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"Para mim, não é claro o que se quer dizer com arquitetura sustentável"

Um dos principais nomes em atuação no Brasil, o arquiteto e urbanista italiano Jorge Wilheim considera que há condições de se produzir uma "arquitetura boa"

TEXTO Júlia Kacowicz

01 de Maio de 2013

Jorge Wilheim

Jorge Wilheim

Foto Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de "Arquitetura" | ed. 149 | maio 2013]

Aos 85 anos, o italiano, naturalizado brasileiro,
Jorge Wilheim é um dos principais arquitetos e urbanistas do país. Já teve atuação política como secretário de planejamento e meio ambiente de São Paulo, foi nomeado pela ONU para conduzir a Conferência Habitat II, na Turquia, é escritor e um ferrenho defensor do planejamento estratégico. Foi responsável pelo Projeto do Vale do Anhangabaú, pelo Complexo do Parque Anhembi e pelo Plano Diretor de São Paulo, aprovado em 2002, entre outras obras.

CONTINENTE O que significa o conceito de arquitetura sustentável?
JORGE WILHEIM Para mim, não é claro o que se quer dizer com “arquitetura sustentável”. Permito-me retroceder no tempo: o termo sustentável surge na década de 1980, no título do Relatório Bruntland da ONU, o qual trata do desenvolvimento. Significava a característica, a qualidade que permitiria dar prosseguimento a um processo de desenvolvimento. Posteriormente, o adjetivo virou substantivo: sustentabilidade, e adquiriu tonalidade verde. Finalmente, esse substantivo virou sinônimo de “ambiente bem cuidado” e agora simples palavra em moda, imprescindível ao discurso politicamente correto.

CONTINENTE Nesse sentido, o que seria um projeto sustentável ou soluções arquitetônicas sustentáveis?
JORGE WILHEIM Como explicar uma arquitetura sustentável? Seria uma arquitetura que se mantém? Que não cai? Que envelhece bem? Pensa-se nela como sendo uma arquitetura que não desperdiça materiais, poupa energia, enfim, o que chamo de arquitetura boa. A arquitetura pode ser boa ou má, pioneira ou redundante, adequada ao contexto ou equivocada. Costuma-se chamar de arquitetura sustentável um prédio que tem plantas em sua cobertura, esquecendo que esse mesmo prédio pode estar desafiando a poupança energética por substituir quebra-sóis por fachadas de vidro. Para que um desenvolvimento seja sustentável é preciso que diversas condições econômicas e sociais sejam atendidas, além das ambientais!

CONTINENTE O avanço da tecnologia contribui para o desenvolvimento soluções mais sustentáveis?
JORGE WILHEIM Soluções tecnológicas são avanços, porém são neutras quanto ao seu uso. A tecnologia para a matança de judeus nos campos era muito avançada e servia a seus perversos objetivos. High tech é, em tese, um avanço pelo seu uso para beneficiar um espaço dar mais conforto aos seus usuários. Ou, ao contrário, pode também ser um trambolho que os usuários do espaço em questão não sabem usar, nem manter. O ambiente doméstico ou o de trabalho depende de muitos fatores: escala, luz, cor, som, relação com exterior, condições e conforto de uso. Não é tão importante a tecnologia que é empregada para otimizar esses fatores, embora seja natural que se empregue a melhor solução tecnológica.

CONTINENTE O senhor se descreve como um otimista. Acredita que estamos no caminho certo? As pessoas estão mais conscientes e ativas?
JORGE WILHEIM Sim, as pessoas estão mais conscientes e ativas. Existem centenas de grupos e ONGs desfraldando suas bandeiras, a sociedade brasileira está ficando mais exigente e sábia. Apesar de ainda persistirem vícios de formação, personalismos, pragmatismo e outros. Um bom exemplo do uso da inteligência direcionada à preservação da natureza é o etanol como combustível, é menos poluente. 

JÚLIA KACOWICZ, jornalista, especializada em meio ambiente.

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