Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

BBC: Um exemplo a ser seguido

A British Broadcasting Corporation, empresa de transmissão britânica, mantém impecável programação cultural e jornalística

TEXTO Marcelo Abreu

01 de Dezembro de 2012

Foto Reprodução

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 144 | dezembro 2012]

O rádio na Europa é coisa séria
e nunca perdeu seu prestígio, mesmo após a popularização da televisão e da internet. O melhor exemplo de sua existência como meio de comunicação de alta qualidade é o modelo vigente na Grã-Bretanha com a renomada BBC. A British Broadcasting Corporation (Empresa de Transmissão Britânica) é um sistema público de rádio que domina as transmissões no país desde a sua fundação, em 1922. Hoje, fazem parte do grupo cinco rádios de alcance nacional, 46 locais, um Serviço Mundial – que transmite em línguas estrangeiras, além de algumas rádios exclusivamente digitais.

A BBC, evidentemente, é também conhecida por seus canais nacionais e internacionais de televisão, sua presença na internet e seu setor de publicações impressas. Mas é no rádio que sua atuação tem mais destaque. O sistema é financiado por uma taxa – a famosa license fee que atualmente custa 145,50 libras, o equivalente a R$ 490,00 (incluindo a transmissão de TV). A taxa é paga anualmente por todas as residências e permite que a BBC não precise ter publicidade. Consequentemente, a emissora não sofreu com a migração de verbas publicitárias do rádio para a televisão como aconteceu em muitos países. O modelo de financiamento permite também que a emissora fique distante da interferência política, das pressões dos governos e do poder econômico.

Esse contexto criou uma situação muito curiosa. Enquanto, no Brasil, o rádio adotou um modelo popularesco da cultura de massas, na Inglaterra, são os tabloides que cumprem esse papel. O padrão de qualidade da BBC foi instituído com muito sucesso entre os anos 1920 e 1950. Quando, na década de 1960, apareceram as primeiras emissoras privadas, o público já estava acostumado ao modelo. O caráter comercial das programações não degringolou em populismo, mesmo havendo hoje mais de 60 rádios privadas na Grã-Bretanha.

Mas o tal padrão BBC não tem nada de sisudo. Na verdade, ele comporta uma programação variada. Cada uma de suas emissoras nacionais tem um foco. A Radio 1 toca novas tendências musicais para os jovens. A relação da BBC com o rock vem da época dos Beatles e inúmeras bandas tocaram e gravaram nos estúdios da emissora. Foi nela que se notabilizou o DJ John Peel (1939-2005), o primeiro a divulgar bandas, hoje consagradas, como Pink Floyd. A Radio 2, a de maior audiência, é a que mais se aproxima de um padrão comercial, tocando sucessos do mainstream. No outro extremo, a Radio 3 toca música erudita (também um pouco de jazz e world music) e transmite debates e palestras sobre alta cultura. A Radio 5 Live é dedicada a transmissões ao vivo, com foco em esportes.

A Radio 4 é um capítulo à parte. Nela, a BBC exercita toda a sua sofisticação, numa emissora sem música, dedicada apenas à palavra falada. Há uma forte presença da literatura, do humor elegante e da dramaturgia. A emissora ainda produz e transmite novelas de rádio, como The Archers, cinco dias por semana, no ar desde 1951.

É na Rádio 4 que são exibidos programas de jornalismo de altíssima qualidade, como o Today, o mais influente programa jornalístico do país, transmitido das 6h às 9h.

O chamado Serviço Mundial da BBC é o braço internacional da emissora. Transmite em inglês, por ondas curtas e satélite, 24 horas por dia, para o mundo todo. O serviço aproveita parte da programação da Rádio 4, mas lhe dá uma embalagem mais internacional, compreensível em qualquer parte, com programas tradicionais, como o Newshour.

No World Service estão situadas as transmissões em línguas estrangeiras. O Serviço Brasileiro, por exemplo, funcionou de 1938 até 2005, transmitindo em português para o Brasil, todas as noites. Teve uma alta audiência, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial e no período da ditadura militar. Longe das restrições impostas pela censura, transmitia notícias para o Brasil que não circulavam por aqui. Ao contrário de outras emissoras internacionais, a BBC não faz propaganda do país que financia as transmissões. Numa decisão que desagradou muitos de seus ouvintes, a emissora encerrou as transmissões para o Brasil e investiu no site BBC Brasil.

