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Ficção

Se um viajante num remoto dia de verão...

TEXTO Fernando Monteiro

01 de Setembro de 2017

Passagem do Zeppelin pelo Recife, na década de 1930

Passagem do Zeppelin pelo Recife, na década de 1930

Foto Acervo do Museu da Cidade do Recife

[conteúdo na íntegra (degustação) | ed. 201 | setembro 2017]

GRAF ZEPPELIN
W Z! K D K A! U Z Q P!
Alô, Zeppelin! Alô, Zeppelin! Alô, Zeppelin!
Usted me puede dar nuevas del Zeppelin?
Dove il Zeppelin?
Where is the Zeppelin?
Passou agorinha em Fernando de Noronha.
Ia fumaçando!
Chegou em Natal!
(Augusto Severo, acorda de teu sono, bichão!)
Alô, Zeppelin! Alô, Zeppelin!
Rádio, rádio, rádio!
W Z – Q P Q P – G Q A A… = Jiquiá!
Apontou!
Parece uma baleia se movendo no mar.
Parece um navio avoando nos ares.
Credo, isso é invento do cão!
Ó coisa bonita danada!
Viva seu Zé Pelim!
Vivôôôô!
Deutschland über alles!
(Ascenso Ferreira)

Alguém aqui já leu ou, mesmo, ouviu falar de um livro intitulado Brasilien Tag und Nacht, publicado em Berlim, no já remoto ano de 1935, pela casa editora (há muito extinta) Rowohlt Velag GmbH?

Esta pergunta inicial não deveria ser graficamente mutilada, no seu final, por algum revisor que insista em usar o “h” minúsculo no “GmbH”, que só tem consoantes tidas como “ásperas” no idioma que…

Mas, do que estou falando? Nem disse, ainda, o nome do autor da obra, um homem para mim totalmente desconhecido, cujo nome não soa mal: Wilhelm K. von Doren. Entretanto, em toda internet, não há nada sobre Doren – nem a respeito do seu livro de “impressões” a respeito do nosso país, com algo, talvez, do repuxo de um queixo aristocrático (?) que talvez se crispasse de orgulho da sua raça, ao olhar para baixo, do alto do dirigível Graf Zeppelin em que Doren informa ter permanecido, num mês luminoso de 1935, “estacionado no ar, nas imediações da cidade do Recife, por cinco dias inteiros, enquanto todos nós aguardávamos que a situação política local se normalizasse”…

Penso num teuto “queixão” – possível – levantado em desdém para os “nativos” lá em baixo. Penso no seu olhar altaneiro mais do que no “von” que poderia ser tão fajuto quanto o do lendário cineasta Joseph von Sternberg (o diretor de O Anjo Azul que não tinha sangue algum dessa cor, nas veias vienenses, e que só incluiu o “von” no seu nome artístico para soar bem aos ouvidos matutos da América).

Voltemos ao Doren encarapitado, em 1935, no Zeppelin provavelmente “estacionado” entre os 300 e os 500 pés (ele não informa sobre a altura do “charuto” de alumínio expectante sobre o Recife, naqueles “cinco dias”), de maneira que podia se ver a gente no meio do verde que, certamente, se tornaria quase cinzento, na altitude – de cruzeiro – dos normais 3 mil pés da aeronave-orgulho de uma Alemanha sobre a qual esse Doren não deixou uma linha escrita, de adesão ou de desconfiança ou censura.

Claro que ele e os demais 34 passageiros depois desceram para a terra firme da torre de amarração no Jiquiá – no meio da política tupiniquim movediça, pisando em torno da torre (que ainda lá está) num “planeta” descrito, por Wilhelm, exatamente desta maneira:

“A luz incomoda – para dizer o mínimo. Bananas e peles negras suadas, entre recortes contrastados em linhas retas e curvas. Apertamos os olhos mesmo por trás de lentes escuras. Odores sobem como se as suas narinas houvessem descido até o fundo de cloacas de alguma forma iluminadas pela espécie de clarão que há nos cheiros adocicados e, ao mesmo tempo, pungentes (sem suavidade), assim como um fruto podre pode se anunciar, num cesto enganador, apenas pelo aroma passado, pelo fedor da putrefação começada debaixo das cascas ainda amarelas. É um lugar para o pintor e o sanitarista, o escritor e o naturalista capaz de não apertar o nariz nem desviar a vista das coisas como elas são”.

