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Depoimento

O desafio do humor gráfico nos tempos atuais

Chargista e cartunista comenta sobre as nem sempre cordatas relações com público do humor gráfico

TEXTO Samuca

31 de Outubro de 2017

'Good morning America', charge de David Rowe

'Good morning America', charge de David Rowe

Imagem David Rowe/Reprodução

[conteúdo na íntegra (degustação) | ed. 203 | novembro 2017]

"Cartunista de merda!"
 Esse é um dos adjetivos mais leves que recebo via Facebook, nas postagens das charges do Diario de Pernambuco. Os que gostam apenas curtem ou compartilham. Os que não concordam com a mensagem costumam deixar críticas ou partir para as ofensas. As redes sociais costumam ser palco de embates político-ideológicos sem fim. E a charge, como instrumento de opinião e crítica, não fica de fora. O problema é quando o mérito que ali está sendo discutido, analisado, criticado passa a ser indiferente e o “fanatismo” e a intolerância se sobressaem. Aí, não tem jeito. É colocar os cinco sentidos em alerta e ficar atento à vigilância e ao patrulhamento, seja de que lado for.

NUM PISCAR DE OLHOS
Assim que Donald Trump ganhou as eleições, David Rowe, cartunista australiano, fez uma charge que se espalhou em segundos nas redes sociais: a Estátua da Liberdade acordando assustada numa cama ao lado do novo presidente dos EUA, numa alusão ao filme Dormindo com o inimigo. É assim, num piscar de olhos, que uma charge deve ser percebida pelo leitor. Causar um rápido impacto, indo direto ao cérebro para liberar dopamina. Nem sempre a charge tem esse fim. Muitas vezes ela existe para fazer refletir ou até mesmo se indignar. Não é fácil tratar de assuntos trágicos numa charge. Algumas vezes, o cartunista erra a mão, beirando o mau gosto. Desculpem-me os colegas, mas nem sempre um terremoto no Haiti combina com o índice de inflação no Brasil. E quem disse que também já não cometi algum desses pecados? É perigoso associar a tragédia do outro com o nosso cotidiano. Num jornal, corre-se o risco de estampar uma foto na capa de uma criança morta por um bombardeio na Síria e, na página seguinte, o leitor se deparar com uma charge de Brasília devastada por uma “bomba” que acabou de explodir, referindo-se a algum dos recorrentes escândalos políticos. Devemos evitá-los. Em 2011, várias charges sobre o tsunami no Japão foram bastante criticadas nas redes sociais. Não é uma tarefa fácil, num momento de dor, um cartunista abordar temas de catástrofes naturais para fazer humor gráfico.

UM CHEIRO DE AZEDO NO AR
O profissional da charge diária costuma dormir e acordar com o pensamento no trabalho. Nos dias atuais, com a utilização da internet, a notícia anda junto de você. Em compensação, é mais dinâmica e pode mudar em questão de minutos. O faro de jornalista deve andar apurado. É preciso sentir o cheiro de injustiça no ar. Posicionar-se ao lado dos oprimidos, dos desfavorecidos, dos descamisados, dos sem-teto, dos sem-terra, das crianças, dos trabalhadores, em defesa das mulheres vítimas do machismo, dos refugiados e de todas as minorias. É preciso pensar duas vezes antes de lançar uma piada gráfica, quando um sem-teto ou um sem-terra em situação de conflito comete um delito e ganha as manchetes… aí vem o cartunista e retrata-o como um criminoso. É preciso avaliar toda a situação antes de bolar a charge, afinal, a pessoa-alvo é a parte mais frágil nesse contexto, encontrando-se em situação vulnerável.

Em 2010, um fato deixou muita gente tomada pela indignação. O caso de abusos sexuais de crianças e adolescentes em instituições religiosas. Prontamente, fiz uma charge com três padres, olhando de frente para o leitor, como se estivessem num paredão de reconhecimento policial. Nas entrelinhas da charge, talvez oriundo do inconsciente, utilizei vários elementos da igreja em linguagem subliminar: o pecado, o fundo de cor vinho, lembrando um cálice transbordando e os clérigos, três representantes na terra da trindade divina. Apenas um deles, em vez de um crucifixo, usava uma chupeta pendurada no pescoço. Esse cartum foi agraciado em primeiro lugar na categoria Gag Cartoon do World Press Cartoon (2011) em Sintra, Portugal, um dos maiores prêmios do humor gráfico de trabalhos publicados na imprensa.


