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Portfólio

Gui Mohallem

Na direção do medo, artista diz gostar de sair da zona de conforto, trabalhando com fotografia e ativismo

TEXTO

31 de Agosto de 2017

Imagem de Gui Mohallem da série 'Welcome home' (2012), pigmento mineral sobre papel algodão, 110 x 160 cm

Imagem de Gui Mohallem da série 'Welcome home' (2012), pigmento mineral sobre papel algodão, 110 x 160 cm

Foto Gui Mohallem

[conteúdo na íntegra (degustação) | ed. 201 | setembro 2017]

Há, no medo, uma potência ambivalente. Por vezes, ao nos depararmos com o desconhecido, passamos por um conflito entre forças: repulsão e atração. O instinto é fechar os olhos ou fugir diante daquilo ou do outro que é diferente de nós, mas existe também uma outra pulsão, uma vontade latente, um tipo de força magnética que impossibilita qualquer tentativa de desvio do olhar. 

O medo parece ser o desejo que impulsiona a libido do fotógrafo e artista visual Gui Mohallem. Seja numa festividade pagã em uma floresta nos Estados Unidos, seja no Líbano tumultuado devido à guerra com a Síria, ele busca, quase sempre, fugir das suas zonas de conforto, caminhando “na direção do medo”, como ele próprio define. Seu trabalho “não é fotográfico, é performático”, diz. Sente as experiências e faz uso dos registros fotográficos como um recurso para entender melhor tudo o que foi vivido – e o que se vive –, ressignificando memórias, o que demanda uma temporalidade própria (chegou a passar cinco anos trabalhando num mesmo projeto). Nem sempre faz retratos, mas o eixo fundamental de sua obra é o olhar para o outro, o diferente que também é semelhante. O algo de “fora” que habita em nós. 

Mohallem nasceu no ano de 1979, em Itajubá, Minas Gerais, filho de libaneses – e isso diz muito mais sobre ele. Decidiu estudar Cinema na USP, em São Paulo, depois de um intercâmbio na Austrália, onde produziu um documentário, ainda com pouquíssimo conhecimento cinematográfico. Na verdade, ele cresceu sem muitas referências artísticas: “Lá em casa nunca teve nada na parede. Morávamos num vale; então, só tinha sinal de um ou dois canais de TV aberta. A referência imagética que eu tinha era muito pobre”, conta. “Em um certo momento da faculdade, fui passar um tempo na França. Comecei a levar meu portfólio a alguns lugares por lá. Uma curadora da Maison Européenne de la Photographie disse que meu trabalho parecia com foto de viagem, como outras pessoas disseram. A diferença é que ela explicou que me faltava referência e me deu o calendário do Mês da Fotografia. Sempre tive uma sede muito grande, então, quando entendi que a falta de referência era um problema, fui lá resolver”, disse, em tom bem-humorado, em entrevista à Continente

Foi convidado a participar de uma residência artística por pessoas que o conheciam através do site Flickr – trabalhos que continuam disponíveis na internet. Sua primeira série fotográfica exposta foi Ensaio para a loucura. “Loucura tem a ver com essa vontade de conectar, daquilo que compartilhamos… Ao mesmo tempo, tive problemas com esse título. Como tenho certeza que o que eu chamo de angústia é o que você chama de angústia? Como sei que o que estou vivendo é compartilhado com outra pessoa? Estamos infinitamente isolados.” O projeto era mudado a cada vez que era reexposto. Na segunda mostra, Mohallem fez uma convocatória aberta aos que se disponibilizassem a contar uma história íntima apenas para ele. Os encontros eram realizados em lugares escolhidos pelos inscritos, e dessa experimentação surgiram as fotos da série. São figuras em movimento, borradas, algumas muito distantes da fisionomia humana, que chegam como imagens perturbadoras a quem vê, mas apenas o artista e os participantes sabem realmente o que se passou ali. 

Welcome home – em português, “bem-vindo a casa” ou “ao lar” – é resultado dos cinco anos em que Mohallem esteve numa fazenda nos Estados Unidos, participando da celebração pagã Beltane, festividade que marca o início do verão. As imagens têm certo ar de mistério, um silêncio que traz o fotógrafo não como mero observador, mas como uma presença subjetiva.

É um trabalho de corpo, para o qual os sentidos precisam estar aguçados – olhos, ouvidos, pele, boca e nariz atentos. 

Imagem da série 'Welcome home' (2012), pigmento mineral sobre papel de algodão, 110 x 160 cm

magem de Gui Mohallem da série 'Welcome home' (2012), pigmento mineral sobre papel algodão, 110 x 160 cm

Se a fotografia é um recurso para entender – “digerir” – o que se viveu, o processo analógico de Welcome home foi importante para permitir ao fotógrafo um novo olhar sobre os registros. Com as capturas em superexposição à luz, as fotografias perdem a referência da realidade – revelam-se em apenas duas cores e têm traços menos definidos. O resultado se dá por conta de uma colorização posterior feita manualmente por Mohallem, reconstruindo as memórias em sua temporalidade analógica, com as imagens ganhando novos significados a partir desse toque, que é de um sentimento pós-experiencial, com a euforia do instante já apaziguada. A superexposição não foi uma escolha premeditada de como o resultado final viria a se tornar, aconteceu naturalmente para que a fotografia interferisse o mínimo possível na experiência vivenciada. O artista não regulava a luz quando fazia os registros e usava a câmera em autofoco.

