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“Passamos por uma crise de historicidade”

Historiador francês diz que a sociedade atual sofre de "comemoracionite" aguda, uma enfermidade que a levaria ao risco da compulsão da repetição, decorrente de uma noção de ausência de futuro

TEXTO Luciana Veras

01 de Fevereiro de 2017

O historiador François Dosse

O historiador François Dosse

Foto Paulo Andrade/divulgação

[conteúdo da ed. 194 | fevereiro 2017]

François Dosse é um historiador francês, reconhecido como um dos filósofos que mais se lançaram a pesquisar o estruturalismo. Professor de Teoria da História e Historiografia do IUFM – Instituto de Formação de Mestres de Versalhes, Dosse é referência, também, no estudo de dois dos mais importantes filósofos franceses do século XX – Michel de Certeau (1925–1986) e Paul Ricoeur (1913–2005). Os dois não poderiam ter trajetórias mais distintas: Certeau, poliglota e ligado ao catolicismo, veio diversas vezes ao Brasil entre 1966 e 1978, onde aprofundou os preceitos que mais defendia no estudo e na prática da História – a escuta do outro a partir da alteridade; ouvir o outro por entender que ele se constitui pela palavra.

Já Ricoeur, protestante, fez com A memória, a história, o esquecimento (Unicamp, 2008) um tratado sobre o “dever de memória”, que parte do Holocausto para ratificar a necessidade de não esquecer e assim evitar que a história, em especial no que se refere a suas piores atrocidades, não se repita. Em comum entre Ricoeur e Certeau está François Dosse, autor de diversos livros, alguns deles já publicados no Brasil, como A história à prova do tempo – Da história em migalhas ao resgate do sentido (Unesp, 2001) e O desafio biográfico – Escrever uma vida (Edusp, 2009). Após tomar para si a tarefa de biografar Certeau, Dosse resolveu radiografar Ricoeur; o resultado é o livro a ser publicado em maio pela Liber Arts, editora acadêmica paulistana voltada para as Humanidades.

Ainda sem título, o volume trará uma perspectiva diferente da produção intelectual de Paul Ricoeur. Certamente, não será uma hagiografia, pois Dosse compreende que resgatar a existência de alguém, quem quer que seja, é um “desafio que nunca terá uma resposta definitiva”. “O que conta no trabalho biográfico não é o sujeito biografado, mas a relação entre o sujeito biografado e o biógrafo, e essa relação é singular e particular. Segundo as perguntas colocadas, os modos de narrativa são diferentes, mas a empatia, ah, ela é sempre necessária. Não podemos fazer uma biografia sem empatia, porém, empatia não quer dizer simpatia”, alerta.

Dosse conversou com a Continente, quando esteve no Recife em agosto de 2016, justamente para falar sobre Ricoeur em perspectiva às mudanças que atravessaram o século das grandes guerras mundiais. Sobre o cotejamento entre empatia e simpatia, e no tocante ao seu próprio exercício de pesquisador biógrafo de filósofos que ele admira, foi claro: “Escrever uma biografia é um trabalho imenso de transporte, de transferência afetiva e intelectual, de arquivo e investigação. Acredito que seria um pouco masoquista escolher alguém com quem você antipatiza. Em geral, tomamos figuras das quais nos sentimos mais próximas, com quem tenhamos uma relação intelectual mais interessante. Porém, é como disse: empatia não é simpatia. E o grande exemplo disso é que a melhor biografia do monstro que foi Adolf Hitler é o livro de Ian Kercheau, que fez um enorme trabalho, uma biografia magnífica, mas que definitivamente nunca morreu de simpatia pelo seu personagem”.

