Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

O que está por trás desta oferta?

Como a estratégia do gratuito, surgida no final do século XIX, colabora com a movimentação de produtos, serviços e ideias no mundo contemporâneo e influencia o comportamento do público

TEXTO Débora Nascimento

01 de Junho de 2017

Parceira do U2 com a Apple, que disponibilizou disco no Itunes, foi um fiasco

Parceira do U2 com a Apple, que disponibilizou disco no Itunes, foi um fiasco

Foto Divulgação

[conteúdo da ed. 198 | junho 2017]

Há exatos 20 anos, o Radiohead lançava OK Computer. Sem saber, com esse terceiro disco da carreira, a banda inglesa publicava o último grande álbum do rock antes da derrocada da indústria fonográfica como a conhecíamos até então – comandada pelas gravadoras. Distribuído pela gigante EMI, o disco vendeu 5 milhões de cópias físicas em todo o mundo e foi aclamado pela crítica como uma obra-prima. Dez anos depois, em outubro de 2007, já num mercado totalmente diferente, dominado pelos downloads gratuitos, o quinteto anunciava seu sétimo trabalho, In rainbows, mas com uma diferença: além de liberá-lo gratuitamente, informou que, se o público quisesse pagar pelo download, poderia, ele mesmo, estabelecer o seu preço. Ao contrário de grupos como o Metallica, que estavam brigando com os próprios fãs, o Radiohead moldou-se ao novo ambiente e ainda conseguiu, com isso, uma forma de divulgar o lançamento. A liberdade que deu ao ouvinte repercutiu nas páginas de jornais e sites de notícia e se tornou a mais emblemática e bem-sucedida estratégia de divulgação de um disco em meio ao tipo de comportamento que caracterizaria o consumidor a partir dos anos 2000: a relutância em pagar por qualquer coisa. 

O lançamento do Napster, que liberava músicas gratuitamente através do sistema P2P ou peer-to-peer (par a par, em que cada computador conectado realiza as funções de cliente e servidor), foi decisivo para a transformação comportamental que se estabeleceu a partir de 1999, como o encerramento de uma era e o início de outra, na qual obter coisas gratuitamente passou a gerar uma nova forma de cultura, a cultura do grátis. Isso vem moldando a Geração Y ou Millennial, acostumada a ter (quase) tudo de graça, de forma extremamente rápida e – por que não? – descartável. 

O Google, que se destacou pelo seu sistema de buscas, surgido em setembro de 1998, é possivelmente o maior símbolo dessa época que vivemos. Afinal, é a mais bem-sucedida empresa que vive (e lucra) em torno do grátis, com rendimento líquido em 2016 de R$ 5 bilhões – esse valor pode ser até maior ou menor, pois, numa metalinguagem, essa informação foi encontrada numa busca no próprio Google.

“Essa é a Geração do Google e ela cresceu online presumindo que tudo que é digital é grátis. Eles internalizaram a dinâmica de mercado sutil da economia do custo marginal quase inexistente, da mesma forma que nós internalizamos a mecânica newtoniana quando aprendemos a pegar uma bola. O fato de estarmos criando uma economia global em torno do preço zero parecia tão óbvio, que mal chegava a ser notado”, afirmou o jornalista Chris Anderson, no livro Grátis: o futuro dos preços, lançado em 2009, um ano após o estouro da crise econômica nos Estados Unidos. 

