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O povo que sobe o Morro

Todo ano, no dia 8 de dezembro, multidão de católicos segue em procissão do centro do Recife rumo à zona norte para prestar honras a Nossa Senhora da Conceição

TEXTO Eduardo Montenegro

01 de Março de 2017

O cortejo tem início no Bairro do Recife, seguindo até o Morro da Conceição

O cortejo tem início no Bairro do Recife, seguindo até o Morro da Conceição

Foto Alcione Ferreira

[conteúdo na íntegra | ed. 195 | março 2017]

Eram quase três horas da tarde, quando, no dia 8 de dezembro, cortejada e rodeada de flores brancas, a imagem de Nossa Senhora da Conceição saiu da Prefeitura do Recife para ganhar o Bairro de Casa Amarela, na zona norte da cidade. Os calorosos aplausos e assobios dos fiéis – estes, na maioria, vestidos de azul e branco, quando não usando vestimentas semelhantes às roupas da Santa – competiam com o estrondo dos fogos de artifício. Já outros trataram logo de retirar os celulares do bolso para conseguir algum clique do ícone da Imaculada, uma tarefa um tanto difícil de ser realizada, já que a pequena estátua estava rodeada por oficiais da guarda brasileira e guarnecida, na dianteira, por policiais militares, além da própria aglomeração de pessoas que se espremiam para ficar mais próximas da imagem. Aqui e ali, terços eram sacados dos bolsos de alguns mais dispostos a uma caminhada em oração, enquanto outros traçavam o sinal da cruz sobre si para uma ave-maria inicial. Pedidos feitos, a música iniciou, e assim a multidão apertou-se para a procissão de encerramento da 112ª Festa do Morro da Conceição.

Estimulados por canções animadas, na maioria hinos católicos tocados e cantados de forma que lembravam ritmos como o frevo, a multidão que se via à frente pulava e dançava como quem, de fato, se diverte nas estreitas ruas de Olinda durante o Carnaval. Pequenas bandeiras azuis e brancas também eram hasteadas pelos romeiros, que faziam movimentos para lá e para cá. Uma relação de alegria tão palpável e notável com a Virgem, que a música de abertura da romaria é um trecho do Magnificat, ou Cântico de Maria, um louvor proferido pela mesma Mãe, quando, segundo a Bíblia, visitara sua prima Isabel, ambas grávidas: “Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta em Deus, meu Salvador”, cantavam seus filhos, as vozes subindo de tom, ficando tão altas quanto possível. Uns pulavam, alguns dançavam de maneira tímida, já outros não se resguardavam e inventavam coreografias em grupo. Se Isabel, segundo o Evangelho de Lucas, ficou cheia do Espírito Santo quando recebeu a visita, e até mesmo sua criança “pulou de alegria em seu ventre”, ali, mais de dois mil anos depois, aquelas mesmas pessoas pulavam e alegravam-se como quem, de fato, acredita estar na presença de Maria de Nazaré.

“Desde a barriga da minha mãe que eu sou devota dela”, diz Carla Lidiane, que mora há 14 anos no Morro da Conceição. Católica praticante, ainda que tímida, trabalhou pela primeira vez durante a semana festiva e religiosa no Morro, próximo à praça. Sua barraca era simples, coberta por uma tenda de plástico para se proteger do sol, com uma mesa branca para colocar imagens de santos e terços, seus produtos de venda. “É uma honra trabalhar com a fé que eu professo, eu amo”, regozija-se a vendedora. Uma fé que se transforma em atos todos os dias, ao rezar os cinco mistérios do Santo Terço, um hábito que – segundo ela – faz com prazer e devoção.

Com a imagem de Maria à frente, mas também acreditando que ela estava ali em espírito, dentro de seus corações, os pequenos estandartes balançantes assemelhavam-se a um longo tapete para a passagem de uma rainha. Naquela ocasião, em especial, os católicos tornaram reais as palavras proferidas pela nazarena na mesma ocasião bíblica: “Todas as gerações me proclamarão bem-aventurada”. E ofereciam-lhe orações, pedidos, agradecimentos e, também, penitências. “Tudo que eu peço a ela, eu consigo”, afirma Márcia Agripino, de 52 anos. Durante a festividade religiosa, foi ao Morro – antes da procissão – para render orações à Virgem. Sua promessa é de oferecer velas todos os anos para Maria, uma prática também adquirida por sua filha Roberta da Silva, de 15 anos. “Rezo para que ela proteja meus irmãos”, explica a jovem.

