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Ensaio

Últimas palavras

No Setembro Amarelo, de prevenção do suicídio, a Continente convida o psicanalista Christian Dunker para abordar o tema a partir de mensagens dos que preferiram deixar a vida para trás

TEXTO CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER
DESENHOS CLARA MOREIRA

01 de Setembro de 2018

Ilustração Clara Moreira

[conteúdo na íntegra | ed. 213 | setembro de 2018]

Sócrates havia tomado cicuta e já sentia os primeiros sintomas de adormecimento por seu corpo. Os discípulos ao seu lado esperavam pelas últimas palavras do velho sábio. Se a vida é uma história, ela depende de como nós a contamos e de como ela será recontada pelos que nos sobrevivem. Daí o valor que atribuímos ao último capítulo. A morte solitária, particularmente a morte violenta, era um pesadelo para os antigos porque, neste caso, perdiam-se também suas últimas palavras. Aquele que é colhido pelo acidente deixa uma espécie de dívida em aberto, sob forma de palavras por dizer, que o levará a voltar como fantasma. No cerimonial da grande morte, que vigorou até o século XVIII, e que antecedeu seu silenciamento em hospitais, cercado de invisibilidade e vergonha, alguém prestes a morrer reunia seus entes queridos, fazia declarações públicas e, sobretudo, meditava a céu aberto sobre o que teria sido sua existência. Qual é a causa que nos concerne enquanto viventes?

Foi, portanto, com relativa ironia, e não sem algum constrangimento, que os alunos de Sócrates ouviram: “Críton, devemos um galo a Asclépio, não te esqueças de pagar esta dívida”. A formulação é irônica porque Asclépio, pai mítico da medicina grega, senhor dos remédios e da cura, não pôde salvar o inventor da filosofia. Inaugura-se aqui uma tradição que pensa a mensagem do suicídio como ato que subverte as causas que o tornaram possível. Afinal, não estaria a cidade grega, que condenou Sócrates ao suicídio, eternamente em dívida para com ele? Ao pontuar a dívida com o pai da medicina, ele se coloca também no lugar daquele que se sacrifica pela cidade, pelo seu invento primeiro e maior: o pharmakon, termo que significa em grego, simultaneamente, veneno que cura ou mata e palavra que salva.

A carta de suicídio é o testemunho material de um acontecimento inacreditável. Quando alguém tira a própria vida, isso parece ofender não apenas uma crença específica na soberania da vida, na relevância da existência, mas o próprio princípio da crença, ou seja, essa leitura da vida que mantém unido o arco temporal que sai do presente, retorna ao passado e se projeta como realizado no futuro. Isso explicaria por que a maior parte das religiões condena impiedosamente o suicídio, mas também por que, estatisticamente, ateus suicidam-se menos do que crentes. Como se ensina aos psicoterapeutas iniciantes. Diante de alguém com ideação suicida, não vale a pena investir demais na proposição de motivos ou razões para viver, como se tivéssemos que inocular no outro uma narrativa de esperança, baseada em conteúdos de dignidade. O que está em questão é o circuito das crenças, sua gramática, não sua semântica. Por isso, há casos nos quais é decisivo reconhecer a dignidade ética do suicídio.

A carta de suicídio não só atesta a realidade do fato, mas interfere no luto infinito dos que ficam. Todo luto tem um tanto de impotência, pois sentimos que não conseguimos amar o outro suficientemente, caso contrário, ele não teria ido embora. Por outro lado, se ele se foi é porque não nos amava tanto assim. Culpa por tê-lo deixado ir e raiva porque ele nos deixou compõem assim um par de afetos em torno do qual o trabalho de luto investiga o que se foi naquela perda. Quando reconstruímos o molde e o símbolo do que se perdeu, o luto acaba. Aquele que se foi prosseguirá jornada dentro de nós, como um traço da saudade e memória, como parte de nós e de nossa história. No caso do suicídio, esse processo torna-se mais intenso. O convívio entre remorso e ódio é mais agudo. A forma reduzida do outro terá que incorporar a própria decisão do suicídio.