Essa mudança no comportamento no público vem sendo percebida pelo produtor musical Paulo André Pires, realizador há 24 anos do Abril Pro Rock, festival recifense de impacto nacional, que lançou diversas bandas. “É como se a plateia estivesse acostumada aos shows gratuitos e não quisesse mais desembolsar para ouvir música. A Nação Zumbi há oito anos não toca no festival, porque sempre se apresenta no Carnaval. Só neste ano não tocou. Então, fez um show particular e lotou. Não sou contra o show gratuito, sou contra a falta de política cultural. Os shows gratuitos toda semana no Pátio de São Pedro nem revitalizaram a área nem fortaleceram a cena musical, porque não eram planejados, pensados, eram feitos no ‘vai fazendo’. Não basta montar o palco e botar o som. É preciso fazer um trabalho maior. Conheço alguns nomes que não conseguem fazer um show privado porque não têm público fora do esquema gratuito. Acho que a Terça Negra (o evento gratuito a que o produtor se refere, no Pátio de São Pedro, no centro histórico do Recife) é uma política pública eficiente porque apresenta uma música que não encontra espaço nas casas de shows pagos”, avalia.

Nem todas as vezes usar o grátis como tática mercadológica é garantia de um resultado positivo. Em 2014, para divulgar o iPhone 6, a Apple, em uma parceria com o U2, fez uma surpresa para 500 milhões usuários do iTunes. No dia 9 de setembro, nos smartphones e computadores, foi disponibilizado o novo álbum da banda irlandesa, Songs of innocence. O que parecia ser um plano genial acabou surtindo um inesperado efeito. O grupo e a companhia não levaram em consideração que, primeiro, estavam invadindo os celulares das pessoas; segundo, nem todo mundo é fã do U2, principalmente essa nova geração de ouvintes de música e, por fim, o disco era um dos mais fracos do quarteto.

Não demoraram a surgir, nas redes sociais, reclamações dos agraciados, que, sim, se tornaram a principal notícia musical do dia, e não o disco gratuito em si. A empresa, que gastou 100 milhões para distribuir Songs of innocence, teve que lançar e divulgar uma ferramenta para o usuário poder apagar o brinde dos celulares e computadores.

O primeiro exemplo de serviço gratuito “virtual” (não digital, virtual) vem exatamente da área musical: o conteúdo reproduzido pelo rádio. Quando o aparelho foi popularizado, no início do século passado, surgiu o primeiro embate na indústria musical. As transmissões eram feitas ao vivo e os músicos recebiam por elas. Com o sucesso do veículo, os músicos passaram a cobrar cachês maiores, afinal estavam sendo ouvidos por milhares de pessoas. A lógica é que, se essas mesmas pessoas estivessem numa casa de shows, eles lucrariam mais.

Como naquela época ainda não existia medição de audiência eficaz, a American Society of Composers, Authors and Publishers (Ascap), que detinha o contrato da maior parte dos artistas, estabeleceu direitos autorais de 3% a 5% sobre o faturamento publicitário em troca do direito de executar as músicas.

Como resposta, as estações de rádio extinguiram as apresentações ao vivo e passaram a executar as músicas gravadas, anunciadas por um locutor, que seria chamado de disk jockey (DJ). As gravadoras reagiram vendendo discos com o alerta “Não licenciado para a transmissão por rádio”. Em 1940, no entanto, a Corte Suprema decretou que as emissoras poderiam reproduzir uma gravação, se comprassem o disco. No duelo, a Ascap convenceu seus associados a pararem de gravar.

Com uma seleção de músicas menor, as empresas criaram o próprio órgão de direitos autorais, a Broadcast Music Incorporated (BMI), que foi em busca de novos artistas. A partir daí, gêneros como rhythm and blues, country e western, antes ignorados, ganharam espaço nas rádios. Muitos desses músicos, de origem humilde e alheios à discussão pela valorização dos cachês, permitiram que as estações de rádio executassem gratuitamente suas composições. 

Com isso, o rádio se tornou o principal meio de divulgação de música, status que passou a ser abalado a partir dos anos 2000, com os downloads gratuitos, e 2005, com o surgimento do YouTube. Como aumentou a oferta de artistas querendo suas músicas nas rádios, em vez de pagá-los, as emissoras passaram, inclusive, a receber para tocar músicas, o chamado “jabá”. O jogo se inverteu. E as taxas de direitos autorais continuaram baixas. Essa gratuidade da audição da música, através do rádio, contribuiu para que o mercado musical se estabelecesse. Os artistas passaram, então, a lucrar mais com a venda de ingressos para shows e discos. 