CONTINENTE Michel de Certeau diz que a história é o que é vivido; a historiografia é o que se narra, o que se escreve. Como tal, é uma escrita sujeita a lacunas, a ideologias e à política. Hoje, vive-se um tempo de excesso de informações, uma espécie de memória saturada – na mente, nos celulares, nos arquivos de computadores cheios. Como viver, experienciar e escrever a história em tempos de hipermemória?
FRANÇOIS DOSSE Você toca num ponto fundamental de nossa conjuntura: aquilo que chamo de crise de historicidade e que se caracteriza, com efeito, naquilo que eu descreveria como uma “comemoracionite” aguda. É uma forma de enfermidade senil ou, para retomar um termo freudiano, o risco da compulsão da repetição. Uma simples nostalgia por parte de uma sociedade que, não tendo mais futuro, volta-se apenas para o passado – já que não há projeto no horizonte, não tem como reciclar-se e passa a se repetir, como um idoso que não tem mais futuro e que só pode falar de sua infância e de sua juventude transcorridas com uma certa nostalgia. Mas é preciso ver também a importância memorial atual ligada ao fato de que houve o que chamo de “humanização de ciências humanas”, uma consideração maior da experiência vivida dos indivíduos. A passagem dos grandes conceitos fundadores à interrogação desses mesmos conceitos a partir da experiência humana propriamente dita. Logo, uma consideração da memória dos indivíduos, da memória dos grupos e do componente essencial da história, como bem demonstrou Pierre Nora no seu livro Lugares de memória. Nesses sete extensos volumes, Nora mostra que é preciso distinguir história e memória, mas que, ao mesmo tempo, não mais podemos dissociá-las, e, sim, pensá-las conjuntamente, inclusive no plano das descobertas históricas, da ciência histórica que é tributária das memórias coletivas. Aí penso na memória da Guerra da Argélia, na memória de Vichy e em todo trabalho que mostra que houve fases de resistência, por exemplo, no período de Charles de Gaulle, que houve focos que se opuseram à política de colaboração a Vichy, e como essa lenda de que não houve resistência foi sendo desconstruída pelos historiadores para melhor entender o sentido desse período. Quanto a isso, Michel de Certeau é extremamente importante. Ele mostra que podemos ter uma relação crítica com a memória, que pode ser concebida como fonte e recurso de criatividade, como portadora de um futuro, que se possa fazer dela um germe para construção futura. Por outro lado, ele mostra que a operação historiográfica resulta de um lugar, de uma prática social, de uma escrita pessoal do historiador. Não há uma história que seria uma espécie de julgamento divino. O historiador está implicado nas questões sociais, sendo ele mesmo marcado pelo seu próprio público, por seu próprio repertório. É preciso recolocar em situação que a produção histórica escrita nunca é o reflexo direto da história realmente acontecida; ela é sempre mediada pelo historiador.

CONTINENTE Quem escreve a história são os vencedores. Como produzir um contradiscurso ou uma espécie de novo discurso na voz dos vencidos? A narração é guardiã do tempo, sem narração não se faz história. Há espaço para contranarrativas?
FRANÇOIS DOSSE Sim, sim, e cada vez mais. Isso está ligado à questão da memória e do enriquecimento, mas não apenas pela memória, mas pelas memórias. Você tem razão quando diz que a história é, de fato, escrita pelos vencedores. Porém, sob os vencedores, há os vencidos, que em geral mantêm o fio de sua memória coletiva. Às vezes por via oral, ou por vozes escritas que permaneceram subterrâneas. O que estamos vivendo hoje é cada vez mais uma tomada em conta dos mudos, dos vencidos, das pessoas que não tinham poder; as histórias das massas, das mulheres. As mulheres são um bom exemplo de vencidos que, hoje, são cada vez mais reconhecidos com os estudos de gênero. Uma revista de historiadoras francesas propõe novas maneiras de escrever a história do ponto de vista das mulheres. Podemos dizer que tem acontecido a mesma coisa no que tange aos operários, aos imigrantes e a todos os povos que são efetivamente marginalizados.

