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Crítica

Um Nordeste para além de registros identitários

TEXTO BÁRBARA BURIL

03 de Julho de 2019

'ABC da cana' (2014), de Jonathas de Andrade, integra a coletiva

'ABC da cana' (2014), de Jonathas de Andrade, integra a coletiva

Foto Eduardo Ortega/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 223 | julho de 2019]

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Assim como as pessoas, o Nordeste também pode ocupar muitos lugares em uma relação, porque ele não é apenas, em si mesmo, um lugar, mas também (e principalmente) uma posição. O Nordeste tem sido interpretado a partir de um outro que o inferioriza, pelos pressupostos de ser menos “produtivo” e “desenvolvido”, por falar com menor correção gramatical e polidez que o Sul e o Sudeste do Brasil, entre outros aspectos de subalternidade construídos ao longo do tempo.

Essa “identidade nordestina”, compreendida como a face deteriorada de outra face mais polida, é problematizada na exposição À Nordeste, com curadoria de Bitu Cassundé, Clarissa Diniz e Marcelo Campos, em cartaz no Sesc 24 de maio, em São Paulo, até o dia 25 de agosto. A mostra é grandiosa: conta com mais de 300 obras. Participam da exposição 160 artistas, nem todos nordestinos, nem todos brasileiros.


Frame do vídeo Teile e Zaga (2019), encomendado para a exposição à instagramer Alcione Alves. Foto: Divulgação

No entanto, não se trata de um panorama da arte feita no Nordeste, com a intenção de mostrar “isto é o Nordeste”, como se, através de um arranjo bem-delimitado pudéssemos, enfim, identificar os aspectos de uma arte propriamente nordestina. Tampouco essa mostra se forma por subtração, como se, ao excluirmos os artistas não nordestinos, pudéssemos finalmente encontrar a “alma” nordestina no cerne de trabalhos feitos apenas por nordestinos. Aqui, não somos nordestinos por subtração, para parafrasear o crítico literário Roberto Schwarz, no ensaio Nacional por subtração, através do qual busca pensar o nacional não como algo que se conquista através da subtração de elementos estrangeiros, mas justamente segundo a lógica que põe justamente em colapso as ideias de nacional e estrangeiro, original e cópia, autêntico e inautêntico.

O que essa mostra problematiza – logo no centro de São Paulo, para onde tantos nordestinos já foram em busca de alguma prosperidade, mesmo que às custas de muita submissão – é um Nordeste que é percebido não só pelos sudestinos e sulistas, mas também pelos próprios nordestinos como um espaço geográfico dotado de uma identidade específica. Comumente pensamos o Nordeste como se ele tivesse um caráter, um significado só dele, como se ele fosse uma coisa só: o Nordeste do sol imenso, de tons ocres, da terra rachada, dos corpos retirantes, da fé irracional, do misticismo monárquico, do litoral, por exemplo. Assim como fazemos com as pessoas, também nos referimos ao Nordeste como um espaço geográfico portador de uma identidade – isso porque é mais fácil organizar a realidade dessa maneira. Também é mais fácil interagir com as pessoas desse modo: como se elas portassem, de fato, uma identidade.

No entanto, nem nós, pessoas, nem o Nordeste nos submetemos tão facilmente a organizações identitárias. Nesse sentido, se é possível falar de algo que é especificamente nordestino (se é possível afirmar que há algo essencialmente nosso, humano), é o seu caráter indomável. Por isso que os curadores resolveram crasear o Nordeste, com o título À Nordeste. Porque esse espaço geográfico só poderia ser compreendido em relação; em movimento. Como acontece com a fotografia, parece que só conseguimos capturar as pessoas, e também os caracteres de um lugar, por partes.

A fotografia nos oferece uma construção apenas parcial de um instante, mas nunca a completude de um evento. Também só nos aproximamos do Nordeste capturando uma parte dele; mas isso não quer dizer que poderemos um dia compreendê-lo, se fizermos uma catalogação de tudo o que já foi feito na região. Se assim o fosse, compreenderíamos a história do mundo em uma visita ao Louvre. Mas não é assim que podemos entender as coisas.

