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“Se não fosse o teatro, eu nem saía da cama”

Numa conversa cheia de espontaneidade, Teuda Bara conta o seu 
amor pelo teatro, desde quando, filha de uma família tradicional, 
foi educada para ser “do lar”, até sua rotina de trabalho

TEXTO Olívia Mindêlo

01 de Maio de 2017

A atriz Teuda Bara

A atriz Teuda Bara

Foto Guto Muniz/Divulgação

[conteúdo da ed. 197 | maio 2017]

“Ninguém passa intacto por Teuda Bara. Ela é certamente um centro de gravidade para o Galpão. Ao mesmo tempo, é alvo das zombarias mais mesquinhas e recebe de todos o maior carinho e respeito. Os problemas de Teuda são os problemas do mundo. (…) Não existe inércia onde há Teuda Bara.” Com essas palavras, João Santos não apenas introduz os leitores do seu livro Teuda Bara: comunista demais para ser chacrete (Javali), como nos remete à vivacidade de sua biografada: essa figura cuja imagem em cena se confunde com a do próprio Galpão, grupo mineiro de 35 anos, conhecido por sua eloquência na cena teatral brasileira. A atriz, aliás, é uma das fundadoras da trupe, a “mãe”, a presença mais longeva, atualmente em cartaz pelo país com o espetáculo Nós (2016), que parece ter sido feito para ela. 

Nascida em Belo Horizonte, no primeiro dia de 1941 (cerca de duas décadas antes de seus companheiros de grupo), Teuda Bara nunca foi de negar fogo; aliás, sempre foi fogo. A mais velha de seis filhos, a atriz é “virada” desde criança. Percebendo os sinais precoces de seu espírito liberto, sua mãe tentou torná-la freira, mas nem a madre superiora do colégio interno deu conta: ou a própria Teuda enlouqueceria, ou  todos iriam parar em um manicômio. 

Na década de 1970, ela virou hippie no curso de Ciências Sociais e adorava viajar pelo Nordeste, região pela qual tem grande carinho – estendido ao Recife. Apesar de sua presença “cenosa”, o teatro só entrou profissionalmente em sua vida aos 35 anos, quando estreou como uma prostituta na peça Viva Olegário!, dirigida por Eid Ribeiro. Depois, passou um tempo em São Paulo, no Teatro Oficina, com Zé Celso. Desde então, nunca mais saiu de cena. Já fez diversas personagens, sendo ela mesma a própria persona. Quando nasceu, foi registrada pelo pai como Sônia Magalhães Fernandes. Indignada com o marido, sua mãe foi ao cartório e mudou para Teuda Magalhães Fernandes. Teuda Bara surgiu no teatro, como nome artístico, já que Eid Ribeiro gostava de chamá-la assim, em referência à atriz norte-americana Theda Bara, um dos primeiros sexy simbols do cinema.

CONTINENTE Teuda, conta para a gente como você observa a sua vida hoje, considerando o que já foi e o que poderá vir.
TEUDA BARA Nóóó! Nossa, é uma diferença, gente! Antes, eu era aquela pessoa criada para casar, de pai militar e mãe católica. Mas a vida vai levando a gente, tudo vai mudando e a gente vai tendo consciência política, tendo as relações… Sonhava em ir para a faculdade e fui (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, onde cursou Ciências Sociais), mas me desesperei com a linguagem científica e deixei. Vivi dos “anos dourados” aos “anos de chumbo”, e tenho medo de uma reviravolta no Brasil. Dá muito medo ver nossos direitos irem por água abaixo, principalmente os do trabalho. Fico pensando: a gente está na mão dos outros, na verdade na mão dos políticos. Poderíamos decidir em relação isso, mas eles também votam, como caso do impeachment… E a gente está no meio de notícias falsas, tudo atrapalhado, desvirtuam tudo. Eu fico muito insegura.

CONTINENTE Nesse cenário brasileiro atual, você sente falta daquele teatro do qual  fez parte nos anos 1970, do desbunde, que ia para as ruas?
TEUDA BARA Não sinto falta, porque eu faço o teatro que quero fazer: na rua, no palco, viajando, trabalhando com diretores novos. Estamos fazendo teatro e isso é muito importante. Se não fosse o teatro, eu nem saía da cama. Eu gosto de fazer teatro, de estar sempre envolvida com outras temáticas, com o texto, a ação, a dramaturgia… Em casa, é cachorro, conta de luz para pagar... E o Galpão tem essa política de viajar, já viajamos para tudo que é canto. E isso é importante, porque TV todo mundo vê, mas teatro, não. Já fomos a lugares aonde nunca o teatro foi. Você não sabe a emoção que é ver alguém vendo teatro pela primeira vez. Um dia, um menino são muita atração”. Isso é lindo!

