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Tristeza passa a ter nome

O termo “depressão” começa a ser mecionado como transtorno psíquico, nos veículos de grande circulação nacional, a partir da década de 1990

TEXTO Marcelo Robalinho

01 de Outubro de 2013

'Morning sun', de Edward Hopper

'Morning sun', de Edward Hopper

Foto Jerzy Palacz/Reprodução

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 154 | outubro 2013]

Embora a depressão esteja presente na mídia
nas últimas décadas, ela só se converteu, de fato, num tema relevante de saúde a partir da década de 1990. Antes, nos anos 1970 e 1980, a maior parte das matérias se referia ao assunto como um mal coletivo mais ligado à ditadura militar, à crise econômica mundial e a um contexto de pessimismo e frustração político-sociais. Só depois é que passou a ser mencionado como um transtorno psíquico dominado por um saber médico-científico. É o que revela a tese de doutorado de Ericson Saint Clair, defendida ano passado na Escola de Comunicação da UFRJ.

A partir da análise de 863 matérias publicadas na revista Veja e no jornal Folha de S.Paulo, entre as décadas de 1970 e 2010, mencionando o sentido psíquico da palavra, Ericson observou um gradual aumento do “protagonismo” da depressão como tema e uma ascensão do sentido científico da depressão. Nos anos 1970, a pesquisa verificou que a apropriação científica da palavra apareceu em 30% dos textos da Folha e 35% da Veja. Nos anos 2000, o percentual na Folha pulou para 78% e na Veja, para 81%.

“Na década de 1990, a depressão muda de estatuto na imprensa brasileira, passando a ser compreendida como um mal tecnicizável, isto é, passível de ser conhecido e instrumentalizado por discursos de competência técnica, a exemplo da medicina, da psicanálise, da psiquiatria e das terapias alternativas”, aponta Ericson. Segundo ele, essa transformação no sentido midiático da depressão é acompanhada por uma reconfiguração da função social dos meios de comunicação a respeito dos problemas de saúde.

“Na prática, os veículos passaram a ensinar o seu público a viver a partir das informações fornecidas pelo universo científico, especialmente aquelas atreladas à noção de risco, encorajando as pessoas a modificarem seus comportamentos diante das descobertas da ciência, num tom claramente pedagógico”, argumenta. Para tanto, Ericson recupera a noção de governabilidade do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), a fim de defender a mídia como um campo de práticas de conduta. “Não um campo no sentido imperativo, que determina normas como mandamentos, mas como uma esfera que delimita possíveis práticas de saúde, cabendo ao leitor escolher o melhor caminho para si diante de um repertório de condutas”, explica.


Em Temperamento forte e bipolaridade, psiquiatra gaúcho aponta Pablo Picasso como um possível “bipolar”. Foto: Divulgação

LEVANTAMENTO
A partir de uma pesquisa feita especialmente para esta reportagem, nos arquivos online das revistas Veja e Época, a Continente listou 24 capas relacionadas, direta ou indiretamente, às doenças mentais. Na Veja, o destaque no regime enunciativo foi observado, pela 1ª vez, na edição de 31 de março de 1999, enquanto, na revista Época, na edição de 5 maio de 2003.

A depressão teve seis capas nas duas publicações, sendo o transtorno campeão nas abordagens, seguido de fobias/pânico, estresse, manias e hiperatividade. As manchetes abordando mudanças de comportamento para combater os males da mente, sobretudo o estresse, foram identificadas em oito capas, de agosto de 2003 em diante, incluindo aí a felicidade e o relaxamento no rol das “boas práticas” que levam a uma vida saudável.

Outra constatação curiosa é a ênfase dada pela Veja às neurociências (três capas) a partir de 2004, indicando o interesse pelas imagens cerebrais na busca pela origem biológica do pensamento e das emoções humanas.

“A mídia tem um papel importante na divulgação dos transtornos mentais, ajudando a desmistificar o assunto. Nos Estados Unidos, sabe-se que metade dos americanos com depressão não se trata, e isso não se deve à falta de recursos”, aponta o psiquiatra Sérgio Tamai.}


A atriz Catherine Zeta-Jones admitiu, em 2011, ser portadora de transtorno bipolar.
Foto: Divulgação

Ele toma como exemplo o caso da atriz britânica Catherine Zeta-Jones, que admitiu publicamente em 2011 ser portadora de transtorno bipolar, problema de saúde bastante comum na atualidade, que se caracteriza por variações bruscas de humor (da euforia à depressão). Calcula-se que 1% a 5% da população seja acometida pela doença, que representa a 6ª causa de incapacidade no mundo e a 3ª entre as doenças mentais, depois da depressão e da esquizofrenia.

“Ver pessoas públicas assumindo suas doenças é positivo, porque faz com que as pessoas com características semelhantes se identifiquem com o problema e busquem ajuda”, defende Tamai.

No livro Temperamento forte e bipolaridade, lançado em 2004, pela editora Armazém de Imagens, o psiquiatra gaúcho Diogo Lara cita a cantora Elis Regina (1945-1982) e os roqueiros Cazuza (1958-1990) e Renato Russo (1960-1996) como potenciais exemplos de artistas brasileiros (antes considerados apenas temperamentais pela imprensa) que apresentavam formas leves da doença.

“Vários outros talentos artísticos, alguns com histórias mais trágicas e conturbadas que outros, poderiam ser citados e analisados, como Pablo Picasso, Salvador Dalí, Mick Jagger, Janis Joplin e Rita Lee, cada um com expressões particulares do universo de seus temperamentos marcantes”, escreve.

Na pintura, o neerlandês Vicent van Gogh (1853-1890) é apontado como um caso exemplar de personalidade bipolar. A intensidade das cores fortes nas suas telas revela a força de sua personalidade, marcada por violência e alucinações que culminaram em seu suicídio. 

MARCELO ROBALINHO, jornalista, mestre em Comunicação, com estudos na relação entre comunicação e saúde.

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