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"Não me vejo com 80 anos"

O pianista e compositor João Donato fala sobre sua carreira, parcerias musicais ao longo da vida, Rio Branco, sua terra natal, e o fato de, apesar da longeva idade, estar sempre antenado com o novo

TEXTO Marcelo Robalinho

01 de Agosto de 2014

João Donato

João Donato

Foto Ekaterina Bashkirova/Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de "Perfil" | ed. 164 | ago 2014]

A conversa com João Donato fluiu de forma tão espontânea
que se estendeu por mais de duas horas, na noite de 25 de maio deste ano, na véspera de uma de suas turnês fora do Brasil, na sala de música da sua casa, na Urca. O tempo foi o elemento principal do encontro. Tempo de suas recordações musicais e os projetos previstos para este ano, como a realização de uma suíte sinfônica popular baseada em Debussy e Ravel, até a forma como encara a música e a própria idade. “Não me vejo com 80 anos, talvez uns 60. É como me sinto. Tomara que permaneça assim para que eu faça 100 anos do mesmo jeito, sem sentir o tempo passar”, diz Donato, nascido em Rio Branco, no Acre, no dia 17 de agosto de 1934, e que este ano completa também 65 de carreira.

CONTINENTE Sua irmã foi quem lhe despertou o gosto pela música?
JOÃO DONATO Todas as manhãs, ela praticava as escalas do piano na casa dos meus pais. Acabou se tornando um hábito diário acordar e escutá-la estudando o instrumento, tornando o ouvido da gente musical de certo modo. Aquilo deve ter me influenciado muito. Depois, ganhei um acordeão de brinquedo no Natal e aí comecei a tirar umas músicas de ouvido. Aí o pessoal lá de casa viu que eu tinha jeito para a música. Contrataram uma professora para me dar aula particular. Isso foi lá pelos cinco, seis anos de idade. Depois, ganhei um acordeão de verdade, aos sete anos. Também aprendi com os músicos da banda militar do quartel, porque o meu pai era comandante.

CONTINENTE É verdade que você chegou a ser recusado pelo Ary Barroso para tocar no programa dele?
JOÃO DONATO O programa dele era famoso. Fui lá e não me deixaram apresentar porque eu era muito pequeno. O Ary me mandou voltar. Ele disse: “Eu não gosto de meninos-prodígio no meu programa”, como quem diz “Você vai ser aplaudido mesmo que não seja tão bom, só porque é criança”. Não entendi na época. Nunca encontrei o Ary depois disso e não consegui mais falar com ele, de quem sou muito fã.

CONTINENTE Como se dá o seu processo de composição? Você tem uma rotina ou deixa que a inspiração apareça?
JOÃO DONATO Geralmente, vou para o piano e fico tocando aleatoriamente sem muita preocupação. Daí vem a ideia de praticar uma escala, acordes, uma sucessão de harmonias ou de tocar uma melodia que já existe, até que eu me veja envolvido numa música que está querendo aparecer. Mas não tenho um processo específico. Geralmente, você sente um interesse maior e que algo está dando certo. A gente percebe o momento em que a música toma sentido, da mesma forma que o poeta sabe os versos chegando. Você começa a gostar do processo da criação, como se ela fosse sua. Não tenho a intenção de fazer uma música por dia. Se fizer uma ou nenhuma, é natural.

CONTINENTE Mesmo assim, você costuma ter muita produção nova.
JOÃO DONATO É verdade. Costumo fazer música com bastante frequência. Estive observando alguns colegas. Eles não produzem tanta música assim como eu produzo. Alguns ficaram com aquelas músicas que eles costumam ter e não criaram mais nada. Estou sempre com uma ideia nova, um parceiro novo.

CONTINENTE Você tem uma abrangência de parceiros grande, que vai desde a MPB até o rock. Como se dão essas parcerias?
JOÃO DONATO É tudo natural. A gente vai conhecendo as pessoas no caminho, trocando telefone, trocando ideias e, de repente, encontra-se no estúdio e mostra uma música. Algumas vezes, acontece também de maneiras inesperadas.

CONTINENTE Poderia citar um caso?
JOÃO DONATO Fiz uma com o Martinho da Vila agora, Suco de maracujá, que eu tinha feito originalmente para a Martnália. Estava numa fita escrito “samba para Martnália”. Aí eu a encontrei e disse: “Tem um samba para você que eu queria que fizesse a letra”. Ela me perguntou: “Como eu vou fazer uma letra de um samba para mim? Melhor pedir ao meu pai”. Então, falei com Martinho. Semanas depois, ele me mandou o CD com a música gravada.