Relacionar-se é delicado. O contato com o outro leva a um processo de perda do controle, inaugurando um campo de imprevisibilidade. “Amar alguém é amar também suas linhas de fuga”, diz o filósofo chileno-brasileiro Vladimir Safatle. O processo de reconstrução de si a partir do outro envolve boa parte do trabalho de Mohallem, que se transforma a cada realização de suas trajetórias artística e pessoal – difíceis de serem dissociadas. 

“Nós temos muito esse ímpeto de ‘penetrar’ o outro, que é fazer as pessoas mudarem de ideia, no sentido de ‘converter’ o outro para o nosso pensamento, ou fazer o outro comprar, ou consumir de algum jeito, admirar, ou seguir, ou dar like… Eu quero ser atingido. Prefiro estar vulnerável. Vulnerabilidade é uma escolha”, diz. “Tento estabelecer uma relação sujeito-sujeito, e não sujeito-objeto. Tenho pavor à postura da fotografia que coloca o fotógrafo ‘dono da produção da imagem’, que olha pra você e lhe julga segundo os valores dele, lhe ‘achata’ e lhe trata como ‘objeto’. Ninguém deveria ser objeto. Todos os encontros são encontros de dois desejos. Os nossos desejos precisam estar em acordo.”

Foi na faculdade que conheceu o trabalho de Claudia Andujar, quando um professor lhe mostrou o livro Yanomami. A relação profunda que a fotógrafa suíço-brasileira desenvolveu com os índios foi inspiradora para o artista. “Lembro o quanto que eu fiquei abalado com o livro. Pedi pra ficar no intervalo sozinho na sala com o livro, fiquei emocionado, porque entendi que essa pessoa tinha uma evolução espiritual tal, de entrega tal, que conseguia fazer aquilo. É um trabalho muito honesto. Aquilo virou minha referência, mesmo tendo certeza de que nunca vou conseguir chegar nesse mesmo lugar”, conta.

***

A experiência de Welcome home levou Mohallem para o passo mais difícil: depois de achar um lugar para chamar de “casa” em um país estrangeiro, decide ir conhecer suas origens no Líbano, país que seu pai deixou há mais de 60 anos. Foram duas viagens, uma em 2012 e outra em 2013, período de violência acirrada por conta dos conflitos envolvendo a guerra civil síria e a rivalidade entre xiitas e sunitas. Tcharafna significa algo como “prazer em conhecê-lo”, não exatamente em tradução literal. As fotos são uma junção de “horror e poesia”: lugares inóspitos, passagens bloqueadas, frutos, o sangue amargamente “doce”. Um vídeo – usado na exposição, que também virou fotolivro e está disponível no site do artista – mostra uma conversa entre ele e uma tia que conheceu na viagem. 

Em Tcharafna, também se inicia uma pesquisa do artista com parafina – que resulta numa série de objetos vermelhos, “ensanguentados”, com fotos encontradas nos álbuns da família no Líbano. Essa pesquisa se desdobra no seu trabalho subsequente: Terra. Com as questões de Tcharafna ainda reverberando, costurou uma narrativa mais livre, sem um deslocamento datado. “Eu tenho uma questão que é entender quais são os custos de migrar e quais são os custos de ficar na guerra civil. E voltei do Líbano sem entender qual dos dois é pior”, diz o artista. 

Terra mira para um lugar diferente, um deslocamento simbólico para um território flutuante de novas experimentações, mas ainda é uma tentativa de entender os vazios que vão sendo deixados – o que faz ponte com a questão migratória. No meio da galeria, um bloco de uma tonelada construído com a terra da própria cidade do artista e parafina remete à sensação de vazio que ficou. 

Sobre Terra, a crítica colombiana Julia Buenaventura escreveu: “Trata-se de uma terra ambígua. As fotos da exposição ou vídeos, como Paisagem.2 – que, através de várias camadas de imagens, mostra o movimento das sombras das árvores e, com ele, o vento que as move – são imagens cuja localização geográfica não é identificável. Na frente deles, o espectador está observando qualquer lugar do mundo. Há uma perda de terra, de identidade e origem que Mohallem mostra através de sua história, mas revela uma situação típica do indivíduo contemporâneo”. 

Exposição 'Terra' (2015), curadoria de Gabriel Bogossian, Galeria Emma Thomas São Paulo, SP

Atualmente, Gui Mohallem não está trabalhando em nenhum projeto artístico. Dá palestras e oficinas em várias cidades do país – motivo de sua última visita ao Recife, em que a entrevista para a Continente foi realizada –, mas suas energias têm se concentrado nas ações enquanto ativista pelos direitos humanos, especialmente os direitos LGBT. “Eu não sei como meu trabalho como ativista pode chegar dentro do universo da arte, mas, se eu realmente quero ir para o ‘outro’, isso faz muito sentido.” 

SOFIA LUCCHESI
, estagiária da Continente e fotógrafa.

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