Alguns indígenas brasileiros pensam que os mortos têm inveja dos vivos. Esse efeito de sucção ou de atração para o mundo dos mortos é semelhante ao medo ocidental dos fantasmas e espíritos que viriam nos buscar. Ao deliberadamente escolher ir embora, aquele que tira sua própria vida cria uma espécie de paradoxo, pois indo sem ser forçado ele fica e se repete como mensagem permanente. O suicídio testemunha o fracasso de nossa capacidade de mantê-lo entre nós e, ao mesmo tempo, uma traição. Frequentemente, esse fracasso é antecipado pelo que vai aos que ficam, preparando-nos assim para nossa própria finitude e mortalidade. Ainda que saibamos, cognitivamente, dessa limitação, quer possamos atribuí-la à enfermidade, à insuficiência médica, ao envelhecimento, aos acidentes da existência, a morte de alguém sempre evoca esse primeiro momento de culpa e de fracasso. Como disse Torquato Neto, em sua poesia de despedida:

De modo que FICO
sossegado por aqui mesmo
enquanto dure.

Se os vivos, em geral, lutam para ficar, mas acabam indo, o poeta decide ficar deixando uma carta de permanência. Como um psicanalista que encerra a sessão dizendo “ficamos por aqui” e deixa o paciente na dúvida se é para ir ou para ficar, o autor diz que fica, em suas palavras, ao mesmo tempo em que diz que vai em seu ato. A sua presença torna-se, assim, signo de sua ausência sossegada.



Cartas de despedidas podem ser divididas em três grupos: aquelas que acusam, denunciam ou endereçam o ato suicida, aquelas que perdoam, absolvem ou agradecem aos mais próximos, a algo ou alguém e aquelas que colocam em causa o próprio ato de viver. Vê-se, assim, como as cartas dialogam com diferentes momentos do luto: a realização do acontecimento, como se a carta fosse uma prova material; a alternância entre culpa e a raiva, e o trabalho de recriação de uma nova vida, causado pela incorporação da perda. A mensagem deixada pela escritora Virgínia Wolf para seu marido ilumina essas três dimensões:

Tenho a certeza de que estou novamente enlouquecendo: sinto que não posso suportar outro desses terríveis períodos. E desta vez não me restabelecerei. Estou começando a ouvir vozes e não consigo me concentrar. Por isso vou fazer o que me parece ser o melhor. Deste-me a maior felicidade possível. Foste em todos os sentidos tudo o que qualquer pessoa podia ser. Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes até surgir esta terrível doença. (…) Se alguém me pudesse ter salvo, esse alguém teria sido tu. Perdi tudo menos a certeza da tua bondade. Não posso continuar a estragar a tua vida. Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.

Primeiro, ela deixa claro que sua decisão é motivada pela doença, protegendo seu marido da impotência por não tê-la salvo. Depois, ela reforça que seu ato não nega, nem invalida a dignidade da experiência de amor que eles tiveram, mitigando o efeito de desamor que a mensagem suicida potencialmente carrega. Finalmente, ela lembra que há uma vida que virá. Uma vida que não deve ser estragada por ela. Aqui, seu desejo se faz causa para o outro que fica.



O ato de matar-se é um ato trágico porque ele individualiza o destino. Uma individualização que pode ser sentida tanto como excessiva quanto como deficitária. Por isso oscilamos em interpretá-lo como um ato de coragem radical ou de covardia extrema. Coragem para separar-se da existência coletiva e desta obra coletiva que é a vida, mas também covardia por nos trair, deixando-nos derrotados e em fracasso. Isso explica, de um lado, o repúdio das instituições sociais e das formas religiosas, mas também o elogio filosófico e literário do suicídio. Essa oscilação entre o peso da individualização e a pressão do coletivo aparece na carta deixada pelo cantor de rock Kurt Cobain , endereçada a seu amigo imaginário de infância Boddah:

Eu não posso suportar a ideia de Frances se tornar um triste, autodestrutivo e mortal roqueiro, como eu virei. Eu tive muito, muito mesmo, e eu sou grato por isso, mas desde os sete anos passei a ter ódio de todos os humanos em geral. Apenas porque parece tão fácil para as pessoas que têm empatia se darem bem. Apenas porque eu amo e lamento demais pelas pessoas, eu acho. Obrigado do fundo do meu ardente e nauseado estômago por suas cartas e preocupação nestes últimos anos. Eu sou um bebê errático e triste! Eu não tenho mais a paixão, e por isso, lembre-se, é melhor queimar de vez do que se apagar aos poucos. Paz, amor, empatia.

