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Literatura: entusiasmo e melancolia

TEXTO Fábio Andrade

01 de Maio de 2017

Em

Em "O Triunfo do povo conquistador", de 1949, o artista ucraniano Mikhail Khmelko retrata com perfeição o triunfalismo do regime"

Pintura Mikhail Khmelko/reprodução

[conteúdo vinculado ao especial da ed. 197 | maio 2017]

Literatura e revolução. Essas duas palavras caminharam juntas por infernos provisórios e paraísos nunca alcançados. A associação entre elas se tornou um lugar-comum moderno e contemporâneo. Associação recente – é preciso dizer. Até o século XIX, que presenciou o surgimento e desenvolvimento do movimento romântico, a palavra literatura estava sempre distante da palavra revolução. Tinha as mãos sempre dadas à palavra tradição. Mas foi no século da primeira grande revolução, no sentido político do termo, no século da Revolução Francesa, que o casamento das duas palavras se deu. Sobre os escombros do Velho Mundo, sobre as ruínas da nobreza, sobre os cadáveres dos déspotas, dos reis absolutistas, as duas se encontraram e foi amor à primeira vista. Desde então, caminham juntas em fórmulas e mesmo em linhas teóricas que veem a própria poesia como uma forma fundamental de revolução. 

Nossa idade moderna conheceu o uso popular e difuso da palavra revolução. O historiador espanhol Antonio Maravall, especialista na cultura do período barroco, afirmava que fora nesse momento específico que o termo ganhara um significado similar ao que tem hoje. Mudança profunda, capaz de alterar as bases, os alicerces do mundo que conhecemos. Se, na origem, o sentido de revolução política tinha um caráter pequeno-burguês, como ocorreu com a própria Revolução Francesa, pautada pelos valores filosóficos do iluminismo enciclopedista, outras possibilidades de “revolucionar” o mundo surgiram a partir desse mesmo princípio revolucionário liberal. No século XIX, o sentimento revolucionário vai tomando outros caminhos – exemplos disso foram o marxismo e o anarquismo, que são linhas de pensamento e ação políticos incontornáveis para se compreender o mundo ontem e hoje. E se deve a esse bloco de esquerda aquela que pode ser a revolução paradigmática dos tempos modernos: a Revolução Russa, de 1917. 

REVOLUCIONÁRIO X TOTALITÁRIO
Havia uma grande efervescência cultural, artística e política na Rússia pré-revolucionária. Ao mesmo tempo, essa mesma Rússia era um barril de contradições insustentáveis. Com praticamente 80% de sua população composta por camponeses (os mujiks), a economia russa refletia a arcaica lógica de diferenças e privilégios inabaláveis que marcavam o domínio dos czares. Por outro lado, a efervescência artística e literária teve como componente um diálogo intenso da classe intelectual com o Ocidente desde o século XVIII, tempos do czar Pedro I. 

A geração literária contemporânea à revolução procurava uma renovação do olhar sobre a literatura e, dentro do impulso de ocidentalização, mantinha grande simpatia pelas propostas de transformação das Vanguardas Europeias. Tanto na Rússia quanto na Europa, as universidades estavam dominadas por uma visão historicista e positivista, pouco sensível aquilo que comumente passou a se chamar “aspectos estéticos do texto”. O texto literário importava mais enquanto documento histórico-social. É nesse contexto, e em oposição ao academicismo, que surge o Círculo Linguístico de Moscou, em 1914, e posteriormente, o Opojaz, em 1916. Os dois grupos, o primeiro em Moscou – como indica o nome – e o segundo em São Petesburgo, assumiram a tarefa de estabelecer princípios fundamentais de uma ciência da literatura, pautada basicamente pelas teorias linguísticas. 

Um aspecto inovador desse momento, não apenas na Rússia, mas também em vários outros lugares do mundo, foi a intensa participação de poetas e escritores na formulação de problemas e conceitos teóricos que tinham por objetivo lançar uma luz nova sobre o fenômeno literário. Do chamado formalismo russo, participaram vários poetas ligados ao futurismo russo: Khlébnikov, Maiakóvski e Pasternak. O principal deles, e que fez parte do primeiro grupo que assumiu o rótulo futurista, de franca inspiração no manifesto de Marinetti, foi Maiakóvski – que acabou sendo conhecido como o “poeta da revolução”. Maiakóvski, com outros poetas e escritores ligados ao grupo moscovita Hylaea, aderiu entusiasticamente à Revolução de 1917. A adesão foi natural. Se o formalismo russo representava uma “revolução” na forma de ler e encarar a literatura – como o provam as ousadas especulações dos jovens teóricos do Opojaz; a tendência inovadora, que em geral ficou conhecida pelo termo futurista, também representou a revolução poética. Já se tornou célebre a afirmação de Maiakóvski que, sem forma revolucionária, não há arte revolucionária. Ao mesmo tempo, esse caráter inovador e quase anárquico será motivo de grandes tensões entre a poesia revolucionária e a ideologia revolucionária do estado totalitário socialista.

