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“Na arquitetura perdida, espaço e luz desaparecem”

A arquiteta e professora Agnès Cailliau, presidente da Docomomo na França, alerta sobre a necessidade de um plano mais eficaz de preservação da arquitetura modernista do Recife

TEXTO Luciana Veras

01 de Maio de 2014

Agnès Cailliau

Agnès Cailliau

Foto Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 161 | mai 2014]

Ela é a presidente da filial francesa do Docomomo,
organização internacional fundada em 1990 com o propósito de catalogar, divulgar e proteger o patrimônio da arquitetura moderna. Como tal, Agnès Cailliau esteve em março no Recife para participar de encontro do Docomomo Brasil. A arquiteta é professora da École Nationale Supérieure d’Architecture de Normandie e possui um escritório voltado para a restauração de monumentos históricos. Em poucos dias na capital pernambucana, constatou a necessidade de um plano mais eficaz de defesa patrimonial. “Vi a arquitetura moderna em todo lugar, mais até do que a arquitetura barroca do século 19. Isso torna as ações de preservação ainda mais urgentes e importantes”, comentou.

CONTINENTE No Brasil, observa-se uma gradual destruição do patrimônio arquitetônico modernista. Como o Docomomo atua na sua preservação na França?
AGNÈS CAILLIAU Na França, infelizmente, não é tão diferente. Não se preserva como se deveria. Não sabemos bem o porquê, mas não se quer proteger esses edifícios e monumentos. Talvez lá seja melhor do que no Brasil, mas não tanto. Creio que há algumas razões. A primeira é que o modernismo é uma arquitetura muito nova, bastante diferente do período anterior, principalmente nos materiais utilizados, como concreto e aço. São, de fato, dois períodos distintos e as pessoas não sabem como olhar para essa arquitetura diferente. Como não foram educadas para entendê-la, preferem não considerá-la. Uma outra razão é que muitos edifícios foram construídos com meios baratos, na pressa do pós-Segunda Guerra, com boas ideias, materiais econômicos e bons arquitetos. Mas depois veio uma época muito rica – les temps glorieux – e as pessoas passaram a considerar esses edifícios não tão bonitos e não tão bons de olhar. Porque o concreto, por exemplo, não envelhece muito bem. E porque há também uma mudança de escala. Aí, as pessoas que não querem ou não podem mais ficar nesses lugares, decidem demolir. Elas querem tirá-los do mapa, mesmo sabendo que há cidadãos que ficam tristes quando veem esses prédios explodidos, demolidos, porque sentem falta daqueles lugares.

CONTINENTE Por que acontece isso?
AGNÈS CAILLIAU Esses edifícios, em princípio, eram ótimos. Mas é claro que, com o tempo, passaram a ter problemas com elevadores, com reformas, e também a sofrer questões de segregação social. Ou seja, são condições não ligadas à arquitetura, até porque, na verdade, são prédios bons, integrados à paisagem, com ótimas vistas. Mas algo já não funciona mais. O Docomomo da França tem lutado contra a demolição desses prédios, alguns dos 1950, mas a maioria da década de 1970, todos com varandas com plantas, como se fossem jardins selvagens, e de altura de três ou quatro pavimentos, no máximo. Acontece que os prefeitos de algumas cidades recebem propostas vultosas, através da Agência Nacional de Renovação Urbana (ANRU) – um órgão criado em escala nacional para ajudar a abater completamente esses conjuntos arquitetônicos –, e preferem demoli-los.

CONTINENTE Nesse contexto, qual o principal desafio do Docomomo?
AGNÈS CAILLIAU O grande desafio é que as pessoas sejam instruídas, principalmente os mais jovens, que cada um possa ser educado sobre esse período interessante e importante da arquitetura, sendo capaz de perceber suas qualidades. A arquitetura modernista é tão ou mais interessante quanto a arquitetura medieval, a renascentista, a gótica ou mesmo a eclética e a barroca. Mas, como podemos educá-los? Creio que, a cada duas gerações, existe uma espécie de lacuna: as pessoas tendem a não gostar do que se construiu nos últimos 30 anos e querem seguir em frente.

CONTINENTE Mas o lógico não seria aprender a olhar para trás e entender o passado enquanto cobiçamos o novo?
AGNÈS CAILLIAU Sim, mas para isso é preciso que as pessoas com expertise, com conhecimento, estejam no centro das instituições estatais, ocupando cargos com poder de dizer “não” e de impedir alguma demolição. Porque o patrimônio arquitetônico, quando se perde, se perde. Não é como pintura ou mobília, que você pode colocar em outro lugar, esquecer-se, e depois olhar de novo e dizer: “Oh, é interessante, quero usar de novo”. Quando a arquitetura é perdida, espaço e luz desaparecem. Não se pode colocar num CD-ROM. Aliás, o triste é que as pessoas, mesmo na França, quando querem demolir, dizem “Ah, não é problema, vamos fazer um filme e vai para o YouTube”. É preciso educação e profissionais no serviço público, no ministério, no governo, para proteger esses edifícios e monumentos. Durante um tempo, isso funcionou, mas o problema é que o governo socialista disse que não pode mais fazer isso. Eles já gastaram dinheiro para os estudos, as demolições, para essa nova arquitetura, e se acham no direito de ir à justiça e pedir de volta, caso alguém os queria impedir.