ISCA
Mais de meio século depois dessa grande farra na indústria fonográfica, com músicos vendendo milhões de cópias e rádios e gravadoras alcançando lucros estratosféricos, as trocas de arquivo, a pirataria, o download gratuito pareciam que iam acabar com tudo. Então, a Apple surgiu com a venda de faixas isoladas através do iTunes, o que destruiu de vez com o conceito de “álbum de rock”, como era, por exemplo, o citado OK Computer do Radiohead. E depois surgiriam as plataformas de streaming, que parecem ser a solução possível para quem quer continuar vivendo de música.

O Spotify, o mais popular desse tipo de serviço, disponibiliza uma opção gratuita, em que o usuário não tem as vantagens do manejo da versão paga, mas é uma forma de prender o futuro assinante, que, por R$ 16,90 mensais, têm o direito de ouvir todas as músicas existentes no catálogo, mais de 30 milhões – uma espécie de ampliação dos antigos clubes do disco, nos quais o cliente pagava uma quantia mensal e recebia em casa alguns lançamentos.

O serviço gratuito do Spotify é, na realidade, pago pelos assinantes. Hoje, são mais de 100 milhões. A lógica é igual ao sistema das academias de ginástica, que oferecem descontos por pacotes de longos períodos. Os clientes que não se exercitam com frequência, sem perceber, estão pagando para que os novatos tenham descontos e os assíduos se beneficiem. Na Dinamarca, uma academia de ginástica chegou a oferecer um programa em que o cliente não paga nada, se aparecer uma vez por semana, pelo menos. Mas, se faltar uma semana, pagará a mensalidade integral.

Isca para atrair consumidores, ninguém raciocina muito sobre o que está por trás da gratuidade. O Google, maior empresa voltada para o grátis, surgiu em 1998, na Califórnia. Criou uma forma veloz, eficaz e simples de pesquisar conteúdo na internet. Derrubou, com isso, os sistemas de buscas que existiam na época. Ao demarcar território entre 1999 e 2001, criou, entre 2001 e 2003, um autosserviço para os anunciantes elaborarem anúncios correspondentes às palavras-chave de busca e darem lances pelas posições de maior visibilidade para suas empresas. A corporação também gerou outros serviços para fincar de vez a marca. Hoje, oferece quase 100 produtos, de software de edição de fotos a aplicativos de processamento de textos e planilhas eletrônicas. 

Dentre os serviços, está o Gmail, lançado no dia 1o de abril de 2004. Até então, o maior provedor de e-mail era o Yahoo, com 125 milhões de usuários – a maioria usava a versão gratuita, com 10 megabytes de armazenamento. Quem quisesse mais, teria que pagar de 25 megabytes a 100 megabytes, e evitava, também, os anúncios. O Google, então, lançou gratuitamente seu serviço de e-mail com 1 gigabyte de armazenamento (mil megabytes) – 100 vezes a capacidade do Yahoo.

No mês seguinte, o armazenamento grátis do Yahoo passou de 10 a 100 megabytes e logo seria aumentado – os usuários premium que haviam pago por essa capacidade de armazenamento seriam reembolsados. No final do ano, alcançou o 1 gigabyte e, em 2007, anunciou armazenamento ilimitado de graça. Enquanto isso, o Gmail só aumentou aos poucos seu armazenamento grátis, que hoje é de 15 gigabytes, mas se tornou líder do mercado, embora o Yahoo ofereça um 1 terabytes (1 mil gigabytes), porque sua interface é mais inteligente e está interligada a outros serviços, como Google Docs.