Nesse sentido, o que encontramos na exposição À Nordeste é um conjunto amplo e diversificado de trabalhos que se referem a questões variadas, organizadas como eixos temáticos na mostra. São eles: “futuro”, “insurgências”, “(de)colonialidade”, “trabalho”, “natureza”, “cidade”, “desejo” e “linguagem”. Essa separação temática funciona apenas como caminho orientador para o visitante, uma vez que a maior parte dos trabalhos não apenas passeia por mais de um eixo, como também extrapola as categorias temáticas pensadas pelos curadores. As obras de arte escolhidas não se reduzem aos eixos especificados, tampouco sintetizam uma ideia global do que é o Nordeste. No máximo, apontam para imagens parciais da região. Imagens interpretativas sobre o Nordeste que, inclusive, concorrem entre si.


Na série Paridade (2017), Gê Viana faz um contraponto entre indígenas assassinados e remanescentes que resistem. Foto: Divulgação

Encontramos, portanto, os pernambucanos Vicente do Rêgo Monteiro e Lula Cardoso Ayres. Do primeiro, a obra Atirador de arco (1925). Do segundo, Boiada (sem data específica, compõe série criada entre 1940 a 1950), Tatu (1940) e Lavadeiras (1951). Com eles, encontramos uma imagem particular do Nordeste, deparamo-nos com retratos de uma elite pernambucana sobre a vida no Nordeste.

No livro A invenção do Nordeste e outras artes, publicado em 1999, o historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr. refere-se aos pintores Cícero Dias e Lula Cardoso Ayres, mas também à obra sociológica de Gilberto Freyre e a romances de autores como José Américo de Almeida, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz como responsáveis pela criação de um Nordeste que tem saudades de sua época de riqueza, do fausto da casa-grande, da “docilidade” da senzala, da “paz e estabilidade” do império.

“O Nordeste é gestado como o espaço da saudade dos tempos de glória, saudades do engenho, da sinhá, do sinhô, da Nega Fulô, do sertão e do sertanejo puro e natural, força telúrica da região”, escreve o historiador. É o Nordeste do passado, elaborado por uma elite rural que não encontra mais o mesmo prestígio anterior, embora ainda assuma diversos cargos políticos, como se esses fossem bens privados que devessem ser herdados pelas gerações seguintes (e as oligarquias do presente são testemunhos dessa persistência).

Por sua vez, esse Nordeste elaborado por uma elite que tem saudades de seu passado de glória rural é ironizado em trabalhos artísticos também encontrados na exposição. No vídeo O palhaço degolado (1977), por exemplo, o artista pernambucano Jomard Muniz de Britto satiriza tal visão de Nordeste. Na obra, um palhaço passeia pelo espaço da Casa da Cultura, no Recife, antigo espaço de detenção, e questiona o Nordeste cuja construção se fez na casa-grande. Diz o palhaço no vídeo, ironicamente: “Mestre Gilberto Freyre? Mestre Gilberto Freyre? Mestre Gilberto Freyre? Muito bem-situado nos trópicos! Casa-grande! Casa-grande! (…) Senzala! Senzala?”. E continua: “Casa-grande de detenção da cultura. Muito bem-situado nos trópicos. Tristes trópicos. Democracia racial? A seu modo. Morenidade, brasilidade? A seu modo. Lusotropicologia? A seu modo. Regionalismo ao mesmo tempo modernista e tradicionalista? A seu modo”.

A língua ferina do palhaço – a língua de Jomard Muniz de Britto – não poupa ninguém. E expressa: “Ai, que saudades dos quitutes e dos quindins preparados pelas sinhazinhas formosas em seus engenhos e pelas piedosas freirinhas em seus conventos. Ai, que saudades, porque o povo só se conhece e se preserva pela sua cozinha”.

O sociólogo Gilberto Freyre está na exposição novamente na obra O caseiro (2016), de Jonathas de Andrade. No trabalho, o artista alagoano põe em paralelo dois vídeos diferentes em um só vídeo: do lado esquerdo, estão trechos de O mestre de Apipucos (1959), filme dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, em que assistimos a momentos de um dia na vida de Gilberto Freyre; do lado direito, está outro vídeo, produzido pelo próprio artista, no qual assistimos ao dia a dia do caseiro que atualmente vive e trabalha na casa onde viveu Freyre.