Sacam esse Doren? Percebem como, logo depois de desembarcado, ele examina as suas sensações? Ou não tão logo – porque seu livro só viria a ser publicado no ano de véspera da fogosidade nazista começando a tocar fogo na política europeia –, de maneira que está aqui um homem que não enxerga a trava na sua vista, porém vê o argueiro nos olhos dos “índios do Brasil”. 

O que ele veio fazer aqui? 

Foi, certamente, no verão – e talvez não pensasse em se demorar pelo Trópico de luz diante da qual Doren insiste em apertar os olhos travados. E Wilhelm continua a descrever esse Brasil chegando-lhe também pelo nariz pálido, debaixo do qual talvez houvesse um bigode curto, “masculino” como hoje é difícil de acreditar, neste final de 2016 no qual folheio quem sabe o único exemplar de Brasilien Tag und Nacht existente aqui na “taba”, pelo menos.

***

Lendo e relendo o pequeno volume ensebado – apenas com as letras góticas do título, na capa sem atrativos – que eu fui encontrar num sebo da Trindade, em Lisboa (populosa de refugiados e espiões entre 1940 e 1945), cada vez me parece mais claro que não é um guia de viagem, uma dessas coisas tradicionalmente engessadas entre conselhos e recomendações aos visitantes, temerosos, de algum mundo “exotisch”. 

Ora, dentro do Brasilien existe pouco do que esperaria um turista embarcando em Zeppelins ou em navios de passageiros que aportavam como se descessem em Timbuktu (me garantia Camilo José Cela, em conversa sobre Raimundo, o seu tio “cearense” perdido no Brasil remoto da infância do Nobel). E existe um livro dentro de outro, quando começam as anotações que o enigmático Wilhelm chama de O anjo pardo, espécie de relato pessoal de uma aventura amorosa “abaixo da linha da correção”. 

O que isso significa? É curioso. Há, realmente, dois momentos no livrinho de aspecto “inocente”, e isso se dá exatamente entre o antes e o depois de “von” Doren confessar “um contato bem mais estreito – digamos assim – com o (sic) país de gaiolas que parecem frescas para as aves…” 

As reticências são dele – e creio poder vê-lo, nas suas próprias palavras, “desembarcando como qualquer europeu no verde opulento do subúrbio, óculos escuros, reprimindo um pouco a respiração que capta os cheiros tão mais fortes do que os de casa”, porém muito menos acres, também, do que a mistura de odores de cabelo e carne queimada dos campos a caminho de serem inaugurados naquela Germânia do “Prof. Dr. Otmar Freiherr von Verschuer”, médico destacado nas páginas internas do jornal alemão que Doren, numa fotografia mais próxima, traz debaixo do baixo, e, depois, aberta na página cujo contato pode ter ajudado a encardir a sua roupa – antes, imaculada – onde o tecido de cor clara se mancha daquela tinta preta dos caracteres góticos anunciando que o Dr.Verschuer declarava estar o seu país “na vanguarda da pesquisa dos genes e das raças”. 

Essa anotação é minha. Eu a assumo, porque sei um pouco de história das atrocidades nazistas e, sim, o “doktor” festejado naquela manchete de 1935 é o mesmo que, no ano seguinte, se tornará o diretor do Instituto do Terceiro Reich para a Herança, a Biologia e a Pureza Racial, com sede em Frankfurt. E que terá muitos alunos de vaga expressão alucinada – porém não alarmante, ainda –, dentre os quais um em especial será, mais tarde, tristemente famoso como o “anjo da morte”. O decano Verschuer foi quem conseguiu financiamento para esse seu (indiscutivelmente) protegido, nos termos assinados pelo próprio diretor do Instituto de Frankfurt: “Meu colaborador e ajudante no presente estudo é meu assistente Dr. Joseph Mengele, médico e antropólogo…

Tudo isso ainda iria acontecer, e, nesse momento ainda “normal” da narrativa (?), o nosso Doren desembarca do enorme “Zepelintra” (apelido que o diverte, porém não entende) no Recife, “num mundo de azáfama aparentemente inocente debaixo de muita luz”. 

Vindo de alguma treva – no meio dos campos meticulosamente cultivados sob a névoa –, ele sempre insiste em mencionar a luz, a “excessiva luz”.

***

Será Wilhelm K. von Doren o tal “K. Doren” referido entre os fotógrafos assistentes do célebre Fritz Lang nas filmagens de Der Müde Tod

A minha memória cinéfila – já incerta quanto a nomes e datas – foi refrescada pelo crítico pernambucano Ernesto Barros, que recentemente me confirmou haver, de fato, um assistente de câmera chamado “Doren”, no filme preferido de Lang, na sua “fase muda”. 

