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Crítica

Os anos

A autobiografia como característica da escritura da francesa Annie Ernaux, do primeiro ao mais recente romance

TEXTO KELVIN FALCÃO KLEIN
ILUSTRAÇÕES JANIO SANTOS

02 de Setembro de 2019

Ilustração Janio Santos

[conteúdo na íntegra | ed. 225 | setembro de 2019]

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O PERCURSO
A escritora francesa Annie Ernaux, nascida em 1940, trilhou um longo caminho até chegar à sua obra-prima Os anos, traduzida há pouco no Brasil por Marília Garcia e publicada pela editora Três Estrelas. Muitas vezes o leitor que entra em contato com uma única obra de um autor perde a perspectiva ampla de um trabalho que se dá no tempo, pouco a pouco, por meio de um complexo jogo de tentativa e erro.

Ernaux começa a publicar ficção em 1974, lançando pela Gallimard o romance Les armoires vides, o relato em primeira pessoa de uma protagonista estudante de Letras que revisita a infância e a adolescência. Essa primeira obra já carrega o elemento central da poética de Ernaux, ou seja, o intenso uso do autobiográfico e da escrita de si, fazendo da ficção uma espécie de laboratório de experimentação da subjetividade. Na ficção de Ernaux, contudo, o “eu” é com frequência mais uma fonte de dúvidas do que de certezas.

Em 1983, Ernaux lança seu quarto romance, La place, que recebe o Prêmio Renaudot no ano seguinte. O tom mais uma vez é autobiográfico, sendo o motivo central da narrativa a perda do pai. A partir desse evento de luto, a narradora revisita os momentos da vida paterna que a memória da filha permite resgatar. Seu romance posterior, Une femme, de 1988, segue o mesmo procedimento, mas agora com a figura da mãe, também recentemente falecida. Muito tempo depois, em 2011, Ernaux publica L’autre fille, espécie de romance-carta endereçado a sua irmã, morta ainda criança, antes do nascimento da escritora.

Ernaux lança em 1992 seu único romance traduzido no Brasil antes de Os anos: chama-se Paixão simples e foi publicado pela Objetiva em 1994 (com tradução de Adalgisa Campos da Silva). Em entrevista à Folha de S.Paulo na época do lançamento, respondendo à pergunta “O livro é completamente autobiográfico?”, Ernaux responde que sim, “completamente”, que é uma escrita “totalmente fundada nos fatos, no que eu fazia, uma atitude de escrita completamente materialista”. O que aparece no romance, continua ela, são “coisas como não passar o aspirador, não saber se devia começar a me preparar fazendo as unhas, ou fazendo coisas para comer. Essas pequenas coisas são muito precisas”.

A ênfase no gestual cotidiano é fundamental na produção ficcional de Ernaux. Alguns anos depois, em 2000, ela lança o romance L’événement, uma narrativa sobre aborto e cuja protagonista se chama Annie Ernaux, tem 23 anos e estuda na cidade de Rouen. Para escrever esse livro, a autora retoma os próprios diários do ano de 1963, intercalando esses registros com uma série de reflexões sobre o presente da narradora no início do século XXI. Ernaux começa a fazer uso do diário como recurso narrativo já a partir de 1993, com a publicação de Journal du dehors, que cobre o período de 1985 a 1992. Com La vie extérieure, lançado também em 2000, ela retoma a apresentação diarística cobrindo o período de 1993 a 1999.

O uso imaginativo da sucessão temporal é recorrente na obra de Ernaux, constituindo um dos principais recursos para sua renovação dos gêneros e da escrita de si. Esse percurso de aprimoramento do registro diarístico e de um estilo distanciado, em terceira pessoa, é o que levará a autora à publicação, em 2008, de Os anos, romance que, mesmo não utilizando as balizas tradicionais do diário – a marcação continuada de dias, meses e anos –, explora abertamente suas possibilidades.