Alguns dos poemas mais representativos de Maiakóvski têm como ponto de partida o entusiasmo revolucionário, sem abrir mão das experimentações formais que definiam sua poética como uma proposta de vanguarda e de ruptura. Entre esses poemas, pode ser contabilizado o famoso A plenos pulmões, na tradução de Haroldo de Campos: “(…) Professor,/ jogue fora/ as lentes-bicicleta!/ a mim cabe falar/ de mim/ de minha era./ Eu – incinerador,/ eu, sanitarista,/ a revolução/ me convoca e me alista./ Troco pelo “front”/ a horticultura airosa/ da poesia –/ fêmea caprichosa./ Ela ajardina o jardim/ virgem/ vargem/ sombra/ alfombra” (…). 

O caráter experimental, entretanto, da poesia de Maiakóvski e de seus companheiros de geração pareceu supérfluo, excessivamente anárquico e mesmo aburguesado para o estado revolucionário. A mesma reação se sentirá em relação ao formalismo russo. Tanto o Futurismo quanto o formalismo – ambos comprometidos com uma concepção nova de literatura – serão colocados sob suspeição. 

MAIAKÓVSKI
O professor e tradutor Boris Schnaiderman escreveu na introdução biográfica ao volume de poemas de Maiakóvski, que traduziu com os irmãos Campos: “Revolucionário nas concepções sociais e na forma que utilizou, desabusado, amigo do palavrão e do coloquial, poeta das ruas, dos comícios, das salas de conferências, Maiakóvski aparece-nos como um dos artistas mais coerentes que jamais existiram”. A coerência de Maiakóvski, como bem vê Schnaiderman, estava entranhada nele como uma postura ética fundamental: ou a poesia deve ser capaz de revolucionar a vida ou não valerá a pena. E para que a revolução verbal e social aconteça é preciso muito trabalho. A imagem do poeta como operário é recorrente nos poemas maiakovskianos. 

Em 1930, mesmo ano em que cometeria suicídio, Maiakóvski fala sobre suas angústias a um auditório presente na celebração dos 20 anos de suas atividades poéticas. Diz que será melhor julgado pela posteridade do que pelos críticos que acreditavam que ele havia esquecido como fazer versos, e cita um suposto diálogo entre ele e um conhecido comunista, que lhe responde: “Que importa a posteridade! Você vai responder perante ela, mas o meu caso é muito pior: tenho que responder perante o comitê do bairro. E isto é bem mais difícil”.

A preocupação de Maiakóvski com a submissão da criação artística a uma ideologia de estado cada vez mais burocratizado se fará ouvir plenamente e a todos pulmões num poema como Incompreensível para as massas: “Aos pávidos/ poetas/ aqui vai meu aparte:/ Chega/ de chuchotar / versos para os pobres./ A classe condutora,/ também ela pode/ compreender a arte./ Logo:/ que se eleve/ a cultura do povo!/ Uma só,/ para todos./ O livro bom/ é claro/ e necessário/ a vós,/ a mim/ ao camponês/ e ao operário”. 

A angústia de Maiakóvski com os rumos da Revolução de Outubro dizem respeito ao rápido arrefecimento de suas potencialidades libertárias. Participante de seu tempo, Maiakóvski, assim como uma série de companheiros de geração, aderiu de maneira entusiástica ao novo regime, ilustrando cartazes e, principalmente, dedicando versos às campanhas sanitárias empreendidas pelo estado nascido da revolução. O que não o impediu de resistir de maneira profundamente coerente a qualquer forma de dirigismo político que traísse suas convicções pessoais e criativas. 