CONTINENTE Paul Ricoeur, no seu livro clássico A memória, a história, o esquecimento, escreve que “o lugar do esquecimento no campo que é comum à memória e à história deriva da evocação que é feita do dever da memória. Este pode ser igualmente expresso como um dever de não esquecer”. Partindo do trabalho de Ricoeur com as memórias da dor dos países que passaram por ditaduras na América Latina, podemos pensar que existe, na historiografia atual, o dever de não esquecer essas grandes dores que a história oficial ajudou a cimentar?
FRANÇOIS DOSSE Aí existem duas noções: aquela do dever de memória e uma outra que é colocada por Ricoeur também, que é a noção do trabalho de memória. Alguns acusaram-no de abandonar o dever de memória. Disseram que ele sugerira esquecer o Holocausto, o que é completamente falso. Visto que ele, aliás, lembra um trecho do Deuteronômio em A memória, a história, oesquecimento que é “lembrem-se, lembrem-se”, Ricoeur, sendo protestante, só pode estar no domínio desse dever de não esquecer os humilhados, os homens feridos. Ao mesmo tempo, ele considera, antes do dever de memória, e para que as memórias não se encerrem no ensimesmamento, a necessidade do avanço de uma noção dinâmica, tomada emprestada a Freud, do trabalho de memória. Uma noção assimilável a esse trabalho de elaboração de que fala Freud, que é essa apropriação da perda do objeto amado, dos próximos que desaparecem, mas não de maneira mortífera ou repetitiva. Apropriar-se deles para relançar o futuro. O trabalho de memória deve ser portador de um futuro. Ele deve recriar uma dinâmica criativa e de vida de um passado mortífero, um passado traumático, e podemos utilizar a metáfora usada por Michel de Certeau – um passado como tumba para os mortos. Mas não um sentimento mortífero, e, sim, uma tumba no sentido de honrar os mortos, determinar-lhe seus lugares para que eles não venham assombrar o presente. A partir do momento em que lhes é atribuído um lugar, que eles são honrados, em que eles assombram o presente, podemos abrir o presente do futuro. É um pouco a lógica do passado, presente e futuro que é atribuído à história por Michel de Certeau.

CONTINENTE Certeau fala de uma inversão escriturária – a escrita da história começa pelo fim: uma vez que o problema acaba, você pode finalmente escrever. Tendo em vista os acontecimentos de 2016 no mundo – no Brasil, um impeachment; a crise dos refugiados, a avanço do terrorismo e ascensão de uma extrema direita na França – como se narrará essa história do contemporâneo? Partindo do princípio que, em sua obra, você se descreve como “um historiador do tempo presente” e pensando, como o próprio Certeau disse, que não existe a epistemologia da distância.
FRANÇOIS DOSSE Com efeito, o problema que você coloca é o problema maior da História, que é historiar o tempo presente. O historiador do presente tem um handicap, um problema em relação ao do passado, na medida em que ele não sabe como as coisas vão evoluir. Mas os historiadores nunca têm essa distância crítica, porque, apesar de ser um trabalho de objetivação, o lugar e a prática do historiador ocorrem concomitantemente a um trabalho complicado de escrita. Não é verdade que haja uma distância completa do objeto; ele está integrado ao que descreve, ele participa das questões que se colocam em relação ao determinado objeto. Nunca é o passado que fala, é o historiador que fala do passado. Por sua vez, o historiador do tempo presente está confrontado com uma indeterminação daquilo que vai acontecer que ele não pode prever. Um exemplo que mostra bem a importância e a incapacidade dos historiadores vem justamente de um dos grandes franceses, Ernest Lavisse. Ele foi muito importante para a construção da história nacional dos manuais escolares, era uma instituição. Na época em que também era o maior especialista em história francesa, em que ele havia escrito os livros didáticos que as crianças do século XIX utilizavam para ler e escrever, perguntaram-lhe se ele achava que haveria uma guerra. O ano era 1914, repare. Ele respondeu que um historiador estaria muito malcolocado para predizer o futuro, mas que, se havia uma coisa da qual tinha certeza, e que podia garantir, é de que não haveria uma guerra. Com certeza, isso é uma deficiência, mas também é um trunfo e transformou até mesmo a maneira pela qual se escreve a história do passado.