A perda da intensidade na vida, a tristeza e o desalento são sentimentos comuns nas cartas dos que nos fazem ler o suicídio como um ato de desistência. É o drama daquele que se sente solitário e vazio, em meio a tantos outros que o admiram, mas cujo amor só acentua ainda mais sua impossibilidade de compartilhar afetos. Nesse caso, o suicídio realiza objetivamente a persistente situação subjetiva. Para o autor de Smells like teen spirit, o suicídio se acompanha do amor e agradecimento, mas também de ódio a todos e intolerância com a possível repetição de seu destino em sua filha, então com dois anos. Um suicídio que evoca certa noção de desperdício e egoísmo, indicado na repetição da palavra empatia. Os outros, o público, as multidões, os fãs estão aí, mas não causam a mesma experiência ardente.

Cobain, em sua infância e adolescência, enfrentou um longo período de turbulência: foi diagnosticado com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Em seguida, veio a separação dos pais. Sua moradia se tornou errática: morou com a mãe, depois com pai e, em seguida, na casa de conhecidos e até desconhecidos. Desencontros sequenciais desse tipo afetam nosso sentimento de pertencimento, o que tem o lado interessante de nos destacar do mundo, permitindo ver coisas que outros não enxergam, mas tem um lado ruim, que é nos expor ao vazio de si. Algumas vezes escolhemos colocar um objeto, uma pessoa ou até mesmo uma sensação psíquica induzida por drogas para dar destino a esse vazio e esse despertencimento. Nesse ponto, cada nova relação, cada novo encontro, apenas aumenta a sensação de que “não é isso” e que “ainda e mais uma vez não é isso”. Visto de fora, isso aparece como um dos sinais mais conspícuos de risco para suicídio: isolamento.



Comparemos o suicídio de Cobain com o ritual dos anciões japoneses, retratado em A balada de Narayama (Shohei Imamura, 1983), no qual, quando alguém sente-se incapaz de contribuir para o coletivo ou fazer a sua parte na causa que lhe concerne, retira-se para morrer em uma montanha. Aqui, sentimos respeito e admiração pela coragem, por alguém capaz de concluir uma vida bem-realizada. Uma vida que respeita seus próprios termos e para a qual tornar-se um peso para os outros seria uma traição. É também essa a mensagem deixada pelo milionário George Eastman, inventor do filme fotográfico: “Meu trabalho está concluído. Por que esperar?”. Quando a vida se torna uma obra, ela poderá também ser concluída, no contexto desse trato entre viventes, como se lê na carta de Van Gogh a seu irmão Theo:

Obrigado por sua gentil carta e pela nota de cinquenta francos que ela continha. Já que as coisas vão bem, o que é o principal, por que insistiria eu em coisas de menor importância? Por Deus! Provavelmente se passará muito tempo antes que se possa conversar de negócios com a cabeça mais descansada. (…)

Pois assim é, e isto é tudo, ou, pelo menos, o principal, que eu tenho a lhe dizer num momento de crise relativa. Num momento em que as coisas estão muito tensas entre marchands de quadros de artistas mortos e de artistas vivos.

Pois bem, em meu próprio trabalho arrisco a vida e nele minha razão arruinou-se em parte – bom –, mas pelo quanto eu saiba você não está entre os mercadores de homens, e você pode tomar partido, eu acho, agindo realmente com humanidade, mas, o que é que você quer?

Quando alguém se mata, escrevendo ou não uma carta de despedida, deixa para sempre aberta a pergunta sobre as causas, os motivos e as razões. Aprendemos na clínica que essa pergunta geralmente exprime a busca por culpados. Contudo, confiar demais na resposta, afastar a culpa rapidamente, redirecionar a raiva e impedir-se de deixar essa pergunta trabalhar dá espaço para que o silêncio e a vergonha dominem a situação. Primeiro passo para que o luto se transforme em depressão ou melancolia, ou pior, venha a se repetir.

Famílias nas quais há um suicídio tornam-se mais vulneráveis para outros casos. É possível que isso ocorra porque nos momentos agudos, que toda vida comporta, a solução ancestral se tornará disponível, como que a confirmar uma filiação pelo gesto de dizer, mais uma vez, não.