OS ANOS
Em paralelo à escrita de ficção, Ernaux manteve uma longa carreira como professora de Literatura, atividade que também marca forte presença nas suas narrativas. Ainda que determinante para a escolha de suas referências e para a procura de um estilo burilado e cuidadoso (muito nas trilhas antigas de Flaubert), a faceta de professora é apenas uma dentre as várias que compõem a narradora de Os anos.

Tudo começa com aquilo que a narradora chama uma “peça do arquivo familiar”, uma fotografia de um “bebê gorducho”, provavelmente tirada em 1941. De criança, a narradora passa a adolescente, e assim por diante, alcançando a idade adulta, o casamento, os filhos, os empregos, ocupando uma série de papéis sociais simultâneos – filha, estudante, esposa, mãe, professora, intelectual, amiga, cidadã e assim por diante. “Os anos” da narrativa são justamente o recheio dessa vida complexa, que se transforma diante do mundo e a partir do contato com outras vidas.

A infância da narradora é marcada primeiro pela guerra e, em seguida, pelo imediato pós-guerra. Em volta da mesa, nas refeições em família, “eles nunca se cansavam de contar daquele inverno de 1942, glacial, a fome e o nabo, as provisões e os vales de cigarro, os bombardeios”, escreve a narradora. A criança entra em contato com os primeiros confrontos entre gerações, algo que ela não entende e que só processará muito adiante: “geralmente comparavam essa guerra com a anterior”, escreve ela, “vencida no sangue e na glória”, “comparavam os soldados no lamaçal das trincheiras aos prisioneiros de 1940, que ficaram ao abrigo e protegidos do frio durante cinco anos e não receberam bombas na cabeça. Discutiam qual tinha mais heroísmo e mais desgraça”.

As gerações se sucedem e a narradora de Os anos realiza continuamente o trabalho de se medir diante delas: em primeiro lugar, a criança diante dos pais e dos avós; em seguida, a jovem adulta que pensa em seu lugar no mundo e as reivindicações de seus contemporâneos (o Maio de 1968, as eleições); adiante, já com filhos pequenos, a narradora observa a emergência de outra juventude, com questões radicalmente diversas da sua, já ultrapassada; o mesmo movimento se repete com a mulher madura, vendo os filhos crescidos e, finalmente, com a mulher idosa, já diante de uma neta, que senta em seus joelhos para uma fotografia.

As fotografias são outro ponto central para a narrativa de Os anos, do início ao fim. Começando como um bebê gorducho, a narradora se fará ver a partir da descrição das fotografias que resgata do arquivo familiar, até a última, na qual ela aparece “em uma grande poltrona abraçando uma menina que está sentada sobre seus joelhos”. As fotografias não aparecem reproduzidas no livro, mas são continuamente requisitadas na história, descritas e postas em movimento justamente pela vividez da narração.

As fotografias familiares são imediatamente reconhecíveis, apelam de modo direto ao leitor – isso porque o álbum familiar é uma espécie de rito íntimo que é compartilhado socialmente. Além disso, as fotografias descritas pela narradora de Os anos são compostas de poses, gestos, sorrisos e movimentos corporais que são também reconhecíveis dentro de uma circulação social, como a foto da avó com a neta, ou as fotos de casal sobre a grama, as fotos de família no sofá, de casamentos, formaturas e assim por diante.



“Na foto preto e branco tirada dentro de casa”, escreve ela, “uma mulher e um menininho sentados um ao lado do outro sobre uma cama arrumada como um sofá, cheia de almofadas, diante de uma janela com cortinas de voal e, na parede, um enfeite africano”. O verso da foto indica a origem, com uma inscrição feita à mão: “Rue de Loverchy, inverno de 1967”. As fotografias que pontuam a história de Ernaux são sempre compostas por aquilo que aparece e por aquilo que não aparece, ou seja, o que está por trás, quem fez uso da câmera e qual o contexto. “Foi ele quem tirou a foto”, escreve a narradora, “ele, que está invisível aqui, o estudante jovem e instável que, em menos de quatro anos, se tornou marido, pai e funcionário administrativo em uma cidade serrana”.

