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Perfil

O longo século de Hobsbawm

A jornada crítica e ideológica do historiador britânico – nascido em 1917, ano da Revolução Russa – que testemunhou e averiguou os principais acontecimentos dos séculos XIX e XX

TEXTO Marcelo Abreu

01 de Agosto de 2017

O historiador Eric Hobsbawm, que faria 100 anos em 2017

O historiador Eric Hobsbawm, que faria 100 anos em 2017

Foto juan esteves/divulgação

[conteúdo na íntegra (degustação) | ed. 200 | agosto 2017]

Quando lançou a autobiografia Tempos interessantes, publicada em 2002, o historiador Eric Hobsbawm, senhor de sua erudição e dos seus (então) 85 anos de idade, manteve o estilo levemente depreciativo, característico de falar de si mesmo. No livro, chegou a escrever sobre o legado que pensava deixar: “É provável que meu nome figure nas histórias de algum campo especializado de atividade, como o marxismo no século XX, e talvez surja em algum livro sobre cultura intelectual britânica. Além dessas possibilidades, se meu nome desaparecesse completamente, não haveria lacuna perceptível no relato do que sucedeu na história do século, na Grã-Bretanha ou fora dela.”
Passados 15 anos daquele texto, porém, a obra deixada por Hobsbawm continua sendo lembrada e respeitada por boa parte do mundo letrado. O interesse por suas análises, neste ano em que se comemora o centenário de seu nascimento, mostra que sua obra vem passando no teste do tempo. Seus livros estão traduzidos em cerca de 40 línguas, e pelo menos 16 títulos de sua autoria estão em catálogo no Brasil.

Hobsbawm era um daqueles intelectuais da primeira metade do século XX: de pensamento abrangente, obra volumosa e engajamento político. Sua vida longa o tornou testemunha pessoal de dramas políticos do século quase todo. Seus cursos e viagens por vários países fizeram com que um grande número de pessoas, na academia e fora dela, parasse para ler seus livros, artigos e entrevistas e ouvir suas palestras.

O início da trajetória pessoal já indicava o surgimento de um cosmopolita destinado a viver intensamente o século XX. Eric John Ernest Hobsbawm nasceu em Alexandria, no Egito (então sob o domínio britânico), filho de uma austríaca e de um comerciante inglês de origem judaica. No mesmo ano de 1917, quatro meses depois do seu nascimento, ocorreria a Revolução de Outubro na Rússia, acontecimento central na sua futura vida intelectual. Ainda criança, mudou-se com os pais para Viena, foi educado em língua alemã e tomou contato de perto com o tumulto na Europa Central, onde o Império Austro-Húngaro havia deixado de existir poucos anos atrás. Nos anos 1930, mudou-se para Berlim e, adolescente, viu a chegada do nazismo ao poder. Emigrou para a Inglaterra, onde entrou na vida acadêmica, formou-se em Cambridge e ingressou no Partido Comunista.

“O que me atraiu para a história, em primeiro lugar, foi a leitura de Karl Marx. Ele proporcionou-me a consciência de que, sem a história, seria impossível entender o que se passa no mundo”, disse ao jornalista italiano Antonio Polito, que publicou, no livro O novo século, uma longa entrevista com o historiador.

Seu trabalho começou a se destacar internacionalmente com a publicação do livro A era das revoluções, em 1962. A obra tratava do período entre 1789 e 1848, abordando a revolução industrial inglesa, a revolução francesa, e prosseguia até os movimentos revolucionários de 1848, ano também da publicação do Manifesto comunista, de Marx e Engels.

Seu texto conjugava erudição humanística, estatísticas demográficas e econômicas das fontes mais diversas e um olhar atento para fenômenos culturais como música e literatura, ajudando a contextualizar uma determinada época com precisão. A obra logo atingiu um público amplo, muito além das fronteiras da academia, a despeito do texto denso, cheio de enumerações de coisas díspares – como, por exemplo, dados econômicos do norte da Itália e do sul da Inglaterra, de épocas diferentes – no meio de frases muito longas, o que tornava a leitura lenta.