Foi dono de uma voz que nunca se enquadraria no realismo socialista oficial do novo estado. O poema A plenos pulmões traz versos que exprimem com muita precisão a tensão então vivida pelo poeta: “Também a mim/ a propaganda/ cansa,/ é tão fácil/ alinhavar romanças, –/ mas eu/ me dominava/ entretanto/ e pisava/ a garganta do meu canto”. Chama a atenção o fato de a voz poética nesse texto se dirigir para os “caros camaradas futuros”. Nesse recurso retórico de diálogo com os camaradas futuros estão encapsuladas as preocupações do poeta com o futuro da revolução, com seus desdobramentos. 

GESTO ANÁRQUICO
Roman Jakobson, grande representante do formalismo russo, na longa entrevista que concede a Krystina Pomorska, menciona a tensão entre Maiakóvski e Lênin. O ponto de partida é um bilhete de Lênin, de 1921, em que ele se opõe “ferozmente”, segundo Jakobson, à aprovação por parte de Lunatchárski da publicação do poema 150.000.000, de autoria de Maiakóvski. O poema, escrito entre 1919 e 1920, tem a liberdade de pensamento própria do ímpeto criativo e altivo de Maiakóvski, alheio a amarras ou arranjos políticos: 

“Meu verso não se comove nem com Trotski nem com Lênin. Glorifico os milhões em seu combate, vejo os milhões, canto os milhões”. Uma imagem semelhante a essa se encontra no A plenos pulmões: “Meu verso/ com labor/ rompe a mole dos anos/ e assoma/ a olho nu,/ palpável,/ bruto,/ como a nossos dias/ chega o aqueduto/ levantado / por escravos romanos”. 

Percebia Maiakóvski o que de coletivismo deveria ser preservado no movimento revolucionário, sempre acima do personalismo mistificador dos heróis. Segundo ainda Jakobson, o bilhete de Lênin acusava o poema de ser uma “refinada e pretensiosa besteira”. O bilhete encerrava com espírito irascível: “Chicotear Lunatchárski por causa do Futurismo”. Aos dirigentes, a revolução poética de Maiakóvski parecia ser excessivamente independente. É preciso dizer que o mundo é mais complexo ou, como dizia o filósofo de Guimarães Rosa – Riobaldo – mais “misturado”. 

Em 1924, Maiakóvski termina um longo poema dedicado a Lênin, morto nesse mesmo ano. E no poema, publicado no Brasil em 2012 pela editora Anita Garibaldi, sente-se a oscilação entre o tom, predominantemente laudatório, e o acento crítico que por vezes ecoa textos anteriores em que a autoridade do culto revolucionário é questionado. Muito já se cogitou sobre a morte do poeta. Ao que tudo indica, o suicídio resultou de um conjunto de fatores, dentre os quais podemos listar a decepção com o potencial verdadeiramente revolucionário do movimento bolchevique. 

Numa conversa com Gabriel Caballero, em 1979, transcrita em seu livro Convergências, Octavio Paz explora a distinção entre as palavras rebeldia, revolta e revolução. O ponto de partida da conversa é a polêmica entre os filósofos Jean-Paul Sartre e Albert Camus, iniciada pela publicação do livro O homem revoltado, de Camus. Segundo Octavio Paz, “Rebeldia é um termo de origem militar e tem um matiz individualista; revolução e revolta são palavras irmãs, mas revolução é mais intelectual; é um termo filosófico, enquanto que revolta é mais antigo e espontâneo”. Em seguida, Paz aprofunda a diferença entre revolução e revolta, afirmando que a revolução transforma a revolta em teoria e sistema; e a revolta seria a reação espontânea contra a injustiça. O exemplo que ele cita é o da Revolução Francesa, que teria começado como uma revolta (a Tomada da Bastilha), tendo sido logo depois  “confiscada pelos ideólogos terroristas”. Assim teria ocorrido com todas as grandes revoluções, a de 1917, na Rússia, não fugiria a isso. 

É nessa perspectiva que os gestos de Maiakóvski e Camus exprimem a ideia da literatura e da poesia, da arte em geral, como um gesto essencialmente anárquico. Um gesto de autonomia radical, necessário ao poeta, ao artista, desde a utopia platônica que o proscreve ao exílio. As pressões que sofreu Maiakóvski, a perseguição aos formalistas russos, a revolução cultural chinesa… são repercussões do mesmo gesto higiênico de Platão, do seu senso de preservação da república perfeita ante o nocivo senso de livre criação do artista. 