É interessante notar como esse uso da imagem aparece em outros pontos da produção de Ernaux. Em parceria com Marc Marie, ela lança em 2005 – pouco tempo antes da publicação de Os anos, portanto – o livro L’usage de la photo, uma combinação narrativa de texto e imagem, um livro que busca pensar “o uso da fotografia” a partir de fragmentos que buscam tanto comentar como expandir aquilo que é mostrado visualmente. Mais recentemente, em 2013, Ernaux lançou Retour à Yvetot, um livro que reúne uma conferência dada em homenagem a sua cidade natal, acompanhada de uma série de fotografias de seu álbum pessoal. Nesse aspecto, a obra de Ernaux lembra alguns momentos da produção da artista visual Sophie Calle, também francesa, especialmente seu inclassificável livro Histórias reais – lançado no Brasil pela Agir em 2009, com tradução de Hortencia Lencastre.

Em Os anos, as fotografias servem também como contraste para a memória e sua instabilidade. Se, de um lado, está a materialidade fixa das fotografias, de outro, está a maleabilidade dos relatos e das versões, o jogo da memória e da rememoração. Diante de uma mesma fotografia, pessoas diferentes terão distintas versões dos fatos, e a narradora de Ernaux em Os anos frequentemente explora esse caráter digressivo da memória. “Dessa época não vivida, guardariam uma saudade persistente”, escreve ela sobre as histórias escutadas na infância. “A memória dos outros daria a eles uma nostalgia secreta por esse momento perdido por pouco, e a esperança de um dia poder viver tudo aquilo”.

A infância está enraizada no terreno fértil da narrativa oral dos adultos, pais, avós e bisavós. A vivacidade dos relatos – feitos ao redor da mesa, no tempo generoso das refeições em família nos dias de descanso – cria uma nostalgia que perdurará ao longo de toda a vida. Décadas depois, o registro é radicalmente diverso: “O registro heterogêneo e contínuo do mundo, à medida que o tempo passava, era transmitido pela televisão. Uma nova memória estava nascendo”. A partir dos anos 1970, há uma intensificação no consumo e uma proliferação das “coisas” e das “mensagens”. “Apenas os fatos mostrados na televisão tocavam a realidade”, ela escreve, “todo mundo tinha um aparelho colorido em casa”. As gerações não se encontram mais ao redor da mesa e, sim, diante da televisão: “os laços com o passado se esvaíam, apenas o presente importava”.

OS OUTROS
A narrativa de Os anos nos faz acompanhar o nascimento, crescimento e amadurecimento de uma mulher que conta sua história na terceira pessoa – até as últimas páginas do livro, quando a voz em terceira pessoa encontra seu “eu” no presente. Contudo, essa progressão alcança uma amplitude que faz a história expandir os próprios horizontes. Em paralelo à história dos anos de uma vida, encontramos também a história da Europa e da França, seus presidentes, suas crises de imigrantes, ataques terroristas, manchetes bombásticas da imprensa, morte de intelectuais e celebridades, enfim, um vasto contingente de detalhes que costuram a subjetividade da narradora ao cenário social mais amplo.

Ao longo desse percurso, muitos nomes são citados – Sartre, Simone de Beauvoir, Mitterand, Aldo Moro – e muitos eventos de ampla repercussão são mencionados –, da Libertação ao 11 de Setembro. Nessa perspectiva, o romance de Ernaux oferece uma sorte de retrospectiva indireta da cultura francesa ao longo da segunda metade do século XX. É possível recordar, por exemplo, o romance que Georges Perec lança em 1965, As coisas: uma história dos anos sessenta, livro de estreia do autor, com o qual vencerá o Prêmio Renaudot (que Ernaux receberá quase 20 anos depois). Encontramos em Perec o mesmo frenesi do consumo e da novidade que vemos na rememoração de Ernaux, com a diferença que Perec escreve no calor do momento.