CONTINENTE Mas você gosta de televisão também, não é?
TEUDA BARA Gosto. Agora mesmo vou participar de um programa no Multishow, A vila,o Paulo Gustavo me convidou. Ainda não sei muita coisa, sei que várias pessoas se relacionam nessa vila. Na verdade, eu gosto de variar as formas de trabalhar.

CONTINENTE O espetáculo Nós (2016) parece ter sido feito para você, como se Teuda Bara interpretasse ela mesma e fosse a protagonista daquela história, que é também um pouco a história do Galpão. Foi isso que aconteceu? Conta um pouco.
TEUDA BARA Marcinho (Márcio Abreu, da Companhia Brasileira de Teatro, diretor do espetáculo) foi mandando a gente improvisar. A gente queria fazer um teatro mais moderno, político, e ele sugeriu que começássemos falando da gente, do Galpão. É muito fácil apontar: “Fulano é um ditador”, então vamos falar por nós. A peça é quase uma homenagem a mim e eu amo o Marcinho, mas ela fala de todos nós, do momento atual, de estar na rua, estar difícil para todo mundo. “Tá fácil pra você? Não tá fácil pra ninguém!” (texto de Nós). Fala também do machismo, da intolerância, do racismo…

CONTINENTE Na peça, há uma espécie de teatro dentro do teatro. O “nós” no sentido do grupo, do Galpão; o “nós”, a gente do público e do coletivo no sentido amplo; e os “nós” que esse mesmo coletivo dá em suas relações. Em determinado momento, você mesma diz que é difícil ser mulher trabalhando com tanto homem. Como analisa a sua relação com o grupo que ajudou a criar?
TEUDA BARA Existe machismo dentro do grupo e, quando tem, a gente grita. Mas ali, na peça, estou falando de machismo mesmo, e essa luta é constante; nossa, um trem! No grupo, é uma luta quase por igualdade. Quando não tem, a gente também bota a boca no trombone: “Calma aí, né assim não!”. De mulheres, somos Inês Peixoto, Lydia Del Picchia, Simone Ordones, Fernanda Vianna e eu. De homens, Eduardo Moreira, Roberto (Beto) Franco, Antonio Edson, Júlio Maciel, Paulo André, Arildo de Barros e Chico Pelúcio. No geral, esse machismo se manifesta quando eles querem mandar, falar. Dizem alguma coisa, e a gente: “Epa, aí não!”. Mas eles não são bestas. Então, não é nada agressivo, sabe? Os homens do grupo não são nenhuns bichos-papões. 

CONTINENTE Além de trazer o grupo e a sua convivência com eles, outra impressão é de que o espetáculo Nós é a encenação de uma despedida sua. “Sai, não sai”, aquele jogo de cena o tempo todo. Mas não tem esse risco de você sair do Galpão, tem?
TEUDA BARA Nããão (risos), não tem não! Aquilo ali foi um filme que a gente viu, que era uma coisa assim, que o cara fala: “Olha, vou ter que mandar alguém embora para vocês poderem ficar”. Ou, ao contrário, um quer ficar e vai ter de sair. Fizemos ensaios abertos com o público em Belo Horizonte e as reações foram, assim, muito estranhas. Teve uma mulher que chorou e saiu no meio do ensaio. No outro dia, ela voltou e pediu desculpas à gente, dizendo que a mãe estava com Alzheimer, que estava vivendo uma situação assim, de ela querer sair e eles não deixarem… Um dia, um menino ficou muito emocionado e veio com a voz embargada, dizendo “muito obrigado” pelo espetáculo. “Muito ruim querer sair e eles não deixarem”, ele disse. A gente imaginou que tivesse sido preso, algo assim. O espetáculo toca em cada pessoa onde aquela pessoa é, está. 

CONTINENTE Vocês costumam fazer sempre esses ensaios abertos no Galpão?
TEUDA BARA Nem sempre, mas a gente fica louco para saber o que o público vai achar. A gente já fez ensaios abertos antes, como em Romeu e Julieta, mas não para tanta gente. Com Romeu…, lembro que a gente fez ensaio em cidade do interior (de Minas Gerais). Uma delas era um lugar de boia-fria e a gente ensaiava em frente à igreja, passava tudo, ficava até tarde. Todo dia, eles desciam do caminhão, sentavam para ver, riam e até interferiam. “Por que parou?”, gritavam.

CONTINENTE Já passou pela sua cabeça deixar de fazer teatro?
TEUDA BARA De jeito nenhum! Quando eu fui para o circo (Cirque Du Soleil, 2004–2007, espetáculo ), foi insuportável, não dei conta. Fazia dois shows por dia, 10 por semana e, mesmo assim, tinha uma saudade do palco! É diferente, no circo não tem o encontro com o público. Tudo é diferente. Circo não improvisa nada. No teatro, você também não pode improvisar sempre, mas tem hora em que a gente improvisa.