Em 1975, Hobsbawm deu prosseguimento à história contemporânea com a publicação de A era do capital (1848 a 1875). Assumindo o papel de especialista em século XIX, continuou no tema 12 anos depois ao publicar A era do império (1875 a 1914). Cunhou então a expressão “o longo século XIX”, período de 125 anos (entre 1789 e 1914) que condensou as mudanças que moldaram o mundo contemporâneo como o conhecemos.

Além do século XIX, Hobsbawm expandiu seus interesses para áreas pouco lembradas na historiografia de então. Já em 1959, com o pseudônimo de Francis Newton (inspirado num trompetista que tocava com a cantora norte-americana Billie Holiday), havia lançado o livro The jazz scene, reunindo textos de uma coluna que publicou durante anos no jornal New Statesman. Hobsbawm, nascido em 1917, ano da primeira gravação de um disco de jazz, cresceu com a música norte-americana. Na década de 1990, em entrevista ao tradicional programa da rádio BBC, Desert Island Discs, que estimulava o convidado da semana a escolher músicas que levaria para uma ilha deserta, no meio de quintetos de Schubert e cantatas de Bach, ele colocou, entre suas preferidas, Parker blues, de Charlie Parker, e He’s funny that way, cantada por Billie Holiday.

Também em 1959, Hobsbawm escreveu Rebeldes primitivos – estudo sobre as formas arcaicas dos movimentos sociais nos séculos XIX e XX, enfocando fenômenos como bandoleiros, salteadores, turbas urbanas e movimentos camponeses. Elaborou melhor o tema, 10 anos depois, num livro intitulado Bandidos, no qual analisa seitas milenaristas, amotinadas urbanas pré-industriais que tinham “sido esquecidas ou até mesmo consideradas pouco importantes por haverem tentado tratar dos problemas dos pobres numa sociedade capitalista utilizando equipamento inadequado ou historicamente obsoleto”.

A espinha dorsal de sua carreira – a trilogia sobre o século XIX – havia consagrado Eric Hobsbawm quando ele, já septuagenário, embarcou no seu mais extenso projeto. Um livro sobre o século XX, que então se aproximava do fim. Sua fama mundial ficou ainda maior com o lançamento de A era dos extremos, livro no qual ele analisa o que chamou de “o curto século XX”. Sua delimitação até hoje causa polêmica. Hobsbawm estabeleceu o começo do século em 1914, com a deflagração da Primeira Guerra Mundial, e o seu término em 1991, com o fim do comunismo e a desintegração da União Soviética.

COMUNISMO
O envolvimento de Hobsbawm com o comunismo começou ainda em Berlim, quando ele tinha 14 anos e entrou para a Associação de Alunos Socialistas, uma ramificação da Liga dos Jovens Comunistas da Alemanha. Já na Grã-Bretanha, entrou para o Partido Comunista em 1936 e permaneceu até o esfacelamento da agremiação, nos anos 1990. Esse longo envolvimento tornou-se polêmico, e viria a gerar acusações de omissão na denúncia dos crimes do período stalinista (1924-1953). 

Na verdade, Hobsbawm nunca teve uma posição dogmática sobre o marxismo. Chegou a assinar um manifesto condenando a invasão soviética da Hungria, em 1956. Apoiou a Primavera de Praga, em 1968. Em diversos outros momentos, criticou o regime soviético. Mas, ao contrário de outros historiadores de esquerda, que partiram em debandada depois da denúncia dos crimes de Stalin, ele nunca renegou suas ideias. Reconhecia abertamente ter uma relação afetiva com o marxismo que remontava à juventude, e não via razão para abandonar as ideias do passado, mesmo sabendo de todos os problemas que acompanharam a implantação do socialismo real no Leste Europeu. 

Para demonstrar independência intelectual, gostava de propalar que as autoridades da extinta URSS não se dispuseram a traduzir nenhum dos seus livros para o russo. “Embora eu fosse sabidamente membro do Partido Comunista e editor da edição inglesa das Obras escolhidas de Marx e Engels, pelos critérios da ortodoxia soviética, os livros não eram ‘marxistas’.”