O Nordeste da casa-grande, da “morenidade”, da “brasilidade” e da “lusotropicologia” surge na mostra como uma visão de Nordeste. Uma, entre tantas outras. A visão de um Nordeste elitista e rural, saudoso de si mesmo, é novamente questionada em ABC da cana (2014), também de Jonathas de Andrade, e Brasil S/A (2014), do pernambucano Marcelo Pedroso. Em ambas as criações, observa-se o reverso do Nordeste rural, experienciado cotidianamente por quem move, com os próprios braços, o moinho de uma economia violenta. Como ocorre ao caseiro da casa onde viveu Gilberto Freyre.

O Nordeste contemporâneo, que é herdeiro do genocídio indígena e que não usufrui do mesmo fausto de uma elite do passado, também pode ser identificado na série de fotografias Paridade (2017), da artista maranhense Gê Viana, em que se vê uma fotomontagem de imagens de indígenas que foram assassinados e descendentes de indígenas que ainda resistem.

Já a herança da cultura africana pode ser encontrada nos trabalhos dos artistas baianos Rubem Valentim e Mestre Didi, que, através de esculturas, fazem referência aos orixás das religiões afro-brasileiras.

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A exposição revela trabalhos artísticos que sequer falam de Nordeste e que, se assim o fazem, é mais por acidente que por intenção. Esse Nordeste que se enuncia tangencialmente se mostra como um espaço geográfico, político e cultural que só pode ser compreendido em relação. Trata-se de um lugar que não se possui, porque atravessado por questões que o ultrapassam. Um território que, quando fala de si, acaba se referindo ao mundo. E que, à maneira inversa, ao falar do mundo, acaba chegando a si mesmo.

Assim, encontramo-nos com um Nordeste que se denuncia por acidente em trabalhos contemporâneos, como em Teile e Zaga (2019), vídeo encomendado pelos curadores à digital influencer pernambucana Alcione Alves. A instagramer, que produz vídeos para seu perfil nessa rede social narrando coreografias, está na mostra narrando uma coreografia de uma dupla de passistas de frevo dançando no Marco Zero do Recife, diante da Torre de cristal, de Francisco Brennand. Não se trata especificamente de um vídeo sobre o Nordeste, mas uma imagem do Nordeste que se revela nas suas gírias periféricas (“teile”, “zaga”, “laga”), nas suas manifestações corporais particulares, na sua paisagem artística e litorânea.

Nesse vídeo, assim como nas outras criações de Alcione Alves, observamos o caráter universalizante (ou, pelo menos, nacionalmente compreendido) de um humor que conquistou pessoas em vários lugares do Brasil (atualmente, ela tem 657 mil seguidores). Mostra-se um Nordeste que não é aristocrático ou rural, mas urbano, tecnológico e periférico. Um Nordeste que ri de si mesmo, ao não se colocar no lugar do oprimido. Ou que, ao menos com humor, sabe se virar com a exclusão a que está sujeito.

Um lugar que se afirma de maneira enviezada, um pouco por consequência, mas não exatamente por intenção, também está presente na obra Memelito (2019), vídeo cuja autoria é do coletivo pernambucano Saquinho de Lixo, atuante no Instagram e formado por Douglas Layme, Davi Xavier, Isabelle Strobel, Sofia de Carvalho e Aslan Cabral. O vídeo, também feito especialmente para a exposição, não tematiza o Nordeste, mas, ao falar de questões abrangentes, como a política nacional ou uma forma de vida experienciada no Brasil, acaba por revelá-lo.

