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A terra do clã dos rajputs

Boa parte do território do Rajastão, maior em extensão geográfica da Índia, é ocupada pelo deserto, que foi berço da civilização veda, uma das primeiras e mais antigas do mundo

TEXTO Carolina Albuquerque

01 de Junho de 2017

Seja na zona rural ou urbana, as mulheres do Rajastão se vestem de maneira impecável

Seja na zona rural ou urbana, as mulheres do Rajastão se vestem de maneira impecável

Foto Ana Caroline de Lima

[conteúdo da ed. 198 | junho 2017]

O caminho de Jaisalmer para Jodhpur (duas cidades turísticas da província do Rajastão, no Noroeste da Índia) dura cerca de sete horas num ônibus local. A paisagem que se descortina ao longo do trajeto exibe tons de dourado. Pela janela, o cenário se desenha pela aridez da terra e vegetação. O ambiente é preenchido por um ar seco e cálido de uma manhã inevitável de sol. O calor é quase palpável e sensível aos olhos. O deserto do Thar que cobre grande parte da região rajasthani é monótono e, em alguma medida, hostil. Porém, a dureza da paisagem não define a região, destino apontado como um dos mais turísticos do país. A monotonia não define o seu povo. Muito menos as tradições que ali se mantêm há mais de 5 mil anos. O Rajastão não guarda nada de uniforme e previsível. Vibra a cada esquina.

O Ocidente se acostumou a pintar a Índia com as cores vibrantes e as tradições insólitas. Narrada pelas lendas de príncipes e princesas que habitavam os suntuosos palácios e fortes reais. Esse imaginário deve muito ao Rajastão. O nome da província significa literalmente “terra dos rajputs”, palavra em sânscrito que se traduz por “rei”. Até a ascensão ao poder dos rajputs, a região chegou a ser dividida em 36 clãs reais. Contudo, a soberania do clã dos “guerreiros reais” perdurou do século VI até o século XIX, quando começou o seu declínio. Durante esse governo, a região foi dividida em 19 principados, duas chefias principais e o distrito britânico de Ajmer-Merwara.

É hoje a maior província em extensão geográfica da Índia (10% do território nacional), resultado das inúmeras empreitadas bélicas e expansionistas comandadas pelos vários impérios. De acordo com dados oficias do governo do Rajastão, a população atual da província é de 68.548.437 milhões, desses, 75,1% habitam áreas rurais, enquanto 24,9% estão em zona urbana. Do total populacional, uma porcentagem de 13,5% é formada por tribos. Envolto em aura mística, o deserto, que ocupa cerca de três quintos do seu território, foi o berço da civilização veda, uma das primeiras e mais antigas do mundo. Os vedas deram origem ao hinduísmo moderno, religião mais difundida no país. 

De alguma forma, a história sobre reis e marajás (os grandes chefes) permanece viva aos olhos e à experiência turística. As principais cidades do Rajastão, como Jaipur, Jodhpur, Jaisalmer e Udaipur, são visitadas por milhares de pessoas a cada ano, pela imponência de seus fortes e palácios. Legados da época em que o poder estava concentrado nas mãos das famílias reais, esses monumentos históricos constituem o roteiro indiano mais óbvio. Para uma experiência mais autêntica, seria necessário dedicar mais tempo às ruelas das grandes cidades, aos mercados públicos, nos centros históricos, e às pequenas comunidades étnicas que persistem nas áreas rurais e desérticas do Rajastão. A herança arquitetônica é apenas uma fração do surpreendente universo paralelo que a região tem a oferecer aos seus visitantes.