O Serviço Mundial chegou a transmitir em 62 línguas estrangeiras, de albanês a vietnamita, usando potentes transmissores em ondas curtas, instalados em vários países. Mas foi reduzindo sua presença no rádio e, hoje, opera em apenas 18 línguas. Porém, se computadas as equipes de estrangeiros que produzem conteúdo (sonoro, em alguns casos) exclusivamente para a internet, são 27 idiomas.

Ainda sob o guarda-chuva da empresa, surgiram na última década cinco emissoras digitais, o que, no caso, não significa transmissão pela internet. O sistema conhecido como Digital Audio Broadcasting (DAB), adorado em alguns países, exige um aparelho de rádio específico para captar o sinal, como se fosse um receptor de TV por assinatura. As emissoras digitais se destinam a atender a públicos mais segmentados como a Radio 6 Music, que toca música pop alternativa, e a Radio 4 Extra, especializada em teatro, programação infantil e reprise de humorísticos. As emissoras que ainda transmitem em FM também podem ser ouvidas no sistema digital.

Toda essa estrutura é mantida por cerca de 23 mil funcionários (incluindo as transmissões de TV), entre os quais milhares de jornalistas e produtores espalhados por Londres, Grã-Bretanha e países estrangeiros.

A existência da BBC fez com que se desenvolvesse uma forte cultura do rádio no país. Desde 1923, por exemplo, circula a revista Radio Times (que pertenceu à BBC até 2011), trazendo toda a grade de programação semanal das principais emissoras. Vende cerca de um milhão de exemplares por semana. Outras duas revistas do gênero são a TV Choice e a What’s on TV, que vendem juntas mais de 2,7 milhões de exemplares.

Há poucos anos, a BBC mantinha uma loja em Londres, onde vendia livros e gravações de alguns de seus antigos programas. Sucessos na área de humor, dramaturgia, e documentários, por exemplo, podiam ser comprados em fitas cassete ou CDs. Atualmente, existe uma loja online que vende esse material e também livros que transcrevem textos lidos no rádio. É o caso dos comentários de Alistair Cooke, correspondente da emissora nos Estados Unidos que, entre 1946 e 2004, apresentou o programa Letter from America (Carta da América). As séries de crônicas de 15 minutos, escritas e lidas por Cooke, semanalmente, tiveram ao todo 2.869 emissões na Radio 4 e no World Service. Foi o mais longo programa apenas falado da história do rádio, e só acabou com a morte do jornalista, aos 95 anos.

Guardadas as proporções, a estrutura da BBC lembra a experiência da fase de ouro do rádio no Brasil, entre os anos 1930-1950. A emissora britânica mantém no seu staff uma orquestra filarmônica, várias sinfônicas e uma orquestra de jazz. Todo ano promove e transmite The Proms, a tradicionalíssima e popular série de concertos de música erudita que ocorre no verão. A BBC, como um todo, mistura alta cultura, excentricidade inglesa, jornalismo crítico de qualidade, valorização da tradição, com um olho para as novidades artísticas contemporâneas e uma dose de bom humor (do tipo britânico, of course).

Por ser a experiência de maior sucesso, o modelo vem influenciando outros países. Foi copiado com esmero no Japão pós-1945 pela NHK, a Nippon Hoso Kyokai (Empresa de Transmissões Japonesas), que instituiu até mesmo a taxa compulsória a ser paga pelos ouvintes. Na Europa continental, apesar da crescente desregulamentação do setor, ainda há uma tradição de grandes sistemas públicos de rádio, com muitas emissoras e programação de qualidade, como é o caso, na França, da Radio France (que abriga a France Inter) e, na Alemanha, da Deutschlandfunk. Mesmo nos EUA, berço do modelo comercial, existe a NPR (antes conhecida como National Public Radio), uma rede de altíssima qualidade. 

MARCELO ABREU, jornalista, professor e autor de livros-reportagem e de viagem, como De Londres a Kathmandu.

Leia também:
O rádio como parte da vida
Os desafios do meio em tempos de convergência

Publicidade

veja também

Pierre Verger: Registros de um Brasil à época desconhecido

[Entrevista] Mauro Rosso

Teste WEB INTERNO DEV (Hugo Campos)

comentários