O sujeito teria vindo fotografar o nosso país? Por iniciativa própria ou, se não, a serviço de quem?… Sim, porque era bastante cara a passagem no dirigível com destino ao longínquo Brasil (algo equivalente a 14 mil euros atuais), desfrutando-se do imenso conforto que oferecia a aeronave com apenas 35 lugares disponíveis. Desses, normalmente a lotação não ultrapassava os 20 passageiros interessados em conhecer as nossas “selvas” interrompidas, aqui e ali, por “modorrentas cidades” observadas como jaulas e “gaiolas” de nativos. Sim, muito caro mesmo era o passeio extravagante para alguns “eleitos” que dispunham de cabines duplas, com sala de estar e de jantar e “até de um salão para fumar, cuidadosamente isolado para não correr o risco de incendiar o perigoso e inflamável gás de sustentação da aeronave, o hidrogênio”. Doren parece deslumbrado ao descrever os confortos do Zeppelin, ele que abandonou a viagem (qualquer propósito eventual da viagem) para sumir aqui, “onde Lil Dagover – a atriz de Der Müde Tod – NdE – poderia reinar como uma estranha rainha dessa gente basbaque a nos espionar, a nos tocar, a nos atingir no cerne de nervos crispados”, escreve o alemão que talvez não fosse alemão, fosse austríaco (como Sternberg e o seu falso “von”).

Por causa de Doren, fui pesquisar a vida de Lil, e fiquei sabendo que ela fez uma montanha de filmes. Aqueles melodramas de alpinismo de Leni Riefenstahl superaram, na época, a altura da fama das obras artisticamente mais empenhadas às quais a Dagover emprestou o seu talento – muito maior do que o de Leni, pelo menos como atriz. E Lil não entrou em confraternização com os nazistas, nem serviu à propaganda do Partido, conforme aconteceu com a sua rival de A lâmpada azul, filme adorado por Hitler. Apesar disso, a estrela Lil Dagover ficou na Alemanha, sofreu o grande desastre como qualquer cidadã dependente do mercado negro para comprar comida e meias e tudo o mais, ao invés de partir com Fritz Lang, que lhe teria dito (não estou inventando): “Você terá notícia, não sei quando, não sei onde, de Fritz Lang fazendo um filme chamado A moça branca do Brasil, baseado naquele seu rapto bem nos nossos narizes. Mas não deixarei que revelem a fonte do argumento”…

Isso está referido em Brasilien Tag und Nach. É um livro confuso, sim, e nesse diapasão é que, de repente, passa a falar do “Anjo Pardo” que lhe lembrava “a Lil de belíssimas pernas cruzadas, uma longa piteira na boca, o falso ar de colegial de férias num terraço dos Alpes”.

Hermione é nome do “anjo” – o do Brasil – que emerge da segunda parte meio em desordem como se tomado por plantas dos mangues, por joias holandesas (holandesas?) entre detritos da maré de afogados vencidos pela “morte cansada”.

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Nunca vi natureza tão bela! – escreveu Edouard Manet, desembarcado do navio Havre-et-Guadaloupe, no porto do Rio de Janeiro, às vésperas do Carnaval de 1849.” 

Essa anotação prova que Doren era um homem culto, ou, pelo menos, não totalmente desinformado sobre o país “distante quase como a Lua”, e, já no século XX, “ainda estranhíssimo para a tripulação do Zeppelin parado no ar do Recife”, tubérculo de metal pesando sobre uma falsa “jovem cidade”.

Wilhelm K. terá se “adaptado”, afinal, como praticamente se adaptou o rapaz francês, no Rio, em 1849? Este filho da burguesia parisiense irá se tornar, na década seguinte, o pintor célebre do pré-impressionismo, para sempre com a luz brasileira nos olhos que se aprimoraram em face da luz atenuada da Rue Petits-Augustins (hoje, “Bonaparte”)…

Isso não tem nada a ver, essa pequena digressão que recorda o jovem Manet na “gaiola” carioca, tão antes dos tempos do gordo dirigível que deixou de voar para o nosso Pindorama em 1937, quando já não se sabe se o misterioso Doren permanecia no Recife, ainda no meio da nossa luz “tão forte” quanto sempre foi diante das caravelas, dos paquetes e dos modernos navios cheios dos labirintos ideais para abrigar clandestinos durante uma longa viagem transatlântica.