JODHPUR
Imaginemos um dia comum, no centro da cidade antiga de Jodhpur. O sol de um vermelho alaranjado intenso desponta no céu empoeirado junto com um estridente som. Os primeiros raios iluminam as paredes das construções pintadas de azul (a velha cidade azul). A prece que vem da mesquita se mistura ao sino tocado pelos devotos do hinduísmo e seus mantras. O centro da cidade antiga de Jodhpur não tarda a ferver, de calor e frenético vaivém. As pessoas, os tuk-tuk, os ambulantes e vendedores, os carros, as motos, o cheiro da comida de rua, as crianças, as vacas sagradas, as ruelas, a sujeira, o calor, o incômodo barulho das buzinas. O caos paira adiante. Não há como escapar. Jodhpur está entre as cidades mais populosas da região, logo depois da capital, Jaipur.

Tudo acontece nesse quadrante de ruelas, circundado pelos muros que demarcam a cidade antiga de Jodhpur. Caminhar pelo lugar é um convite ao onírico. Pois ali, no meio da multidão de indianos, não constitui uma surpresa se deparar com um elefante que passa pelas ruas estreitas, bem diante dos seus olhos. Ou um camelo. Vários deles, aliás, param no sinal vermelho assim como os carros, obedecendo às leis de trânsito.

Perceber a dinâmica daquele povo também se mostra uma rica experiência. Um grupo de mulheres que senta de cócoras, posição de “descanso” comumente adotada pelos indianos, enquanto comem samosas (tipo de pastel de massa frita recheada com batata e especiarias indianas). Parte dos coloridos sáris (veste tradicional indiana) arrasta-se pelo chão, tomado pela poeira e pelo lixo. Um senhor de turbante colorido, sentado de cócoras, desfruta calmamente de um masala chai (bebida quente indiana feita à base de leite, gengibre, cardamomo, canela, pimenta do reino, cravo da índia e chá-preto).

As mulheres e os homens rajasthani apresentam-se como se estivessem numa festa de gala. Do turbante (pagri) ao sári (ghagras), passando pela típica joalheria, tudo tem um aspecto particular. O Rajastão nos convida, a todo momento, a vivenciar a tradicional cultura milenar e o modo de vida contemporâneo, que parecem conviver em raro equilíbrio. E são as pessoas e o modo de vida adotado por elas que compõem o vibrante quadro da cultura local.Na zona rural ou urbana, as mulheres dali se vestem de maneira impecável. Seja uma trabalhadora de campo que sai para coletar madeira ou uma senhora da alta sociedade. O cuidado com a aparência e o apreço à tradição se nota do tornozelo à cabeça. “A joalheria do Rajastão, especificamente dos arredores de Jodhpur, é única e autêntica. Grandes e brilhantes pulseiras e colares significam prosperidade, beleza, felicidade”, conta o comerciante de Jodhpur Amit Kothari.

O odhni ou sári, roupa que vestem as rajasthani, tem 300 centímentos de comprimento e 150 de largura. De acordo com o estilo local de se vestir, uma ponta deve estar atada à camiseta. Daí, desenrola-se a saia que cobre toda parte inferior do corpo. O tecido termina quando a ponta oposta encobre, como um véu, o rosto, os cabelos e o ombro direito. As cores e a estampa são particulares de cada casta, tipo de costume ou ocasião (como casamentos). O ato de cobrir a cabeça e, muitas vezes o rosto, é específico dessa região.

Por sua vez, o turbante (pagri) é um adereço indispensável ao homem rajasthani. Chega a medir 25 metros de comprimento. Um homem que não o usa é considerado “despido”. É possível identificar um indivíduo pela casta, crença, religião e região baseando-se nas cores e no estilo de amarrar o turbante, ainda que o seu uso se mantenha mais pela tradição que por razões religiosas. Conta-se que o estilo do turbante muda a cada 15 quilômetros. Isso porque existem mais de mil tipos de turbantes e formas de usá-lo. Originalmente, o povo da região começou a vesti-lo para manter a cabeça úmida e fria, amenizando o calor do deserto. O tecido era deixado de molho em água durante a noite e atado à cabeça pela manhã. Outra utilidade é a de servir como um travesseiro ou um cobertor no momento de tirar uma soneca no meio do dia, em qualquer lugar, um hábito muito comum aos indianos. Mais que tudo, o turbante é um símbolo de orgulho, prestígio, respeito e “realeza” para aqueles que o usam.

