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Ensaio

No pipoco do bacamarte

TEXTO E FOTOS MARCELO SOARES

31 de Maio de 2018

Bacamarteiro em ação

Bacamarteiro em ação

Foto Marcelo Soares

Priiiiiiiiiiiiii!” O barulho do apito ecoa de leve na boca de um senhor de seus 60 anos. Em frente a uma dessas casas antigas que se veem com facilidade em cidades do interior do Nordeste, uma multidão se aglomera a observar a cena. Vestido com um uniforme de zuarte de mescla azul celeste com estrelas nos ombros que lembram alguma patente militar, o senhor gesticula com as mãos como se desse ordens a seus subordinados. Na ponta da frente de uma fila, um caboclo dá três longos passos à frente com uma arma que lembra um rifle em mãos. Para, levanta a arma sobre a cabeça em forma de arco e faz uma careta altamente expressiva como se nos próximos segundos algo de forte impacto fosse acontecer.

“Buuuummmmmmm!” A arma dispara uma potência de som e pressão inimagináveis para quem nunca tinha presenciado tal cena. Segue-se um coice, carregando o corpo do homem para trás. Sobe uma nuvem de fumaça azul e poeira em volta do caboclo. O cheiro de pólvora seca intoxica gostosamente as narinas dos presentes. A performance é seguida de um balé rústico que pode se transformar em forma de rodopio do corpo ou apenas num movimento frio daqueles que preferem suportar o movimento contrário aos braços. Quem está a observar a cena, ouve o barulho da onda grave da explosão no limite do que os ouvidos podem suportar. O couro cabeludo treme ao propagar da pressão da explosão. Um novo apito soa, sai mais um sertanejo da fila a dar seus passos marcados para mais um disparo estrondoso. E assim segue a apresentação de bacamarteiros em dia de festa junina em diversos municípios do estado de Pernambuco e de outros estados da Região Nordeste.

Para quem não está familiarizado com o ritual, toda a cena parece deveras exótica. E é assim que a maioria das pessoas e dos meios de comunicação tendem a explorar a manifestação folclórica dos bacamarteiros. No máximo, uma explicação de cunho mais religioso. Um viés muitas vezes superficial e que esconde diversos aspectos históricos, sociológicos e de dificuldades de uma manifestação secular que conseguiu chegar aos nossos dias, apesar de toda forma de controle exercida pelo poder público.

             

*A Continente pode ser encontrada ainda na plataforma de revistas GoRead e nas principais bancas do Recife e em livrarias especializadas do país.

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