humana. A “cura”, nesse “caso clínico” desenganado pela medicina, atingiu uma dimensão verdadeiramente poética, que não teria sido possível sem a correspondência paciente e solidária de sua cuidadora, e sem a força interior e o desejo de superação do ser aprisionado nos limites de um corpo vitimado pela tragédia.

A experiência, em lugar de ser vivida em completo desespero, foi transformada pelo milagre da palavra na razão mesma da existência desse homem, cujo sonho sempre fora escrever um livro. A doença, nesse caso, representou a ponte que forneceu o material para uma narrativa que, de nenhum outro modo, teria atingido a dimensão, a eloquência e a validade que alcançou, em sua qualidade de incomum e rara anamnese. Suas últimas palavras atingem o objetivo almejado por todos os poetas, por todos os médicos, por todos os homens – a alegria de viver, ainda que provisoriamente, ainda que contingentemente, a esperança da redenção:

“Com os cotovelos sobre a mesa rolante de fórmica que lhe serve de escrivaninha, Claude relê esses textos que vimos extraindo pacientemente do vazio todas as tardes, há dois meses. Sinto prazer em rever certas páginas. Já outras nos decepcionam. Juntando tudo dá um livro?... Pelo zíper aberto da bolsinha, percebo uma chave de hotel, um bilhete de metrô e uma nota de 100 francos dobrada em quatro, como se fossem objetos trazidos por uma sonda espacial enviada à Terra para estudar os tipos de habitat, de transporte e de troca comercial em vigor entre os terráqueos. Esse espetáculo me deixa desamparado e pensativo. Haverá neste cosmo alguma chave para destrancar meu escafandro? Alguma linha de metrô sem ponto final? Alguma moeda suficientemente forte para resgatar minha liberdade? É preciso procurar em outro lugar. É para lá que vou.” 

ERMELINDA FERREIRA, professora do curso de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE.

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