SEGURANÇA
Mas a bomba da gratuidade estourou. Em março do ano passado, o Gmail revelou que dados de seus usuários foram hackeados. A empresa informou que o alvo eram “ativistas, jornalistas e políticos com posições corajosas pelo mundo” e que o percentual atingido era de 0,1% de seu 1 bilhão de usuários. Ou seja, 1 milhão de pessoas. Já em março deste ano, o Departamento de Justiça dos EUA acusou dois agentes russos e dois hackers pelo roubo de 500 milhões de contas do Yahoo em 2014. Foram acessadas informações como nomes, endereços de e-mail, números de telefone, datas de nascimento e senhas criptografadas. 

Já a agência federal alemã contra crimes digitais (BSI) denunciou, em maio, que o Yahoo não colaborou com a investigação sobre os roubos virtuais de dados, que aconteceram entre 2013 e 2016. Após ataques cibernéticos nas eleições presidenciais francesas e norte-americanas ligadas à Rússia, o governo alemão está apreensivo sobre possíveis interferências nas eleições que ocorrem em setembro. Vladimir Putin negou seu envolvimento.

Fora esses episódios, os e-mails e os sistemas de busca já vêm sendo fontes de informações ao próprio governo norte-americano e órgãos de segurança. Há o caso de um homem que estava fazendo pesquisa, em seu computador, sobre tipos específicos de assassinatos. A polícia, então, bateu em sua porta e o prendeu. Na averiguação, foi revelado que ele estava buscando informações para construir um texto. Era Jerome Schwartz, roteirista da série de TV Cold Case. O fato está relatado em Sujeito a termos e condições (2013), documentário que demonstra como as corporações e governos têm acesso às informações através de bancos de dados de serviços gratuitos, permitidos de serem acessados pelos usuários ao clicarem o “aceitar” em um termo de uso, que geralmente ninguém lê.

Além de Google versus Yahoo, outra batalha entre empresas que envolveu produtos gratuitos aconteceu quando a Netscape lançou um navegador grátis, o Navigator. Feito para funcionar melhor com o próprio software patenteado de servidor de web da empresa, foi uma tentativa de abocanhar parte do lucrativo mercado de sistemas operacionais de servidores das Microsoft. Bill Gates, então, desenvolveu seu navegador gratuito, o Internet Explorer, e o incorporou a todas as versões de seu sistema operacional. 

Com isso, a Microsoft afetou o crescimento da Netscape e teve que realizar ações antitruste e pagar multas por comportamento anticompetitivo. A acusação é de que a empresa estava vinculando um produto gratuito a um pago, assim como acontece com o McLanche Feliz, que dá o brinquedo “de graça”, mas o preço está embutido no combo sanduíche-batatas-refrigerante. 

Uma empresa pode usar a estratégia do grátis, desde que não estabeleça um monopólio, que afasta os concorrentes do mercado. Os “prejuízos” da Microsoft foram milhões de dólares pagos em multas e honorários dos advogados, além da reputação arranhada – Bill Gates aumentou sua fama de ganancioso, iniciada na guerra contra a Apple.

“Vinte anos atrás, as 100 principais empresas da lista da Fortune extraíam alguma coisa do chão ou transformavam um recurso natural (minério de ferro ou petróleo) em algo que era possível segurar”, afirmou Seth Godin, no livro Unleashing the ideavirus. Hoje, somente 32 das 100 principais empresas produzem coisas palpáveis, entre equipamento aeroespacial, automóveis, substâncias químicas, alimentos, moldagem de metal. As outras 68 processam ideias, não recursos.

Como apontou Chris Anderson: “O século XX representou, em grande parte, uma economia dos átomos. O século XXI será igualmente uma economia dos bits. Qualquer item grátis na economia dos átomos deve ser pago por algum outro item, e é por isso que o grátis tradicional cheira tanto a uma isca – você está pagando, de uma forma ou de outra. Mas o grátis na economia dos bits pode ser realmente grátis, excluindo totalmente o dinheiro da equação. Hoje em dia, os modelos de negócio mais interessantes estão descobrindo maneiras de ganhar dinheiro em função do grátis. Mais cedo ou mais tarde, toda empresa precisará descobrir formas de utilizar o grátis ou competir com o grátis, de uma forma ou de outra”. Segundo ele, este século inventou uma forma de gratuidade que definirá a próxima era.