Particularmente na adolescência e na velhice, quando a morte e o real tornam-se uma questão incontornável, somos inquiridos a decidir entrar no mundo mais uma vez… ou não. Essa decisão, que acontece em escala reduzida a cada manhã, a cada segunda-feira, a cada retorno de férias, a cada reinício, mostra que uma vida é muito mais que a contabilidade de seus fracassos e sucessos. Como disse a atriz e jornalista Leila Lopes:

Eu não me suicidei, eu parti para junto de Deus. Fiquem cientes de que não bebo e não uso drogas, eu decidi que já fiz tudo que podia fazer nessa vida. Tive uma vida linda, conheci o mundo, vivi em cidades maravilhosas, tive uma família digna e conceituada em Esteio, brilhei na minha carreira, ganhei muito dinheiro e ajudei muita gente com ele.



Os motivos que usualmente chamam a conotação de fracasso ou de submissão ao destino são afastados. As razões são silenciadas e o que vem ao primeiro plano é a vida bem-vivida. Nesse caso, mais do que nos outros, o suicídio é um assunto de palavras. Palavras não ditas. Palavras por dizer. Palavras que não encontraram um destinatário ou alguém que as compartilhasse, mas também as palavras apressadas, feitas para manter o silêncio.

A principal estratégia para prevenir o suicídio baseia-se na disponibilidade imediata para escuta e indisponibilidade de meios para execução. Escutar o outro, em toda a sua extensão e intensidade, permite que causas, razões e motivos ganhem palavras e, por meio das palavras, nos liguemos ao outro que nos escuta e, consequentemente, ao mundo comum a que pertencemos. Escutar não é convencer, nem doutrinar, mas acolher causas, motivos e razões daquela vida. Julgar uma vida é o que os depressivos se comprazem em fazer, daí a importância de não sancionar tal gramática na escuta de seu sofrimento.

Um estudo comparativo concluiu que, objetivamente, as medidas mais eficazes contra o suicídio não eram psicoterapia, grupos de apoio, medicação ou telefones de plantão, mas instruir os porteiros e guardas que tomam conta de prédios e lugares públicos. Como escreveu Marylin Monroe: “Quero pôr fim à minha vida, mas como? Sempre existem pontes. Mas teria de ser uma realmente feia. E a verdade é que eu nunca vi uma ponte que me parecesse feia o suficiente”.

A dificuldade estética dos meios, o trâmite logístico do ato, relacionam-se com uma dificuldade muito mais grave. Algo decisivo no suicídio depende da forma como ele é feito e não apenas do seu conteúdo de finitude e mortalidade. A sua estrutura de palavra revela outras relações com a pergunta sobre suas causas. É relativamente simples levantar perfis de risco para suicídio: depressão, bipolaridade, consumo de substâncias psicoativas legais e ilegais, tentativas anteriores, personalidade impulsiva, falta de tratamento, isolamento social etc.

Depois do ocorrido, facilmente remetemos o acontecimento às suas causas, mas os pesquisadores se interrogam por que, então, não conseguimos prever os casos individuais. Isso pode ocorrer graças à existência de suicídios impulsivos, nos quais há poucos indícios preditivos, baixa ideação suicida e que quer aliviar a dor intensa, não necessariamente morrer. Outra razão está no fato de que a maior parte dos suicídios não se apresenta de forma ritual, marcada por uma carta ou circunstâncias cabais, mas por meio de pequenas atitudes de descuido continuado consigo mesmo, de abandono gradativo da vida ou de persistente exposição ao risco, que culmina em acidente fatal.

Talvez os casos individuais sejam difíceis de prever, porque o suicídio acontece tanto por hiperindividualização, quanto por supercoletivização, e ainda por indeterminação das leis que me ligam aos outros, de acordo com os três tipos de suicídio descritos por Durkheim: egoísta, altruísta e anômico. Ele observou que taxas de suicídios eram maiores entre protestantes, homens, solteiros sem filhos e em tempos de paz do que entre católicos, mulheres, casadas com filhos em tempos de guerra.