Até mesmo o calor de 32 graus esquentando o asfalto não impediu algumas pessoas de acompanharem o cortejo descalças. Os pés sujos, por vezes feridos, pela via defeituosa de buracos e pedras, andavam sem se importar com o desconforto. Já outros filhos da Imaculada Conceição apareciam com um tijolo na cabeça, como forma de agradecimento por uma casa adquirida ou como um pedido para uma moradia. A reportagem da Continenteobservou, ao longe, um homem acompanhando a procissão carregando a própria cruz, a coluna envergada para a frente, assumindo – segundo as pinturas sacras em dois mil anos de Cristianismo – a posição em que Cristo levara a sua para o Calvário.

Em certo instante, os trios elétricos pararam de andar e a música diminuiu gradativamente: o que se ouvia dos instrumentos era apenas um dedilhado suave dos violões, espalhando para a multidão uma melodia pacata e doce. Guiados pelos sacerdotes, os cristãos começaram a proferir orações: um momento mais íntimo, pessoal e espiritual, em que – seguindo a orientação dos padres – os fiéis começaram a rezar por suas famílias, seus enfermos, amigos e parentes. E assim fizeram. As palavras, os pedidos, as súplicas misturavam-se umas com as outras. Muitos marianos (nomenclatura usada para designar tanto os fiéis da Virgem quanto o culto de veneração) ergueram seus braços para o alto, os olhos fechados, cenhos franzidos em concentração esforçada. Muitos deles mantinham seus braços apontados para diversos pontos cardeais ao longo da via urbana. Em verdade, estavam apontados para a direção de suas casas, ou na direção do local em que as orações estavam sendo direcionadas, seja lá qual fosse. “Senhor”, “cura”, “mãe”, “família” eram algumas das palavras pescadas naquele oceano de sons. Naquele átimo, amigos, parentes, colegas e irmãos deram-se os braços, juntando seus corpos, como se dissessem, numa simbologia de fé e união fraterna, que juntos são mais fortes.

Camisa azul, olhos suaves e uma barba curta introduzem a figura de José Nunes, de 72 anos, morador de Boa Viagem. Ele conta que é a primeira vez que retorna à Festa do Morro, depois de dois anos de ruptura da tradição. Seus pedidos não se resumem às súplicas pessoais, mas a um clamor por um Brasil mais justo. “Vou pedir para ela um governante bom, pedir pra ver se melhora”, revela. Devoto mariano antigo, foi responsável por introduzir seus filhos na fé católica, ainda que tenha vindo sozinho para a 112ª edição da festa.

“Viva Nossa Senhora da Conceição do Morro!”, bradava o cortejo, ao final de outra ave-maria. Neste momento, as palavras do padre aos fiéis tomaram novamente protagonismo, o sol incidindo sobre a multidão, obrigando-a a colocar as mãos sobre os olhos, para conseguir observar o falante. “Nossos jovens estão aí embaixo, vestidos de amarelo, para recolher suas assinaturas contra a decisão do Supremo Tribunal Federal de liberar o aborto no terceiro mês”, anunciou o sacerdote. Havia ali homens e mulheres vestindo coletes amarelos, com os dizeres “Sim à vida!”. Onde paravam, pessoas assinavam seus nomes junto com o CPF para impedir a decisão judicial. Foi a campanha daquele ano da Arquidiocese de Olinda e Recife, também usada como tema da Festa do Morro, conforme pedido do próprio arcebispo, Dom Fernando Saburido.

Nas calçadas da Avenida Norte, por onde seguia a caminhada, havia pessoas esperando o cortejo sentadas. Eram crianças e idosos, alguns segurando imagens da santa nas mãos, vestidos nas mesmas cores que os caminhantes. Outros resguardavam imagens de outras pessoas, possivelmente familiares, gente querida. Os prédios mais altos, mais distantes da avenida, também tinham seus observadores, curiosos que, do alto de suas torres, debruçavam-se nas varandas para assistir à romaria.