PRIMÓRDIOS
Em 1895, Pearle Wait, um carpinteiro de LeRoy, Nova York, pensou em popularizar a gelatina em pó (inventada por Peter Cooper). Resolveu, então, acrescentar diversos sabores, misturou sucos de fruta, açúcar e corantes e deu a ela o nome de Jell-O. Sem sucesso, acabou vendendo a marca em 1899, por 450 dólares, a um interessado chamado Orator Frank Woodward. 

Aliado a um publicitário, Woodward, depois de elaborar o anúncio “A sobremesa mais famosa da América”, pensou que poderia criar uma demanda a partir da distribuição de um livro de receitas gratuito informando sobre diversas maneiras de usar a gelatina. Quanto mais distribuía de porta em porta a publicação, mais vendia o alimento. E o slogan fictício acabou se tornando realidade.

Paralelamente a isso, King Gillette, um vendedor de tampas de garrafa, inventor e paradoxalmente anticapitalista, publicava, em 1894, The human drift, livro utópico em que defendia que toda a indústria deveria ser realizada por uma única corporação de propriedade do público e que os norte-americanos deveriam viver em uma cidade chamada Metropolis, com toda a energia vinda das Cataratas do Niágara. No entanto, ele tinha o propósito de viver de algum invento, um dos grandes ideais do século XIX – assim como hoje há, dentre os geeks, o desejo de criar algum aplicativo que seja, ao mesmo tempo, gratuito e rentável, como o Instagram, cofundado em 2010 pelo brasileiro Mike Krieger e vendido em 2012 ao Facebook por um R$ 1,8 bilhão. Voltando a Gillette… Ele sempre ouvia um conselho do seu patrão: invente algo que as pessoas usem e descartem.

Um dia, enquanto fazia a barba com uma navalha gasta, teve uma ideia. Em vez de afiar a lâmina, ele poderia descartá-la e usar outra. Depois de anos de experimentação, surgiu o modelo perfeito de aparelho e lâmina de barbear. Para vender a lâmina, Gillette distribuiu, primeiro, os aparelhos. Criou a necessidade e firmou um modelo de negócios que influenciaria diversas marcas e produtos no futuro. Quem nunca recebeu uma proposta de ganhar um celular gratuito, mas, para isso, teria que assinar um plano anual com uma operadora? Quem nunca tomou um cafezinho pago numa máquina instalada gratuitamente em seu escritório? 

CONSUMO DE MASSA
A ideia do grátis ajudou a consolidar o mercado de consumo de massa no século XX e se tornou um recurso bastante utilizado nas agências publicitárias. “Quando um produto está ingressando num determinado mercado, está em fase de lançamento, é muito comum o uso de versões promocionais gratuitas que favoreçam o primeiro contato dos consumidores com o produto. São amostras distribuídas gratuitamente ou experiências como, por exemplo, degustação de alimentos em supermercados. Costuma ser uma estratégia eficaz e infalível de divulgação, porque favorece o awareness, ou seja, o conhecimento e a consequente lembrança do produto/marca. Se o produto/serviço for de boa qualidade e acessível ao público-alvo, vem a despertar o desejo pelo consumo pago”, explica a publicitária e professora de Comunicação da UFPE Izabela Domingues.

No livro Previsivelmente irracional, o professor de psicologia e economia comportamental Dan Ariely descreve experimentos sob o efeito da palavra “grátis” nos seres humanos. “Zero não é apenas outro preço. Zero é um poderoso botão emocional – uma fonte de empolgação irracional.” Em um dos testes, os pesquisadores venderam dois tipos de chocolates: trufas Lindt da Suíça e Kisses da Hershey’s. As trufas custavam U$0,15 e os Kisses, U$0,1. Os clientes consideraram mais a qualidade do que o preço: 73% escolheram a trufa. Então, quando apenas o Kiss passou a ser gratuito, as pessoas descartaram as trufas. 