Charge premiada de Samuca em 2011 remete às acusações de pedofilia na igreja

Nem sempre o diálogo que a charge estabelece com o leitor é bem-sucedido. Às vezes, o humor cheira a sangue. No episódio do Charlie Hebdo, o mundo ficou sem graça com as mortes dos cartunistas Wolinski, Tignous, Jean Cabu, Charb e Honoré. Embora discorde da abordagem do jornal francês, apesar de apreciar o trabalho de todos eles, admiro o sentimento de liberdade defendido pela bandeira francesa. Mas não vejo razões para um humor que ofende minorias ou valores sagrados em tom de provocação. Angeli criou uma charge com dois bispos se pegando numa imponente igreja. Nesse caso, o autor não inventou algo inexistente, ele apenas satirizou fatos que acontecem em alguns ambientes religiosos. É totalmente repudiável a atitude dos extremistas do Estado Islâmico. Mas é o que eles são: extremistas. Não há balões para o diálogo.


Hierarquia, charge de Angeli que aborda a pedofilia

UMA PITADA DE SAL
Uma charge pode ser amarga para alguns ou ter um gostinho de uma doce vingança para outros. Numa greve de motoristas e cobradores de ônibus ou de professores da rede de ensino, se o chargista optar por criticar a situação salarial vivida pelo trabalhador, servirá como um quilo de sal no prato do patrão na mesa de negociação entre as partes. A caricatura pode servir como catarse da classe trabalhadora e ser posta num mural ou até mesmo a ser reproduzida num folheto de protesto. Ganhar as redes sociais e servir de tira-gosto nos momentos de tensão. Já os alunos e usuários de transporte, que se sentem prejudicados pela falta de aula e de transporte, terão de optar por saborear ou não o enunciado abordado pelo desenhista.

DE ORELHA EM PÉ
O chargista tem que ser todo ouvidos. Escutar programas de rádio, noticiários de TV, navegar na internet em busca de notícias, redes sociais e às vezes ter saco até de escutar o programa A Hora do Brasil. Também não deve desprezar uma boa conversa numa mesa de bar, ou até mesmo um comentário dentro de um elevador, na fila de um supermercado ou num ônibus lotado. A ideia de uma charge poderá surgir numa conversa qualquer ou até mesmo quando se está sonhando. Uma vez parei num sinal de trânsito e um vendedor de cavaquinho me fez um desconto, mas em seguida emendou: semana que vem, nem pensar, o gás vai pipocar. Já pode ser um mote para a charge.

IDEIA NA PONTA DO LÁPIS
Na Síria, em 2011, o cartunista Ali Ferzat foi atacado e espancado por homens mascarados, que quebraram suas mãos e o jogaram numa estrada nas proximidades de Damasco, por ter feito uma charge criticando o regime de Assad. Suas caricaturas mordazes enfureceram ditadores do mundo árabe, entre eles, Saddam Hussein e Muamar Kadafi. Já no Equador, o cartunista Bonil Xavier foi perseguido judicialmente e criticado nos duros discursos do ex-presidente Rafael Correia. No Irã, a censura persiste nos temas religiosos e políticos. Por isso, os cartunistas iranianos costumam fazer cartuns com temáticas mais globais e críticas aos costumes.

Enquanto isso, no Brasil, no recente 44º Salão Internacional de Humor de Piracicaba, numa das mostras de artistas convidados, o cartum do colombiano Zuleta foi alvo de protestos nas redes sociais. A obra, ampliada em destaque, retratava o jardim do Éden, com o Criador escondido atrás da árvore do pecado, usando um fantoche da serpente dialogando com Eva e Adão. Foi o suficiente para gerar debates e polêmicas, com gente querendo interditar o cartum.


Cartum do colombiano Raul Zuleta foi alvo de protestos nas redes sociais

Vivemos atualmente uma intolerância quanto a ideias divergentes que sequer admite respeito ou discussão. Nos anos de chumbo no Brasil, muitos cartunistas driblaram a censura com várias artimanhas: Jaguar mostrava ao censor instalado na redação do semanário humorístico Pasquim um rascunho e publicava outra ideia na arte-final. Henfil usava as sacanagens do Fradim como uma “válvula de escape social” e a turma da Graúna, que vivia na caatinga, com uma pegada mais política e de crítica social.

Hoje, em plena “democracia”, existe uma censura velada. Depois do impeachment da presidenta Dilma, alguns dos principais jornais do país, alegando culpa da crise, demitiram cartunistas que perderam o seu espaço editorial por fazerem o “retrato falado” em formato caricatural de políticos implicados com a Justiça. Mas boa parte dos cartunistas é assim: perde o emprego, mas não perde a piada.

SAMUCA ANDRADE é cartunista e chargista.

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