Enquanto isso, as crianças rajasthani têm seus olhos pintados de negro pelo kajal, ou kohl. Cheia de simbolismo, essa prática também se mantém desde tempos muito antigos. As famílias do Rajastão acreditam que, ao pintar os olhos dos bebês, os protege dos espíritos do mal. Trata-se também de uma questão de estética, pois, ao usar a tintura, os olhos se destacam, tornando-se grandes e atrativos.

ROTA RELIGIOSA
A Índia é caracterizada pela sua diversidade de crenças e práticas religiosas. Foi exatamente no território do subcontinente indiano que nasceram quatro das principais religiões do mundo: hinduísmo, budismo, jainismo e o siquismo. O Rajastão é um lugar interessante para aqueles que querem ter contato com as diversas práticas religiosas indianas, pela sua diversidade de templos e rituais.

A cidade de Bikaner está na rota turística dessa região pelo peculiar templo Karni Mata, ou Templo dos Ratos, situado em Deshnoke (a 30 quilômetros de Bikaner). Nesse local sagrado, acredita-se que vivem mais de 20 mil ratos negros, e alguns brancos, estes últimos considerados um “bom agouro”, quando vistos. A adoração a esse animal, conhecido como kabbas, é creditada a lendas e ao folclore local. Duas histórias são difundidas pelos devotos. A primeira conta sobre uma tropa de 20 mil soldados desertados que chegou à vila de Deshnoke. Quando Mata (deusa hindu) soube da fuga do campo de batalha, transformou-os em ratos, como ato de punição, e ofereceu-lhes um templo. Então, os soldados, em gratidão, prometeram à entidade servi-la para sempre. A outra remete ao personagem do hinduísmo Lakshman, enteado da deusa Karni Mata, que se afogou no lago de Kapil Sarovar, enquanto bebia água. Mata, então, implorou a Yama, o deus da morte, para poupar sua vida. Ele a atendeu, permitindo a reencarnação do enteado no corpo de um rato.

Outros templos chamam a atenção por sua arquitetura, história ou exotismo. Em Jaisalmer, dentro da imensidão do forte (são 460 metros de comprimento e 230 de largura, onde atualmente se encontram casas residenciais e comércio), está localizado o templo jainista Rishabhadeva. Ele foi construído com a típica pedra amarela feita com a areia do deserto, mesmo material usado para erguer o forte. Por fora e por dentro, são observadas inúmeras esculturas que retratam as entidades divinas da religião jainista.

Muitos devotos do hinduísmo chegam à pequena cidade de Pushkar para ir ao templo do Brahma, um dos poucos na Índia dedicados ao deus da criação. Brahma também é nome da casta da qual fazem parte os intelectuais, filósofos, cientistas, poetas. Esse templo, datado do século XIV, foi erguido com pedras de mármore. Construída em torno do lago sagrado, Pushkar é um destino histórico de peregrinação dos hindus. Como no Rio Ganges de Varanasi, 52 degraus de escadaria cercam o lago, para as quais os devotos se dirigem para banhar-se e purificar-se nas águas sagradas.

Principal cidade turística mais ao sul do Rajastão, Udaipur, a cidade dos lagos, é envolta pelo verde, destoando da aridez do deserto que compõe a paisagem de grande parte da província. É uma das cidades mais ricas da Índia, para onde vão os casais em lua de mel, devido ao clima romântico e à luxuosa infraestrutura de hotéis e restaurantes. O centro histórico cresceu no entorno do Lago Pichola. Exatamente às suas margens, foi erguida a cidade-palácio que oferece uma vista panorâmica espetacular da cidade e do lago. 

 

 

 

 

 

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