Doren viajou num Zeppelin caro e não era um penetra (nem tampouco um convidado), pelo que deixou expresso no livro que aqui se desdobra – como se fosse o reflexo de um reflexo no exterior bojudo das aeronaves sonolentas sobre as cúpulas de igrejas acordadas pelos próprios sinos, nos finais de tarde. 

“Havia surpreendentes senhoritas bonitas esportivamente trajadas durante a manhã – algumas fumando com elegância não policiada – e outras moças de meias a todas as horas, o vestido composto sempre sobre as pernas acaloradas na intimidade das coxas unidas que mãos imaginárias tentam atravessar no mar da fantasia pior do que ilimitada: indecente. Suadas senhoras, ligeiramente esquivas, exibiam pernas longas e fortes nos decks, e riam e acompanhavam as notícias transmitidas por um rádio intermitente, no meio das ondas cortadas pelo redondo nariz do Zeppelin apontando para as pernas separadas da América Latina.

Aqui, houve uma óbvia montagem literária entre a visão das passageiras estrangeiras e a das “senhoritas” do Recife – montagem essa que Doren tem que ter deixado ficar, deliberadamente, na revisão da obra só publicada três anos depois. É assim que ele começa a operar as suas estranhezas, nas dobras, na incerteza ou na impossibilidade de ser claro, no meio da hora negra em que pisou no Recife vindo das florestas de sagas e das selvas rudes que talvez preparassem o futuro da Alemanha e do Brasil: pequenos e grandes estupros políticos igualmente selando alianças para abrir caminho para fascistas e

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dessa dança sinistra de Lohengrin, o nosso Wilhelm misterioso põe os pés de sapatos brancos na lama constante das chuvas. No seu livro, as primeiras monções, isto é, as primeiras anotações – em forma de carta não especificamente endereçada – falam, sem entusiasmo, do entorno que ele vê e cheira (e toca) com a indiferença de gelo se desfazendo sob o sol tropical.

Depois, se descontrola para essa mesma pessoa: “Você ainda permanece na Lua? Eu estou descendo à terra, madre – como não sei se também dizem aqui, ainda não ouvi (nem sei se quero ouvir). A lua influencia a água, as marés, a lua é distante como o caco de um espelho de bronze que já foi extremamente polido e hoje mal reflete a mecha do cabelo da moça debruçada sobre a vitrine que expõe objetos de adorno meio incompreensíveis, os artefatos antigos de alguma civilização antiga da qual você risse, com os seus maravilhosos dentes brancos, mãe. O que alguém pode pensar quando chega, não propriamente exausto, nem especialmente interessado (ou magnificamente indiferente) numa cidade quase carnívora? 

Mas eu não pretendo ficar aqui pelo tempo determinado por seus novos – ou velhos – amigos do Partido. Há luz demais, cheiros demais (nenhum vindo da Lua refletida no espelho do quarto de uma senhora que se banha) por todos os lados de claridades invasivas…” (isso é uma litania, no livro, ele parece mortalmente fascinado pela claridade e os pontos acima correspondem a algo que quis realmente omitir.)

Doren descreve o Recife como se penetrasse num circo de mármore sujo, cagado de moscas e de besouros que qualquer um teria vontade de estourar para ver esguichar talvez a tinta verdíssima do pintor Gauguin “cujo pequeno quadro você vendeu mais do que rapidamente, quando Greta lhe disse para vender – porque a Alemanha iria morrer, por uns tempos, do gás inebriante e tóxico dos Walpurgis”.

Não se entende isso dos “Walpurgis”. E ele passa a falar do tal quadro em associação com esse nome, alemão, de sangue e tempestade: 

“Como eu gostava daquele quadro! O rosto estranho de uma mulher que não teme pensar em alguma coisa que outros chamariam de ‘perversa’, mütte: Edgar – preguiçoso e agudo – teve aquele palpite curioso (‘ela está pensando em abortar’), que você detestou ainda mais do que o quadro (agora), porque, maman, eu sei que a Lua quis me assassinar, ou quase sei, ou pelo menos desconfio com a incerteza dos Walpurgis maternos, neste lugar sem sorte”

A anotação conclui assim, vaga e sem pontuação, sem se saber se alude a um Recife já não visto do passadiço debruçado sobre a nossa “basbaquice”. A linha está simplesmente interrompida, mais uma vez (e permaneceu assim no livro intitulado, tão disfarçadamente, em alemão).