Nesse sentido, a literatura e a arte em geral podem ser interpretadas como uma revolução permanente. Uma revolução crítica, gesto reflexivo que produz o combustível de sua própria atualização, como a semente de que nos fala mais uma vez Guimarães Rosa em Ave, palavra, gerando-se de suas próprias forças e limites. E se o clima fundamental da criação literária é a liberdade, quem poderá abrir mão da arte em nome de sobreviver? A escolha de Sofia não deve nunca ser a saída política. Perdido um dos filhos – ou a dignidade ou a arte –, como não esperar que uma parte de nossa humanidade morra, apodreça? 

CONTEXTO ATUAL 
A interrogação de como efetivar essa revolução permanente, que teria na poesia e na arte um ponto de partida, exige um gesto afirmativo, uma resposta, por assim dizer. E talvez haja uma resposta breve, humilde e, evidentemente, provisória. Resposta que tem encontrado ressonância na literatura e na arte do nosso tempo, cada vez mais voltadas para aquilo que podemos chamar de “pequenas utopias”. Com o desgaste das grandes utopias, das promessas de um futuro de justiça social amplo e definitivo, encaramos a dura tarefa de pensar a mudança ao alcance da mão, perto de casa, na relação com o vizinho, com nossos filhos, nossos amantes. Uma revolução diária que parece ser o tom da literatura. 

Embora pareça contraditório, o fracasso das grandes revoluções não deve minimizar a necessidade da revolução no vocabulário do homem contemporâneo. Principalmente como mito fundador da nossa época: como nos pensar sem o vislumbre de uma vida compartilhada mais justa? Como lutar contra as injustiças perversas para com a comunidade negra, contra as mulheres, contra LGBTs; contra a miséria, a pobreza, a falta de oportunidade, sem enxergar a possibilidade de mudança, de mudanças substanciais? 

Os acontecimentos políticos dos últimos anos, no Brasil e no mundo, potencializaram a necessidade das novas utopias, de um compromisso mais visceral com a política – e talvez, uma política mais visceral. A literatura tem captado essa reconfiguração e pode ter um papel importante, tanto criativa quanto criticamente, ao canalizar e conduzir essa energia de mudança para um espírito revolucionário cotidiano e atento às demandas reais de uma complexidade crescente. São exemplos disso as antologias Vinagre: uma coletânea de poetas neobarracos, organizada por Fabiano Calixto; e Inquebrável: Estelita pra cima, organizado por Wellington de Melo. 

Tanto o tom anárquico da primeira quanto a configuração pluralista da segunda se voltam para fenômenos políticos imediatos do contexto brasileiro – as manifestações de 2013 e o movimento Ocupe Estelita, que desafiou a especulação imobiliária que ameaça tornar o Recife uma cidade ainda mais desigual. Valorizar a participação política direta e repensar a cidade são bandeiras possíveis de um novo espírito revolucionário, menos propenso ao universalismo opressor das grandes ideologias. Muito cedo, entretanto, para avaliar tudo isso com clareza. Mas é um momento, como o de Maiakóvski, prenhe de futuro e de inquietação, marcado por um luto, mas também pela necessidade de reinvenção do sonho de reforma social.

No âmbito da narrativa, dá-se o mesmo: o compromisso de um engajamento indomesticável. O crítico e professor da PUC–Rio, Karl Erik Schollhammer, em seu livro Ficção brasileira contemporânea, ao comentar o que seria uma nova tendência realista do romance e do conto brasileiros das últimas décadas, enfatiza o caráter comprometido com a expressão da realidade brasileira, mas sem se submeter a uma cartilha ideológica. Ao mesmo tempo, esse compromisso com as questões sociais do mundo contemporâneo não abdica de experimentar e ousar, demonstrando que a mentalidade inventiva e crítica da vanguarda foi assimilada e se tornou um espaço de ressignificação da literatura.

Mais do que nunca, o indivíduo comum, despojado de heroísmo e de aura é o ponto de partida para a literatura e as artes. E, para esse indivíduo, a palavra revolução tem um significado urgente: a possibilidade de pensar que o mundo ainda pode ser modificado, transformado e que ele pode ter um lugar onde viver, exercer o seu desejo e a sua diferença. É preciso reconstruir o sentido de revolução, numa arqueologia dolorosa, mas necessária. Principalmente, numa época em que a democracia parece ameaçada pela loucura dos que sonham com um mundo novamente fechado para o diálogo e para a diferença. A literatura contemporânea parece acompanhar esses versos de Maiakóvski: “Apresento/ em lugar/ do registro partidário/ todos/ os cem tomos/ dos meus livros militantes”. 

 

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