O crescimento das taxas de suicídio é uma constante global desde os anos 1960, e isso exprime uma correlação possível com a individualização de nossas formas de vida. Mas a curva é ainda mais aguda a partir da fixação do neoliberalismo como modo laboral dominante. No Brasil, o crescimento é de 29,5% entre 1980 e 2006, com destaque para a população de mais de 70 anos e para os jovens entre 15 e 24 anos (9,3% de aumento). Aqui também encontramos a prevalência no Mato Grosso do Sul, entre índios guaranis que perderam sua referência coletiva no território, e no interior do Rio Grande do Sul, entre descendentes de imigrantes atravessados pela cultura do sucesso individual.

O suicídio não é apenas causado pela confluência entre vicissitudes do processo de individualização e a expansão de patologias do narcisismo, com seus sentimentos de esvaziamento, solidão e isolamento. No livro Suicídio – Testemunhos do adeus, de Maria Luiza Dias, encontramos uma extensa compilação de cartas de suicidas, que vão desde os que objetivam claramente os motivos, geralmente amorosos e financeiros, até os que vagamente declaram a falta de razão para viver. Poucos entre eles tocam na dimensão da causalidade, para além da acepção social.

Refiro-me à causa no sentido do que um suicídio cria no mundo para além da piedade ou da culpa, da vergonha ou da raiva. Mais além da demanda de reconhecimento, ressentida, cômica ou trágica, o suicídio é um ato que pode colocar em questão a causalidade como limite da liberdade humana.

Causas não são razões e razões não são motivos. Motivos nos culpam, razões nos responsabilizam, mas causas, quando se trata do desejo, são as únicas que realmente nos implicam. O fotógrafo Kevin Carter, que foi submetido ao escrutínio mundial depois da divulgação da foto – pela qual recebeu o prêmio Pulitzer de Fotografia Especial em 1994 – de uma criança desnutrida e sozinha em campo aberto observada por um abutre (o que levou à interpretação de que aquela criança faminta poderia ser atacada pelo animal), enfatiza os motivos para se matar:

Estou deprimido, sem telefone, sem dinheiro para o aluguel, sem dinheiro para a manutenção dos filhos, para as dívidas. Dinheiro! Estou atormentado pelas lembranças vividas dos assassinatos e dos cadáveres da ira e da dor… Das crianças feridas e que morrem de fome, dos loucos do gatilho leve, com frequência da polícia, dos assassinos e verdugos.

Se, nesse caso, a depressão, a sensação de acuação e a culpa são soberanas, no caso do intelectual e dissidente cubano Reinaldo Arenas, são as razões políticas que o levam ao ato:

Só há um responsável: Fidel Castro. Os sofrimentos do exílio, as penas do desterro, a solidão e as enfermidades que eu contraí no desterro seguramente não haveria sofrido se houvesse vivido livre em meu país. Ao povo cubano, tanto em exílio quanto na ilha, o exorto a que siga lutando pela liberdade. Minha mensagem não é de derrota, senão de luta e esperança.

Assim como a culpa pode dar motivo para a punição, ou autopunição, as razões pedem por responsáveis. A primeira demanda vingança, enquanto a segunda pede por justiça. Dizemos que o primeiro foi movido pelo desespero, assim como o segundo encontrou uma razão para seu ato na denúncia política. Comparemos agora essas duas atitudes com a implicação que percebemos na carta poética deixada por Sylvia Plath:
 
A mulher está perfeita
Seu corpo
Morto enverga o sorriso de completude,
A ilusão de necessidade.

Aqui não há pedido nem acusação, apenas colocação de uma imagem que funciona como causa ausente do ato. Plath narrou em detalhes a sua luta contra a depressão em A redoma de vidro, a forma como o mundo se fecha em uma espécie de túnel, os pensamentos se encolhem em um círculo cada vez menor, a impossibilidade de dar início a qualquer coisa, a anestesia e indiferença diante de tudo. Também se poderia levantar seu histórico psiquiátrico, sua coleção de perdas, para articular o conjunto de razões que a levaram a isso e que depois, talvez, fizeram seu filho Nicholas tomar o mesmo caminho. Mas o que torna seu suicídio tão trágico é a forma como ela criou, com sua obra, uma mensagem que é, ao mesmo tempo, causa para viver e para morrer, dignamente.

CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER é psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia da USP, autor de Reinvenção da intimidade (Ubu, 2017) e Mal-estar, sofrimento e sintoma (Boitempo, 2015).

CLARA MOREIRA é artista visual, nasceu e mora no Recife.

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