O mercado de trabalho é outro personagem permanente em Os anos – a colocação profissional da narradora e de sua geração, em primeiro lugar, e, adiante, o cenário bem mais limitado reservado à geração de seus filhos. As críticas à burocratização da sociedade e o inchaço dos centros urbanos, que encontramos em Os anos, remetem a outro escritor francês que construiu sua fama inicialmente a partir de um retrato ácido desses ambientes: Michel Houellebecq. O autor, que lança Extensão do domínio da luta em 1994, pode ser visto como uma das tantas personalidades históricas que saem renovadas da narração de Os anos, tendo seus projetos pontuais de análise da realidade francesa vitalizados pelo movimento panorâmico que Ernaux oferece em sua obra.

A PRIMEIRA PESSOA
Por fim, é preciso chamar a atenção para a grande inovação formal que Ernaux experimenta em Os anos. Trata-se da inesperada junção que ela promove, nas páginas finais do romance, da terceira pessoa que narra a história – essa mulher distanciada, um “ela” que vive nas fotografias – com a primeira pessoa que diz “eu” no presente da escrita. A memória alcança o presente e a figura criada pela narradora, depois de seu mergulho no passado, vem à superfície e se sobrepõe a uma voz que diz “eu” e que planeja escrever o romance que estamos lendo.

“A sequência de vazios que separam todas as imagens que ela tem de si no passado”, escreve a narradora, “se interrompe ali naquele ponto”. Esse ponto é o momento do contato, quando a rememoração encontra o presente imediato. “Um sentimento de urgência substituiu o sentimento de futuro e é ele que a atormenta agora.” O passado se esgota quando se interrompe a narrativa delineada para dar conta dele – é preciso dar outra direção ao exercício da escrita. “Ela precisa dar agora mesmo uma forma por escrito para esta ausência de futuro, precisa escrever este livro”, escreve a narradora, falando que o artefato que agora temos em mãos “ainda está em estado de esboço, com milhares de notas”. J. M. Coetzee, outro gigante da literatura contemporânea, já usou o mesmo recurso em alguns de seus livros – mas essa junção entre “ela” e “eu” é algo que encontramos só em Os anos.

Como encerrar um livro que se pretende uma autobiografia distanciada, uma retrospectiva que parte do nascimento e vai, passo a passo, até o presente? Ernaux reconhece a complexidade de seu projeto no momento em que ele está em vias de se encerrar. Desse modo, transforma uma narrativa sucessiva e acumulativa em uma reflexão extremamente pertinente sobre o exercício de contar histórias e sobre os becos sem saída inerentes ao ofício. O desejo é o de encontrar “a memória da memória coletiva a partir de uma memória individual”, e com isso “apresentar a dimensão vivida da História”. Isso só pode gerar “uma narrativa escorregadia, no pretérito imperfeito e absoluto”, que vai, “pouco a pouco”, “devorando o presente até a última imagem de uma vida”.

A receita de viver na terceira pessoa parece ser uma sugestão para viver fora do automatismo das respostas prontas, do consumo irrefletido e do apagamento compulsório do passado. Em Os anos, Annie Ernaux apresenta um experimento narrativo que leva o leitor a repensar seus próprios “anos”, sua própria memória e posição no mundo. “Não existia esse mundo inefável que surgiria magicamente de palavras inspiradas”, escreve a narradora ao fim do romance, e conclui: “o livro a ser feito representava um instrumento de luta”. Não há mágica na literatura, portanto, e, sim, o esforço de fazer sentido através da história, lutando para que certas visões – obscurecidas no passado – possam emergir à superfície e assombrar a todos nós.

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Extra: Confira os trechos iniciais do romance Os anos.
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KELVIN FALCÃO KLEIN, professor de Literatura Comparada na Unirio, autor de Wilcock, ficção e arquivo (2018).

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