Apesar de ser repetidamente rotulado pela imprensa como “o último marxista” e de sua obra dividir opiniões nos meios intelectuais ingleses, Hobsbawm não era sectário. Curiosamente, para quem organizou os 12 volumes da coleção História do marxismo, publicados no Brasil pela Editora Paz e Terra, ele se deu o direito de criticar a produção teórica sobre Marx. Em Tempos interessantes, relembra um congresso ao qual compareceu, organizado para comemorar o sesquicentenário de nascimento de Karl Marx, realizado em Paris, justamente durante o mês de maio de 1968. “Nesses congressos”, escreveu, em que “um pelotão de burocratas ideólogos da União Soviética contribuía com monografias extremamente tediosas sem qualquer interesse, os participantes se sentiam estimulados a deixar o salão de conferências e ir passear nas ruas”.

NOS ANOS 1960
A rebelião jovem dos anos 1960, que pegou Hobsbawm já como um “velho esquerdista” (tinha 51 anos em 1968), foi tema de muitas de suas reflexões. “Parecíamos usar o mesmo vocabulário, mas não parecíamos falar a mesma língua”, escreveu na autobiografia, sobre a relação com os jovens que protestavam nas ruas. Em suas obras mais recentes, gostava de ressaltar a mudança de parâmetros do que é ser um revolucionário depois da revolução dos costumes que tomou conta do Ocidente há 50 anos. Para ele, maio de 1968 não teria sido uma tentativa malograda de fazer uma revolução, mas a efetiva ratificação de outra coisa. Uma nova postura “que aboliria a política tradicional (…) por meio do slogan ‘o que é pessoal é político’”, escreveu. “Olhando para trás, é fácil ver que interpretei de forma equivocada o significado histórico da década de 1960.” Apesar das divergências, o historiador se considerava alguém que não conseguia “sobrepujar a admiração pelos perdedores combativos, ainda que estejam equivocados”.

Na verdade, Hobsbawm dialogava facilmente com intelectuais de outras cores ideológicas, e estava longe do jargão comunista tão comum nos trabalhos de ciências humanas produzidos pela esquerda. Já nos tempos como aluno de graduação, reconhecia valor no campo adversário: “Creio que aprendi muito com um professor de Cambridge, Michael Postan, que emigrara do Leste Europeu, pois era o único que acompanhava os debates no continente, e que conhecia a obra de pensadores como Marx e os sociólogos e historiadores russos. Evidentemente, sendo um ‘russo branco’, era fervorosamente anticomunista. Mas sabia do que falava.” Na França, mantinha um diálogo frequente com os historiadores da École des Annales. Tinha proximidade com intelectuais italianos e gostava de acompanhar os acontecimentos na América Latina, onde esteve várias vezes, em Cuba e no Brasil.

Mas suas posições estavam longe de ser consensuais, até mesmo na esquerda. O historiador brasileiro Daniel Aarão Reis Filho, professor da Universidade Federal Fluminense e especialista em marxismo, reconhece a importância de Hobsbawm, mas faz algumas ressalvas. “O fato de ter sido marxista, embora não dogmático, marcou-o com uma tendência indulgente e um tanto arrogante em relação a outras propostas anticapitalistas. Por outro lado, seu eurocentrismo, às vezes irritante, mas comum entre os intelectuais europeus, às vezes o faz perder a especificidade do que acontece em outras regiões do mundo.”

Aarão Reis acha que as “obras de divulgação” sobre as revoluções do século XIX são também “referências inescapáveis” e que o autor tem uma posição de “interlocutor incontornável” no debate histórico. Mas afirma também que, “como a maior parte dos intelectuais progressistas europeus do século XX, Hobsbawm é marcado por um certo ‘terceiro-mundismo’ algo ingênuo e também por uma dificuldade grande de formular críticas específicas, o que provém de um complexo de culpa muito comum nestes intelectuais do ‘primeiro mundo’”.