CONTINENTE Por quê?
FRANÇOIS DOSSE Porque, confrontado-se com a indeterminação do presente, o historiador mostra o que havia de indeterminado no presente das sociedades passadas. E porque temos a tendência, quando conhecemos o fim de uma certa peripécia histórica, de cometer o erro de acreditar que as sociedades passadas também conheciam esse futuro. Entre os historiadores, há uma tendência a encerrar os determinados períodos historiados em causas e definições muito míticas, num sentido teleológico; mas dentro de um continuum lógico e histórico, trata-se de uma lógica que é depois reconstruída. A contribuição da história do tempo presente é mostrar que em todos os períodos – seja uma atividade na Idade Média ou na época moderna –, quando examinamos as sociedades, elas estão em plena indeterminação do que seria seu futuro. Então, é preciso reencontrar essa indeterminação, desfatalizar a história. E, para isso, é preciso deslocar o olhar histórico. Antes, o historiador tinha como tarefa buscar as causas e as razões; por exemplo, as causas da I Guerra de 1914, o conflito em terras imperialistas, a paz armada. Era só submeter à lógica das causas profundas e causas próximas e encerraríamos o evento, o acontecimento. Hoje em dia, com o crescimento de tudo, é preciso lembrar o que disse Certeau: o acontecimento é aquilo em que se torna, sobretudo para nós. Poderíamos perguntar-lhe hoje, por exemplo, a respeito de como ele faz o reencontro na relação história e memória, quando um acontecimento gera fortes traços na memória coletiva. Tomemos o exemplo de Joana D’Arc. Ela vem de longe, do passado, da Idade Média, mas é uma figura que ainda é muito utilizada. Foi imortalizada e instrumentalizada pelos republicanos, hoje é usada ora pela extrema direita, pelos católicos… Não estamos mais discutindo a história ou a vida de Joana D’Arc, e, sim, a utilização da figura dela até hoje, o que nos leva a perguntar: como vemos Joana na atualidade? Evidentemente, o dia de hoje não tem mais nada a ver com aquela época que ela conheceu, de modo que é como se fizéssemos uma telescopia do tempo. Isso nos remete a relações complexas entre a história e a psicanálise, e é aí que encontramos novamente Michel de Certeau: entre ciência e ficção, numa epistemologia mista que está entre os dois polos.

CONTINENTE Nesse sentido, por que seguir estudando Certeau e Ricoeur, este último com sua filosofia dos desvios, ainda inacabada, em um mundo cambiante e repleto de incerteza?
FRANÇOIS DOSSE É absolutamente essencial. São absolutamente essenciais, porque são pensadores que permitem abrir o futuro. Como disse, nós temos uma crise de futuro. Esses pensamentos são muito importantes, porque ajudam a criar um projeto coletivo, de sociedade, de emancipação, com valor universal. E esses dois pensadores são abertos a esse horizonte de espera, a essa postura criativa. Por outro lado, Ricoeur, por exemplo, diz que é preciso revisitar, no passado, não apenas a história dos vencidos, mas também revisitar aquilo que ele chama os possíveis não verificáveis do passado. Os possíveis que eram potenciais e que foram quebrados, despedaçados, rejeitados, e que podem ser fontes para repensar o futuro ou uma ideia de projeto coletivo de futuro. Logo, essa postura gera o termo inacabamento. Não há um sistema de pensamento encerrado; há sempre uma abertura para que as gerações futuras retomem o legado e possam reinterrogá-lo. Outra necessidade maior de Ricoeur e Certeau é referente à capacidade de ambos para reter e incentivar um pensamento transversal – não encerrar seus limites disciplinares e se abrir às contribuições da filosofia, das ciências humanas, das ciências exatas, da sociologia e assim avançar no saber e na capacidade de pensar o mundo dentro de um abordagem transdisciplinar. Mesmo falando de um historiador, no caso de Certeau, e de um filósofo, como Ricoeur, ambos estão abertos a partir do momento em que são convocados a responder às questões do presente. O pensamento de ambos permanece muito atual. É imprescindível alimentar a ideia de valorizar o que chamo de pensamento dialógico, com a articulação de legados geracionais diferentes, e de pensar como uma civilização pode ser enriquecida por sua relação com a alteridade, com o outro. A alteridade transforma, melhora e abre o espírito – tanto Certeau como Ricoeur têm a certeza de que todos nós estamos nesse outro que nos transforma. 

 

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