Experiência real, espontânea e semelhante aconteceu com a Amazon. A promoção de entrega gratuita a partir de U$ 25 estimulava a compra de mais de um livro. O esquema foi próspero em diversos países, menos na França. O motivo: o site francês havia cometido um erro, configurou o valor de remessa em 1 franco. Essa pequena quantia evitou completamente a compra do segundo livro. Quando a Amazon consertou, os franceses passaram a consumir igualmente ao resto do mundo. 

“A maioria das transações tem uma vantagem e uma desvantagem, mas, quando alguma é ‘Grátis!’, esquecemo-nos da desvantagem. O ‘Grátis!’ tem uma carga emocional tão poderosa, que achamos que o que está sendo oferecido é imensamente mais valioso do que realmente é. Por quê? Acho que é porque os humanos têm um medo intrínseco da perda. A verdadeira sedução do ‘Grátis!’ vem ligada a esse temor. Não existe uma possibilidade visível de perda quando escolhemos um item ‘Grátis!’ (afinal, ele é grátis). Mas suponha que tenhamos escolhido um item que não seja gratuito. Agora corremos o risco de tomar uma decisão errada – a possibilidade de perda. E, então, se tivermos escolha, optaremos pelo item grátis”, avaliou Dan Ariely.

O gratuito pode trazer benefícios tanto para quem recebe quanto para quem oferece. O exemplo atual mais gritante é o Facebook. Criado em 2004 para conectar os estudantes de Harvard, o site suplantou o Orkut (2004-2014), lançado pelo Google apenas um mês antes, e se tornou a rede social mais frequentada do mundo, com número de frequentadores já perto dos 2 bilhões. O seu vitorioso mecanismo, na realidade, é um contrassenso: os usuários não pagam para acessar o site, mas o seu conteúdo, principal atrativo, é alimentado diariamente pelos próprios beneficiários da gratuidade. E a empresa ainda lucra duplamente com isso, vendendo as informações de seus clientes a seus anunciantes. O CEO Mark Zuckerberg sabe que o sucesso do Facebook reside num motivo, todos – ele, sua empresa, seus anunciantes, seus usuários – estão, afinal de contas, trocando uma moeda preciosa: a imagem.

DINHEIRO VIRTUAL
Já há algum tempo, além dos serviços grátis, o mundo caminha para não usar mais o dinheiro em papel, a exemplo do Uber, em que não há pagamento direto ao motorista. “A comunidade financeira internacional já desenvolve um sistema de pagamentos global baseado em moedas como a bitcoin, de valor universal, que não só eliminará a intermediação de recursos (enfraquecendo os bancos), como também extinguirá operações de câmbio (reduzindo os papéis dos bancos centrais). Estamos nos aproximando de uma época em que recursos universais serão criados a partir do valor de nosso trabalho e serão usados para transacionar mercadorias de serviços em qualquer lugar do mundo. Músicos, por exemplo, venderão suas criações diretamente a seus fãs e consumidores do mundo todo, sem que o dinheiro passe por bancos, gravadoras, distribuidoras e afins”, escreveu o consultor financeiro Gustavo Gerbase.

O designer Pedro Melo vem usando esse recurso. “Eu estava numa dessas fases em que precisava viajar pra esfriar a cabeça e conhecer coisas novas. Pedi demissão, acabei noivado, dei um tempo da família, da igreja, dos planos… Fazia pouco tempo que havia decidido pintar em madeira, estava gostando e não queria perder o ritmo. Minutos antes de fechar a mala de viagem pra Europa, em 2013, cortei seis pedaços de madeira. Coloquei na mala sabendo que iria pintar e trocar essas pinturas com estranhos. Não fazia ideia do que trocaria. Chegando a Barcelona, fiz minha primeira troca, um quadro pintado na hora trocado por um café e mais um suco. Foi fantástica a experiência, pela aceitação e pelo papo e conhecimento com a dona do estabelecimento. Numa troca dessa, caiu a ficha sobre qual era a ‘missão’ do projeto. Conhecer pessoas e a moeda pra isso é trocando ‘experiência’”.