CONTINENTE Como se posiciona o governo de François Hollande sobre a preservação arquitetônica?
AGNÈS CAILLIAU Hollande é assim (faz um gesto com o polegar para baixo), igual à ministra da Cultura e das Comunicações, Aurélie Filippetti. Em pouco tempo, perdemos muitos lugares. Por exemplo, havia um mercado em Fontainebleau com uma fachada de concreto, que foi demolido. Em um primeiro momento, ficamos felizes quando o governo disse que ia protegê-lo, e classificou a construção como um monumento histórico. Mas, depois, o prefeito da cidade decidiu que não e a ministra Filippetti disse “Bem, não temos o que fazer, vamos desistir”. Aquele mercado era um lugar real, com pessoas que trabalhavam nele, que vendiam seus produtos, que o frequentavam e que não queriam seu desaparecimento. Só que a burguesia não se importa com isso e não quer manter um mercado de concreto.

CONTINENTE Houve outros casos de omissão do governo francês?
AGNÈS CAILLIAU Infelizmente, sim. Em Rueil-Malmaison, região a oeste de Paris, havia um conjunto de escritórios construído nos anos 1960 para a Sandoz, uma companhia farmacêutica. O projeto era de Bernard Zehrfuss (1911-1996), um dos arquitetos do Palácio da Unesco, em Paris, com janelas e estrutura de metal de Jean Prouvé (1901-1984) e a participação do suíço Martin Burckhardt (1921-2007), que compreendia a sede e os laboratórios da companhia. Era um perfeito conjunto modernista, meio tardio, de 1968. Agora, já não existe mais nada. Foi demolido. Mais uma vez, o prefeito venceu o Ministério da Cultura e a ministra não ousou desafiar a prefeitura. Obtivemos muitas assinaturas de arquitetos e o apoio do International Council on Monuments and Sites (Icomos). Colocamos um alerta no site do Conselho, fizemos um dossiê no do Docomomo e, durante dois anos, tentamos combater essa iniciativa, porém não conseguimos. No fim, eles alegaram que o edifício não estava em boas condições, o que não era verdade, e que o novo arquiteto era bom também.

CONTINENTE Como o Docomomo estabelece as estratégias de preservação?
AGNÈS CAILLIAU Na França, tentamos fazer com que todos saibam que esse é um período relevante no mundo inteiro, em que tivemos muito movimento. Arquitetos viajavam, deslocavam-se, e as revistas começavam a ser lidas em todos os países. Foi assim que a arquitetura moderna do Brasil influenciou a França, por exemplo. Em Royan, ao sul de Bordeaux, os arquitetos encarregados da reconstrução depois da guerra foram completamente influenciados por Oscar Niemeyer. Eles viram uma edição da L’architecture d’aujourd’hui – AA com o trabalho de Niemeyer e essa revista influenciou definitivamente os desenhos, os projetos, o planejamento urbano e os conceitos dos edifícios. Hoje, Royan é uma bela cidade.

CONTINENTE Que outros exemplos franceses podem ser citados nesse processo de salvaguarda da arquitetura moderna?
AGNÈS CAILLIAU Dez anos atrás, Le Havre foi classificado como patrimônio mundial pela Unesco. É uma cidade modernista por excelência. As pessoas que viviam lá, e nada sabiam, ficaram completamente estupefatas com a notícia e mudaram de ideia a respeito de sua própria cidade. Repare que, antes da classificação pela Unesco, elas não conseguiam enxergar a importância do conjunto arquitetônico da cidade. Agora, sendo Le Havre um patrimônio mundial, todos estão orgulhosos. Há um imenso outdoor na autoestrada dizendo isso. Como isso foi feito? O professor Joseph Abram, um especialista na obra de Auguste Perret (1874-1954), ajudou a mostrar aos moradores como o projeto de Perret da reconstrução da cidade no pós-guerra possuía extrema relevância. Hoje, existe, inclusive, um apartamento original projetado por Perret que serve de testemunha, com mobília doada pela população. Acredito que iniciativas assim ajudariam muito o Recife. De repente, um apartamento neste prédio (o Edifício Barão de Rio Branco, na Boa Vista) contribuiria para reconhecer e manter o espírito arquitetônico daquela época. 

LUCIANA VERAS, repórter especial da revista Continente.

Leia também:
Um olhar sobre o passado arquitetônico moderno do Recife
Práxis: O papel do cidadão

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