CONTINENTE Qual a influência do Acre na sua música?
JOÃO DONATO Rio Branco é uma cidadezinha que é rodeada de mato. Natural, né? Um lugar pequeno, no Norte do Brasil. Tem muito essa coisa das águas, que são todas verdes, e os rios, que são todos amarelados, barrentos. Então, isso é o que mais vejo quando fecho os olhos e componho. Vejo chuva, canoas passando, gente se molhando, os guarda-chuvas abertos, aí vejo as comidas todas, o tacacá, o tucupi, as frutas, cupuaçu, açaí... Aí vem a infância. Isso é a essência da minha música. As outras coisas são complemento. A minha terra é muito bonita. O Acre pretende ser diferente do resto do Brasil em termos de modismos, não sendo ditado pelas televisões. O pessoal lá tem outro modelo de vida, que não é esse globalizado. O povo acreano se acha especial.

CONTINENTE Você falou certa vez que prefere compor na quietude. Você ainda continua assim?
JOÃO DONATO Prefiro compor à noite. O silêncio é maior. Existe menos trânsito, menos telefone, menos barulho. Gosto de compor ou de ouvir música, tanto faz. No silêncio é que a gente ouve a voz de Deus. Então, pode vir através de uma inspiração musical, literária ou um simples pensamento. No silêncio, você ouve alguma coisa. No barulho não dá para ouvir.

CONTINENTE Muitos críticos de música dizem que você é um artista à frente do seu tempo ou um artista certo que está no tempo errado. Você concorda com isso?
JOÃO DONATO Não acho nada. Sei que estou vivendo esta época de agora. Tive meus problemas no início, mas quem não os teve também? No começo, todo mundo tem dificuldade para expressar suas opiniões. O próprio João Gilberto teve problemas para começar a carreira. Debussy, meu grande ídolo, foi reprovado três vezes no Conservatório de Paris. Ou seja, não é por causa disso que a gente tem de desanimar. Muito pelo contrário. Quando a gente acredita fortemente no que faz e pensa, tanto faz. Os obstáculos só servem para fortalecer a pessoa a buscar outros caminhos.

CONTINENTE Você ainda mantém contato com o João Gilberto?
JOÃO DONATO Nós paramos de nos falar. Na verdade, ele parou de atender o telefone. Então, eu parei de ligar.

CONTINENTE Como surgiu a ideia de trabalhar a obra de Debussy e Ravel numa suíte sinfônica?
JOÃO DONATO Há mais de 20 anos, venho estudando as obras deles, através dos livros editados com suas orquestrações. Comecei a me interessar por isso e tentar traduzir aquelas notas todas criadas para a orquestra e para o piano. Aquilo foi me dando um interesse maior. Comecei a gravar num piano sampler, em que você grava diversas coisas simultaneamente e ouve tudo ao mesmo tempo depois: flauta, clarinete, oboé, trompas, violinos, harpa. Tive vontade de botar ritmo em certos lugares, porque as músicas deles te oferecem bastante balanço. Coloquei um ritmo para dar um tempero maior. A Ivone, minha esposa, deu a ideia de escrever isso de verdade, para tocar no teatro com orquestra. Aí eu me envolvi com o projeto e resolvi selecionar as partes que admiro mais neles, trazendo-as para meu mundo e fazendo uma suíte sinfônica popular. Será uma coisa semi-clássica. São temas deles aos quais acrescentei piano, contrabaixo, bateria e percussão, em determinadas composições. Vai ficar um negócio muito bonito.

CONTINENTE O Donatinho também toca piano. Como é ter um filho músico?
JOÃO DONATO Acho maravilhoso vê-lo tocando. Ele aprendeu tudo sozinho. Chegou a ir à Escola do Antônio Adolfo quando morava comigo, antes de eu me casar. Ficou um pouco lá e depois saiu. Disse que já estavam ensinando a ele o que sabia. Hoje o observo tocando com todas essas pessoas da MPB: Vanessa da Mata, Djavan, Gilberto Gil, Marcelo D2, Fernanda Abreu, Baby do Brasil. Estamos para fazer, inclusive, um disco juntos, Donatão e Donatinho. Talvez seja gravado este ano. Como tem muita comemoração, não sei se sairá. Vamos criar tudo novo e será um disco de estúdio. Não sabemos como vai ser, apenas que seremos eu e ele juntos.

CONTINENTE Você já disse que não se vê com 80 anos. Com quantos anos você se vê?
JOÃO DONATO Não sei, mas 80 anos não é. Talvez uns 60. É o que eu sinto, como uma sensação térmica. Quando tinha 25, era 25 anos mesmo. Mas, depois dos 50, começou a mudar um pouco. Dos 60 para os 80, não vi muita diferença. Começou a ficar tudo um pouco igual o tempo todo. Tomara que permaneça assim para que eu faça 100 anos do mesmo jeito, sem sentir o tempo passar. 

MARCELO ROBALINHO, jornalista e doutorando em Comunicação e Saúde.

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