***

Com o amarelado volume nas mãos, no largo da Trindade das velhas portuguesas de preto subindo, dificultosamente, as calçadas altas de Lisboa, eu pensava no Recife de 1935 com os seus fantasmas apagados. E um deles teria sido “a Dagover local” que inesperadamente surge no relato do alemão, a recifense, “parda”, a aparição (de onde, de quando?), quando Doren de novo está falando de “luz e frutos podres”, suores e gente para quem um estrangeiro, nos dias remotos de um verão… 

Meus pensamentos se interrompem quase tanto como o texto do estrangeiro solene que se dilui com seus óculos escuros, o “herr” do rio da noite do corpo da mãe na noite da alma germânica de espáduas muito alvas, na confusão entre o branco e o negro que apaga todas as certezas do falso livro de viagem por acaso encontrado nesta temporada no inferno – sem Rimbaud – em busca de alguma lembrança que, sim, estranhamente coincide com o reverberar de “uns dentes sem defeito aflorando naquele sorriso. De algum modo, combinavam com a selvageria inocente dos olhos, pois ela devorou, já, todas as minhas resistências ponderadas e refinadas num cenário onde a cultura se derrete como açúcar debaixo do sol. O que há para fazer com ‘refinamento’ – quando se está a morrer de civilização e ódio presentes até na música?”

Claro que isso é Doren falando, dessa maneira tão íntima, no livro que salta, pula datas, não explica nada a partir de certa altura – e nos introduz a coisas consumadas, sem explicação. Para começar, não começa e, certamente, não é “o relato de uma viagem”, conforme se anuncia. O “anjo pardo – um anjo quase azul na noite vanghoguiana de Casa Amarela” – domina a parte final da narrativa mais do que nunca vaga, imprecisa, remetendo para o Reich visto da mata e para “a virtude estranhíssima do vício a convocar para a perda e o aniquilamento (como só o fazem os povos cansados)”.

EPÍLOGO
Quantos, ainda, morrerão pensando que “O Anjo Azul” é o apelido da jovem (mas já “decadente”?) dançarina Lola Lola, a personagem vivida pela magnética Marlene Dietrich, sob as ordens do exigente esteta Sternberg, diretor do famoso filme do mesmo nome?...

E quantos escritores – e candidatos a escritores – seguirão desperdiçando adjetivos (“decadente”, “magnética”, “exigente”, “famoso”) lançados como arroz de noivos sobre a cabeça convencional da literatura em núpcias com o corpo monótono do óbvio? 

O Anjo Azul referia o nome do cabaré, na verdade designava a casa noturna – como se usa dizer – que também existiu aqui (eu acabei de saber), nos anos em que durou a carreira comercial dos Zeppelins passando pelos nossos céus igualmente preguiçosos, antes de pousarem, desgraciosos, arrastados para a torre de amarração do Jiquiá que é “a única que resta no mundo”. 

Estamos sempre repetindo isso, e, bem, eu também estou me repetindo, aqui. A vida é feita de reflexos e de repetições. Wilhelm K. von Doren deve ter morrido já há muito tempo, e eu posso finalmente publicar alguns fragmentos do seu Brasilien Tag und…, sem maiores problemas, espero (“vão surgir problemas, sim”, avisou-me alguém que mantém um bem- conhecido escritório de advocacia neste Recife bem diferente daquele que o alemão conheceu, em 1935).

Quem foi ele? – volto a perguntar, agora num quintal da Rua das Graças de folhas caídas sob a chuva (que “tem carícias de morte”, segundo o poeta Ascenso). 

Uma única coisa eu poderia responder: foi o autor de Brasilien Tag und Nacht, publicado por Rowohlt Velag GmbH, de Berlim, em 1938, ainda no tempo dos dirigíveis.

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“O Graf Zeppelin completou, no total, 147 voos ao Brasil (sendo 64 transatlânticos) entre os 590 voos da sua longa carreira de 17.177,48 horas de voo, em nove anos de operação (1928-1937), o que o tornou o mais bem-sucedido dirigível da história da aviação. Foi uma fantástica e impecável carreira para uma aeronave que foi projetada e construída como protótipo, mas que, de tão perfeita, acabou sendo colocada em serviço. Transportou um total de 34 mil passageiros, 30 toneladas de carga, incluindo duas aeronaves de pequeno porte e um carro, e 39.219 malas postais, com total segurança e sem acidentes.”

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FERNANDO MONTEIRO, escritor, cineasta e crítico de arte. Autor de obras como Mattinata (2012) e O Livro de Corintha (2013).

* Todas as imagens usadas para ilustrar esta Ficção foram cedidas à Continente pelo Museu da Cidade do Recife. Estas e outras imagens foram publicadas no livro Zeppelin no Recife, de Jobson Figueiredo e Dirceu Marroquim.

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