Com o sol já amainado, o tempo adentrando as cinco horas da tarde, os fiéis seguiam pelas ladeiras para seu destino: o topo do Morro da Conceição, onde se ergue, imponente, a imagem da Virgem Maria proveniente da França, que, ao mesmo tempo que olha com candura a assistência, esmaga uma serpente com os pés.

CHEGADA DA IMAGEM
O Morro da Conceição, como se conhece hoje em dia, foi fruto da própria chegada da imagem de Nossa Senhora ao Recife, inaugurada no dia 8 de dezembro de 1904, em comemoração ao Dogma da Imaculada Conceição de Maria. Na época, o então arcebispo de Olinda, Dom Luiz Raimundo da Silva Brito, quis prestar uma homenagem a esse dogma católico – proclamado como doutrina no ano de 1854 pelo Papa Pio IX – colocando uma imagem em alto pedestal, com base para missas, sobre um dos diversos morros do Recife. Não é coincidência que o dia 8 de dezembro seja, também, o dia da procissão final da Festa do Morro, que ocorre desde a inauguração da enorme estátua da Virgem. Aos poucos, o antigo Oiteiro da Boa Vista (como era conhecido o Morro antes da chegada da imagem), foi adquirindo o nome que tem hoje. E, “com a chegada da Santa, chegaram os pobres”, escreve Severina Santana de Paiva, autora e organizadora do livro Aos pés da santa – A história de um povo, uma coletânea de documentos e depoimentos não só seus, mas de outros moradores da colina.

Falar do Morro da Conceição se mostra indispensável para Dona Sevi, assim conhecida em sua “colina que é o Morro”, como gosta de definir sua casa.De cabelos arrumados, com um cheiro doce e marcante de perfume, trajando uma camisa de Nossa Senhora, a autora não nega sorrisos e simpatia a qualquer um que a aborde em suas idas ao Santuário de Nossa Senhora da Conceição. E foi com simpatia que recebeu a reportagem da Continente em sua casa. Ela conta que a migração de sertanejos, a fim de procurar trabalho na capital pernambucana, foi um dos grandes fatores que desencadearam a ocupação do local. Aos poucos, a vida cotidiana foi se formando ao redor da imagem da Santa. “Tinha apenas algumas casinhas, pequenos mocambos, porque eram moradias pequenas, de barro, as paredes eram só barro e cobertas de capim. Então, não havia escola, não havia posto médico, calçamento, água encanada, potável, nada. Era um povo humilde.”

Dona Sevi lembra com clareza a atuação do Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Camara, durante o regime militar. Estimulados por sua orientação, os moradores do Morro começaram a encontrar os caminhos da luta através da Palavra de Deus. Dom Helder fundou o Movimento de Evangelização Encontro de Irmãos, cujo objetivo era oferecer ao pobre a confiança no pobre, e também instruí-lo na fé e na luta por direitos humanos. “Através da Palavra, começamos a conscientizar as pessoas de que tínhamos os mesmos direitos de quem mora em bairros abastados”, pontua Dona Sevi. Assim, o mesmo Magnificat cantado na procissão de 2016 serviu de inspiração para as diversas lutas e protestos que aconteceram durante a opressão militar. Segundo conta a autora, o trecho “derrubou dos seus tronos os poderosos, exaltou os humildes, encheu de bens os famintos” servia como um mantra, repetido nas reuniões e nas celebrações eucarísticas, fonte de inspiração para a resistência.

Eis que o Morro da Conceição atravessou o tempo, venceu a ditadura, conquistou a democracia e vitórias “pela graça de Deus”. Em comunhão com seus irmãos de comunidade, Dona Sevi continua a se fazer crítica à situação do Morro e da sociedade, de um modo geral. Em suas orações, roga à Virgem pelos seus e, sem rédeas, discursa: “O mundo será melhor quando o menor que padece acreditar no menor”.

A religiosidade, nesse sentido, promoveu união dos moradores do Morro da Conceição, que vem resistindo aos momentos de dificuldade política e social, encontrando caminhos para se afirmar, seja pela criação do conselho dos moradores ou pelos movimentos culturais. E a imagem da Santa, altiva e pacífica, parece abençoá-los e àqueles que vêm aos seus pés, todos os anos, agradecer, solicitar e saudar a sua força majestosa e inequívoca. 

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