Segundo ele, já não tem mais ideia da quantidade de vezes que fez essas trocas. “Foram coisas pequenas e grandes, aí deixei de contar. Pra mim, a primeira de todas as vantagens é a de ter uma experiência diferente por onde passei. Aquela sensação de ‘deixar a marca’ naquela cidade, de conhecer alguém, lugar, coisa através do que gosto de fazer ‘brincando’. O projeto, de fato, é muito mais ‘antropológico’ do que material. De todas as trocas, com certeza, muitas vou levar para o resto da vida, e a outra pessoa também. Até amigos, assim, venho fazendo. Mas, é claro, que rolam ‘vantagens’, como, por exemplo, fazer um quadro e ganhar diárias mais passeio de lancha e cerveja. Isso é fantástico.” A ideia inspirou outras pessoas. “Conheci uma menina em 2014. Logo depois que ela viu meu projeto sair num blog, decidiu juntar as coisas e fazer um mochilão. E, vez ou outra, recebo uns e-mails de pessoas usando a ‘troca’ como argumento para umas mudanças pessoais. Isso é bacana, artistas fazendo isso.”

O grátis não traz somente vantagem ao consumidor, mas também ao profissional que realiza algum trabalho voluntário. O jornalista e professor Lula Pinto, em 2013, resolveu destinar parte de seu tempo ao movimento Ocupe Estelita, campanha contra a construção do projeto Novo Recife, onde fica o Cais Estelita, no Bairro de São José, área central da cidade. “Foi imediata a percepção de que deveria me envolver pessoalmente, depois que começaram a derrubar os galpões. Naquele momento, eram poucas as pessoas envolvidas com o trabalho de comunicação, que é desgastante. E me senti na obrigação de chegar junto para ser coerente com minhas preocupações e posicionamento.” 

Por cerca de um ano, o jornalista produziu releases, gerenciou as redes do movimento e alimentou o site com conteúdos produzidos por ele ou outras pessoas do grupo de comunicação. “A gente se acostumou a pensar que os ganhos são necessariamente monetários, porque estamos envolvidos até o talo numa lógica de economia de mercado que não vê possibilidades fora da relação ‘trabalho, ganho em dinheiro’. Mas ganhei muita experiência, novos amigos, um novo amor, um entendimento mais apurado e atual das lutas urbanas. E todas essas coisas, inclusive o amor, o dinheiro não compra. O envolvimento torna concretas e reais as formas que temos de ver o mundo e é necessário estar coerente com essa forma de ver. Ao se envolver, a gente tem a chance de ganhar ainda mais uma coisa: integridade, potência pessoal e coletiva, maturidade e fé. Foi o melhor trabalho que eu já fiz.”

Desde o surgimento da Jell-O e da Gillette, o universo dos produtos e serviços “de graça” cresceu e tem hoje incontáveis exemplos: downloads, ligação gratuita, feira de troca-troca, hortas comunitárias, PDFs de livros, Wikipedia, site do New York Times, Linux, YouTube, passeios virtuais por museus, eventos ladies free, assinatura gratuita de cartão de crédito, reciclagem de material, software livre, serviços comunitários, Wi-Fi e ketchup da lanchonete. Ironicamente, o grátis é uma ínfima amostra da utopia comunista dentro do pandemônio capitalista, um artifício que colabora com a manutenção do sistema econômico e contribui para torná-lo suportável. Karl Marx (1818-1883), que faleceu poucos anos antes do advento do grátis no capitalismo, possivelmente escreveria um livro sobre esse paradoxo. 

 

Publicidade

veja também

Elza Soares

Da América Latina à URSS

A terra do clã dos rajputs

comentários