Por exemplo, em Memelito, vemos pessoas caminhando em uma praia entre GIFs de tubarões, numa clara alusão à falta de balneabilidade da Praia de Boa Viagem, no Recife, por conta dos ataques de tubarões. Isso logo depois de termos assistido a um questionamento provocativo sobre por que alguns ladrões são presos e outros não, sendo estes últimos políticos de profissão. Existe uma conjunção entre elementos locais e nacionais, portanto, em memes que conquistaram o Brasil. Como o vídeo de Alcione Alves, a obra do Saquinho de Lixo também surpreende por sintetizar a entrada dos memes em espaços expositivos, comumente compreendidos como lugares dedicados à “alta cultura”.

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Também encontramos, na exposição, criações que nos mostram uma imagem de Nordeste em que as vidas presentes carregam o peso das normas e da história. Na obra A ferida colonial ainda dói (2017), por exemplo, a artista potiguar Jota Mombaça, residente em Portugal, apresenta um documento oficial emitido pelo governo português em que se pode ver um reconhecimento de residência pelo governo. O trabalho integra um projeto homônimo mais amplo, em que Mombaça problematiza as narrativas coloniais, ao evidenciar o apagamento da memória e as feridas ainda abertas deixadas pelas invasões e domínios portugueses no Brasil.


Expografia de À Nordeste, em cartaz no Sesc 24 de Maio. Foto: Helô Goes/Divulgação

Em outro trabalho da mesma série, que não está presente em À Nordeste, a artista escreve a frase “vocês nos devem até a alma. E, assim como nós, os nossos fantasmas estão vindo cobrar”, com sangue, no chão, ao lado do Padrão dos Descobrimentos, monumento em Lisboa em homenagem aos invasores envolvidos nos autoproclamados descobrimentos portugueses. A ida massiva de brasileiros para Portugal, em um momento no qual o Brasil se encontra em uma crise econômica (e também em uma crise de humanidade), parece revelar uma cobrança história pelos brasileiros daquilo que lhes foi retirado com a colonização: talvez um estado de bem-estar social capaz de oferecer um mínimo de segurança coletiva.

Narrativas que buscam nos mostrar aquilo que está à margem dos saberes instituídos, ou, pelo menos, que está fora da história que nos foi contada, também podem ser vistas nos trabalhos da fluminense Pêdra Costa. À frente do show de baile funk queer Solange, tô aberta! (STA!), a artista trata de assuntos como gênero, identidade, estereótipos e sexualidade através de elementos estéticos distintos e aparentemente inconciliáveis, como os bailes funks do Rio de Janeiro e a contracultura queer. No vídeo CUCETA – A cultura queer de Solangê, tô aberta!, dirigido por Cláudio Manoel, Pêdra Costa e Paulo Belzebitchy, que integram a STA!, contam em seus depoimentos sobre como o projeto em questão busca levar as pessoas a construírem uma consciência corporal mais ampla, capaz de incluir nela, por exemplo, o cu, como vemos na música Cuceta.

O tom politizado do STA! evidencia, por sua vez, um Nordeste por onde circulam questões que não se reduzem à forma de vida experienciada apenas nesse lugar. Ao questionar a heteronormatividade sexual e o binarismo de gênero, por exemplo, o STA! traz provocações que não se reduzem à “existência nordestina”, tampouco a um questionamento sobre uma determinada “identidade nordestina”. O show tem uma posição “à Nordeste”, mas não se fecha nesse lugar. Não é por acaso, portanto, que ele tenha sido apresentado, além do Brasil, em países como Bolívia, Dinamarca, Noruega, Itália, Polônia, Espanha, Alemanha, Áustria e Grécia. Porque o Nordeste não é, nem nunca foi, um território fechado em si mesmo, daí não ser possível compreendê-lo a partir de uma ideia particular de identidade regional.

Em À Nordeste, encontramo-nos com um lugar que, quando se move, chega a muitos lugares. Estes constituem uma vida cultural que põe em colapso ideias de nacional e estrangeiro, original e imitado, porque aquilo que nos é próprio tem muito de estrangeiro, porque aquilo que nos é original tem muito do imitado, e também porque, naquilo que imitamos, existe originalidade. Nesta exposição, vemos como é mesmo difícil, muito difícil, resumir uma vida cultural.

BÁRBARA BURIL é jornalista pernambucana e doutoranda em Filosofia na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

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