CONTINENTE Mesmo assim, o Galpão tem uma rotina superdisciplinada de ensaios, não é?
TEUDA BARA Sim, temos uma rotina muito disciplinada e isso marcou o início do grupo, a oficina dos alemães (George Froscher e Kurt Bildstein, do Teatro Livre de Munique, que aconteceu em 1982, como um embrião do grupo). Eles tinham muita disciplina, eram grotowskianos e a gente apanhou muito. 

CONTINENTE A sua presença, o seu corpo, é uma marca no Galpão e no teatro brasileiro. Isso é motivo de orgulho ou já lhe causou um incômodo?
TEUDA BARA Não, tem gente que fala “gorda”, “velha”. Eu tô, uai, mas a vida é assim, é normal, não me incomoda. Fernanda Montenegro que é Fernanda Montenegro está ficando velha, tem 80 anos. A gente envelhece, claro! Tem hora que os joelhos não aguentam, a gente não tem mais a agilidade que tinha. Tem papéis que a gente não pode fazer mais pela idade. Teatro é a representação da vida: com todas as brincadeiras, as pessoas também envelhecem.

CONTINENTE Como foi para você ficar nua em Nós, aos 75 anos, em relação à primeira vez em que você tirou a roupa em cena com o Fulias Banana na peça Triptolemo 17 (1978)?
TEUDA BARA Tranquilo, difícil falar. Quer dizer, tranquilo não é. No primeiro dia em que fiquei pelada perto do Marcinho, passei maior vergonha com ele. Quando eu falo Marcinho, é o Márcio Abreu, tá? O diretor. E eu não sabia que Eduardo (Moreira) ia escrever em mim na peça. Ele ficava encostando, eu ria e o texto não saía (risos). No Fulias Banana, foi completamente diferente, eu ficava numa banheira, era uma outra coisa. Mas também chocou. E tem uma coisa: parece que você só pode ficar nu se for novo, perfeito, com tudo no lugar e eu nunca fui essa pessoa. E quando tinha tudo no lugar, não saía por aí pelada.

CONTINENTE No livro Teuda Bara: comunista demais para ser chacrete, de João Santos…
TEUDA BARA O João?! É um anjo que caiu do céu na minha vida! Ele era… Como se diz? Estagiário do Galpão! E, no fim do curso (de graduação em Comunicação, UFMG, 2011), ele tinha que escrever a “tese” e disse: “Vou escrever sobre você”. Não sabia que ia acabar no livro, fiquei muito feliz. Ele é, assim, meu filho! Depois, ele fez a adaptação do texto de Doida, de Carlos Drummond (de Andrade, conto), espetáculo que foi um projeto pessoal meu e que eu queria fazer com o meu filho (Admar Fernandes, em 2015).

CONTINENTE Bem, no livro de João, lemos o trecho da música Merda, de Caetano Veloso: “Nem a loucura do amor,/ da maconha e do pó,/ do tabaco e do álcool/ Vale a loucura do ator/ quando abre-se em flor/ na loucura do palco”. É a estrofe da sua vida?
TEUDA BARA Ah, é a estrofe dos atores! Caetano é foda. Eu amo o Caetano. É um cantor e uma pessoa maravilhosa, faz tempo que eu gosto dele. Quando escutei Sem lenço, sem documento (Alegria, alegria, 1967/1968), botei tudo meu fora, identidade, CPF, tudo fora. Depois, eu ficava com vergonha de dizer o que eu tinha feito com meus documentos. “Foi uma enchente que deu lá em casa, menino!” (risos). 

CONTINENTE É verdade que até hoje você não quis tirar carteira de trabalho? O livro dá a entender isso…
TEUDA BARA Imagina! Não, claro que tenho carteira de trabalho. Tem coisa que não tem jeito, temos que ter. Hoje, somos totalmente profissionais (o Grupo Galpão). E temos de ser assim, temos muita coisa e tudo tem que estar organizado, figurino, cenário, isso tudo é trabalho, é equipe, é dispendioso. Hoje, temos o patrocínio da Petrobras, mas estamos sem pagamento há alguns meses. E a gente precisa pagar tudo, tem todo um custo de um grupo profissional, que é muito difícil de administrar. Mas não é só a gente. Todos os grupos estão com dificuldades no momento. E grupos renomados, hein? Estávamos conversando com o pessoal do Corpo e do Giramundo, que tem os bonecos lindos, e está desestruturado, não tem como se mexer. 

 

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