DESFAZENDO MITOS
Hobsbawm sempre teve interesse muito agudo por fenômenos ligados ao nacionalismo e à formação do estado-nação baseado em identidades étnicas. Ele próprio sendo judeu, não se absteve de apontar o Estado de Israel como parte do que chama de “uma mitologia” que muitas vezes justifica a criação de estados nacionais: “Não há a menor dúvida de que o mito histórico da expulsão da Palestina e o sonho do retorno só foram percebidos como programa político no fim do século XIX.” Em 1984, numa palestra na Universidade de Davis, na Califórnia, disse: “O sionismo ou, nesse sentido, qualquer movimento nacionalista moderno, não poderia ser concebido como um retorno a um passado perdido, porque o tipo de estado-nação territorial, dotado do tipo de organização que ele visava, simplesmente não existiu até o século XIX.” 

Para ele, a atividade profissional dos historiadores é “desmantelar essas mitologias, a menos que se contentem em ser servos dos ideólogos. Essa é uma contribuição importante, e os políticos não costumam agradecer aos historiadores por ela”, disse, na mesma ocasião.

Sempre atento às armadilhas do trabalho historiográfico, Hobsbawm chegou a dizer que “pensava que a profissão de historiador, ao contrário, digamos, da do físico nuclear, não pudesse, pelo menos, produzir danos. Agora sei que pode. Nossos estudos podem se converter em fábricas de bombas”, afirmou, em artigo publicado na New York Review of Books, em 1994.

Eric Hobsbawm passou a vida profissional dentro das universidades. Além de estudar em Cambridge, fez toda a carreira como professor no Birkbeck College, em Londres, e, depois de aposentado, em cursos regulares na New School for Social Research, de Nova York. Com isso, observou vários modismos acadêmicos e exerceu seu poder de crítica sobre eles, condenando o que chamou de “nebulosidade intelectual” e “marxismo vulgar”, que começaram a pairar nas universidades a partir dos anos 1970. “Nas últimas décadas, tornou-se moda, principalmente entre pessoas que se julgam de esquerda, negar que a realidade objetiva seja acessível, uma vez que o que chamamos de ‘fatos’ apenas existiria em função de conceitos e problemas prévios formulados em torno dos mesmos. Qualquer tendência a duvidar disso é considerada ‘positivismo’ e nenhum termo desqualifica mais do que esse, exceto ‘empirismo’”, escreveu no prefácio do livro Sobre história.

BARBÁRIE TECNOLÓGICA
Considerado um revolucionário na política, Hobsbawm era um moderado quando tratava de outros aspectos da sociedade e era um crítico da noção de progresso. “Desde o início da industrialização, a novidade que cada geração traz é muito mais marcante que a sua similaridade com o que havia antes. Entretanto, há ainda uma parte muito grande do mundo e dos assuntos humanos na qual o passado retém a sua autoridade, onde, portanto, a história ou a experiência, no genuíno sentido antiquado, opera do mesmo modo que operava no tempo de nossos antepassados”, disse, durante a palestra na Universidade de Davis, em 1984. “Infelizmente, uma coisa que a experiência histórica também ensinou aos historiadores é que ninguém jamais parece aprender com ela. Mas temos de continuar tentando.”

Hobsbawm morreu em 2012, aos 95 anos, e deixou reflexões que se aplicam bem ao mundo de hoje. No artigo Socialismo ou barbárie?, publicado originalmente na New Left Review, no início dos anos 1990, ele escreveu: “As coisas não se acertarão sozinhas. É isso que os socialistas lembram aos liberais. Se essa ação pública e de planejamento não for iniciada por pessoas que acreditam nos valores da liberdade, razão e civilização, será iniciada por pessoas que não acreditam nesses valores. Rosa Luxemburgo nos advertiu de que a alternativa real da história do século XX era ‘socialismo ou barbárie’. Não temos o socialismo: acautelemo-nos contra a ascensão da barbárie, especialmente da barbárie combinada com alta tecnologia.” 

MARCELO ABREU, jornalista, professor e autor de livros como Viva o grande líder: um repórter brasileiro na Coreia do Norte.

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